Sobre trabalho, marketing pessoal e escravidão moderna

Nunca entregue seu projeto sem divulgar o que você faz. Se encontrar alguma dificuldade, faça o maior alarde possível. Grite na sala e diga “puta que pariu, não consigo fazer essa merda. Pedi ajuda no SO e só achei um merda das arábias que passou pelo mesmo problema”. Da mesma forma, sempre alardeie seu esforço com frases como “vocês não tão ligados, eu tive que varar a merda da noite pra entregar”, “pqp, quase não consegui fazer porque tava sem rede” e etc. As reuniões (malditas) de daily meeting são fundamentais para se vender. Sim. Você mesmo! Aprenda a se vender melhor!

Eu cheguei a dizer em posts mais antigos que ser um sênior de verdade significa também tornar as coisas fáceis para quem te emprega. Significa quebrar as pedras e etc. Mas infelizmente, as coisas nunca são tão fáceis como deveriam ser. Às vezes você é um cara muito bom que faz as coisas, entrega e o que você ganha com isso? Mais trabalho e reconhecimento zero. E além disso, dependendo de como você faz o trabalho, as pessoas podem estar com expectativas diferentes em relação à tua entrega. E isso pode ser fatal para sua carreira. Muitas vezes, por você ter um salário bom, os gestores incompetentes e talvez psicopatas acabam achando que são teus donos. E acabam de colocando cobranças incríveis nas costas.

Portanto, você acaba se tornando uma vítima e pode acabar se tornando um neo-escravo, que é uma forma sutil de escravidão e assédio onde você se submete ao julgamento de caras filhos da puta que te sempre te dizem que teu trabalho nunca está bom o suficiente e que você precisa se esforçar cada vez mais para dar resultados melhores. Muitos amigos acabam seguindo pelo caminho de drogas para aumentar a performance, na ânsia de manter resultados bons e eventualmente, manter o emprego. Ao se tornar este tipo de escravo, sua vida estará virtualmente acabada. Horas-extra na faixa, atuação em mais de um projeto, cobranças tanto de gestores como de clientes e muito mais. Este tipo de situação não tem saída fácil e o ideal é tentar evitar que ela aconteça.

Se você já estiver nesta situação, tente mudar de projeto, de gestão ou de empresa. Ou, como disse em outros posts, seja um cusão e assuma os riscos de fazer só o teu trabalho e ser mandado embora por isso. Nessa crise que foi inventada/agravada por pessoas com interesses nada nobres, a necessidade de colocar medo e cobrança nas pessoas que não têm mais tanta facilidade para trabalhar é algo criminoso, que precisa ser denunciado, mas também, é algo muito mais comum. Há cada vez mais pessoas de todas as áreas que estão sofrendo com burn-out e doenças como depressão e câncer, todas oriundas de desequilíbrios que acontecem nas mais diversas dimensões da existência humana (espiritual e física).

Para não cair nesta situação, tente se vender mais. Tente expor as dificuldades que você está tendo. Tente se comunicar mais. Tente evitar trabalhar calado. Invista no seu marketing pessoal também na internet — ter um nome e ser conhecido na internet ajuda muito em como a empresa decide te tratar! E principalmente, tente ter um outro compromisso formal para não ficar fazer horas extras de graça para alguém andar de X6 às custas do teu suor, choro, cabelos brancos, cortisol, gordura, má-alimentação, falta de sono, brigas em casa e coisas assim.

A harmonia é pedra fundamental da vida de um ser humano.

PS: há também a armadilha do grande bônus no fim do ano. Certas empresas (sim Banco X, eu estou falando de você) colocam um bônus semestral/anual muito agressivos para….. fazer você trabalhar por 1,5 a 2,5 funcionários!!! Então na prática, os 6 a 8 salários anuais adicionais realmente são justos, porque você trabalhou sem hora extra ao invés de contratarem outra pessoa para dividir a demanda. Só caiam nessa se vocês estiverem totalmente dispostos a se foder para capitalizar em prol de algum motivo santo, como comprar um apto à vista, construir uma casa ou coisa assim. E olhe lá viu… um conhecido nosso fez isso e morreu, menos de 2 anos após construir uma casa de 6 banheiros.