Ilustradora convidada: Franciane Bourscheidt

Go, Writers — um curso de vida disfarçado de curso de escrita

A frase dita, por um amigo de Cris Lisbôa, deixa curioso quem ainda não conhece e faz muito sentido pra quem já teve a oportunidade de colocar o coração no papel em alguma de suas aulas.

Se você já esbarrou os olhos com esse nome por aí, em algum momento se perguntou:

Mas o que é Go, Writers?

Desde o comecinho, ele é um curso de escrita criativa. Seja para quem usa o texto como matéria-prima ou pra quem quer apenas colocar no papel as palavras que tem presas no peito.

E quem é essa pessoa maravilhosa capaz de fazer isso?

Sou suspeita pra falar tanto da Cris quanto do Go, Writers, que literalmente iluminaram minha passagem de vida em Porto Alegre. Mas lá vai:

Cristiane Lisbôa nasceu em Porto Alegre, mas passou a infância toda em Uruguaiana. Voltou pra cidade natal pra fazer faculdade, de jornalismo, e apesar de gostar da área achava a faculdade muito chata. Sempre gostou de colocar as coisas em movimento e com 18 anos já trabalhava: “estava entediada”, confessa.

Então foi pra São Paulo passar as férias com o namorado e uma amiga dele ofereceu um trabalho de assessora de imprensa — voltou pra buscar suas coisas no Sul e por 11 anos morou na capital paulista.

Segundo ela, fez todas as coisas possíveis, trabalhou muito e em todos os lugares que queria — publicou na Revista Rolling Stones e na Revista MTV, por exemplo.

Quando a mãe ficou doente, sentiu que não dava mais pra ficar indo e voltando e se mudou de vez pra Porto Alegre.

Trabalhou em agência e depois na Revista Noise, onde ficou como Diretora de Redação por 3 anos.

“Até que a namorada de um amigo meu, que tem a empresa Altos Eventos, me pergunta: por que tu não dá um curso de escrita? Eu falei “jura, não gosto de gente burra, não tenho paciência, falo palavrão, tá louca?’ Deu uma semana a Mari estava na minha mesa, com um logo que meu amigo tinha feito escrito Go, Writers e eu disse: o que é isso? Ela: Um curso que eu inventei, tem 12 alunos.”
Ilustradora convidada: Franciane Bourscheidt

E assim começou, com encontros semanais em um coworking, Cris ia montando junto com os alunos os temas para as aulas dentro do interesse e dificuldade de cada um, isso tudo enquanto ainda trabalhava na revista.

Mas aí aconteceu o inesperado: ela se apaixonou absurdamente por dar aula. “Eu nunca tinha achado tão maravilhoso algo que não fosse escrever sozinha, quieta no meu canto.”

Resolveu então dar só aula, por seis meses, pra ver o que aconteceria — se não desse certo, tudo bem, voltaria pro mercado. A reação do pessoal da revista, nunca vai esquecer:

"Eles ficaram chocadíssimos. Eles me diziam que não acreditavam que eu ia deixar o cargo mais alto da revista para fazer algo que não existia. Eu olhei pra um deles e disse: 'Juízo não é meu sobrenome, é Lisbôa.' A gente riu e começou muito pequenininho."

Mas saiu super de boa com eles, e ainda fazia alguns trabalhos para a revista, que a ajudaram a se manter e ir estruturando tudo. No começo, as aulas eram na casa dela, e os alunos eram só indicados, amigo de amigo, e assim montava as turmas.

Não lembra como, o Tiago da CoolHow de BH (alô Belorizonte!) ficou sabendo do Go, Writers e perguntou se ela toparia ir pra BH. A resposta foi “BORA!” mesmo só tendo dois amigos lá. Então, mandou um e-mail desesperado pra eles dizendo que ia dar um curso em BH, pra eles avisarem geral. Ah, importante dizer que esses amigos nada mais eram que Ronaldo Fraga e Fernanda Takai. Resultado: tinham 40 pessoas na turma, lotou e foi sucesso (apesar de ter ficado apavorada). Depois decidiram levar pra outros lugares, começando por Rio e São Paulo — e assim o curso foi ficando itinerante, algo que ela já queria. Hoje o Go, Writers tem quatro módulos e varia entre eles, pois são independentes. Além disso, lançou o Clube da Escrita, onde envia pelo correio os cadernos para quem quer continuar destravando as palavras.

Ilustradora convidada: Franciane Bourscheidt

Nesses 3 anos de vida, o Go, Writers já mudou de formatos tantas vezes quanto a dona dessa festa mudou os móveis de sua sala de lugar (ok, talvez nem tanto assim). Mas, bem como ela disse: “gente, eu não preciso me prender a um negócio que eu mesma inventei”.

A produção em Minas Gerais quem fazia era o pessoal do CoolHow, nos outros lugares ficava nas mãos de uma amiga. Hoje, quem faz tudo é a professora. Uma ajuda extra vem da Crib Tanaka, uma de suas melhores amigas além de consultora de marketing a.k.a colocadora de chão nos castelos construídos no ar — como define a própria Cris.

Aliás, perceberam como a palavra amigo se repete na história da dela?

"Eu brinco que se eu fosse fazer uma reunião dos colaboradores do Go, Writers seria o meu aniversário, porque são todos meus amigos. Os caderninhos o meu pai faz, ele imprime em casa, grampeia e ele acha ótimo, se diverte, dá ideias. Essa é a cara e é como eu quero que as pessoas entendam. A minha irmã é minha sócia e ela é super prática, me ajuda na parte estrutural, das inscrições, financeiro, e eu consigo resolver a parte criativa e tem dado muito certo. Como o Go, Writers nunca foi uma coisa pensada, eu fui aprendendo e descobrindo como ele era na estrada."

Além da família Lisbôa, hoje o Go, Writers tem também parceria com uma empresa terceirizada que oferece os módulos nas empresas — os quais têm uma estrutura pensada exclusivamente pra cada uma.

Cris acredita muito que morar em Porto Alegre a ajudou a colocar o projeto em prática, pois foi onde encontrou uma rotina muito mais leve do que a que tinha em São Paulo: "Porto Alegre me deu tempo para pensar." — completa.

Tem visto uma abertura para a criatividade na cidade, mas também um “encaretamento” por conta da tradição. Sente falta de cafés que abram cedo e espaços alternativos, onde as pessoas circulem mais — o que tem visto mais em BH.

Relembra que o investimento inicial foi zero, pois nunca teve dinheiro guardado. Levaram então 2 anos até que fosse possível viver apenas dos cursos. “Eu sou muito grata, porque os alunos quase sempre voltam.” — sorri. E eu sou testemunha que sim! ❤ Não há como resistir sua doçura-faca-na-bota e a risada maravilhosa que ela tem.

Quando lhe perguntamos se faria alguma coisa diferente, não hesita:

“Muitas coisas. Eu teria confiado mais no meu feeling, eu acho que eu demorei pra acreditar que eu era capaz. Eu sou muito tímida, eu me esforço muito pra dar uma aula. Eu não tenho formação para ser professora, então eu tinha medo de não acertar o ponto e ser muito grossa. Hoje eu acredito, mas demorei muito.”

Sente que hoje chegou num formato legal, mas não tem medo de mudar — desde que siga fiel ao seu jeitinho: "Em um mundo tão rápido e conectado, manter essa ‘caseirice’ é quase um ato de resistência".

Fotos: facebook Go Writters

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