Ilustrador convidado: Lucas Falcão (PE)

Reciclo Bikes: as magrelas mais lindas das vias urbanas do Recife.

Thaís Yoshioka
Jun 9, 2016 · 8 min read

A empresa deu certo e ninguém duvida. O plano de negócio era bem definido: tornar seu hobby uma marca de referência local e em pouco mais de 3 anos abrir uma loja física e inaugurar seu e-commerce para o país todo. Essa é a história da Reciclo Bikes, exceto por um detalhe: não havia plano algum.

Pat praticava mountain bike aqui nas terras do Capibaribe e decidiu levar sua magrela para a temporada na Itália. Maria, vivendo na Irlanda, se apaixonou pela bike fixa. As duas voltaram e ficaram sem suas bicicletas: uma porque foi roubada e a outra porque não trouxe a bike sem freio. Mas nem tudo estava perdido. Afinal, nesse tempo fora do país, Recife tinha se tornado uma cidade mais amigável para os ciclistas urbanos.

De volta a Recife em 2012, Pat comprou uma bike e resolveu customizá-la já que tinha alguns conhecimentos de mecânica herdados da época que praticava mountain bike. O segundo passo foi ajudar Maria a montar sua amada bicicleta sem freio, peça por peça.

“Eu comecei a usar como meio de transporte e todo dia na rua alguém me parava e perguntava ‘Que bicicleta é essa? Cadê seu freio? Que bicicleta diferente, onde você fez’ e eu dizia que eu mesma tinha feito.” Maria

O interesse constante dos amigos fez as meninas aceitarem sua primeira encomenda. Fizeram um orçamento do quanto gastariam, calcularam uma margem e parcelaram em suaves prestações. Paralelo a isso, elas continuavam envolvidas em projetos de arquitetura, área de formação das duas.

Sem muita complicação e sem muito planejamento, outros clientes foram aparecendo por indicação. Além disso, a inauguração da ciclo faixa aos domingos no Recife Antigo teve impacto direto para a Reciclo Bikes, que passou de 100 para 2 mil seguidores no Instagram.

Na mesma época, a Prefeitura convidou as meninas para expor as bicicletas customizadas em um quisoque no Marco Zero aos domingos. Logo em seguida o Shopping Paço Alfândega, também no Recife Antigo, realizou uma exposição com as bikes que elas tinham produzido. Tamanho interesse e visibilidade do que faziam como hobby, trouxeram a consciência de que “realmente, a gente é um negócio e tem que se organizar.”

“A gente foi indo aos pouquinhos pelas oportunidades que foram acontecendo no caminho”

Por sugestão de uma amiga empreendedora, Pat e Maria procuraram uma consultoria em gestão da inovação no Porto Digital e o site passou a ser o primeiro objetivo da marca. Nessa mesma época, o coworking Impact Hub foi inaugurado no Recife Antigo e representou a oportunidade delas alugarem um espaço para receber os clientes, até então atendidos em suas casas. Além do preço mais acessível, a surpresa foi o andar térreo não estar com as obras concluídas e da troca dos seus serviços como arquitetas, Pat e Maria conseguiram um espaço maior para venderem seus produtos.

“Na consultoria a gente tinha metas e prioridades. A primeira era o site porque ele era mais tranquilo e a gente conseguiria administrar sem precisar de uma estrutura gigante. Depois era a venda de acessórios e por último era a loja, mas foi tudo ao contrário.” Maria

E foi justamente essa sensibilidade de contrapor o planejamento a uma oportunidade inesperada que garantiu conquistas tão importantes que certamente levariam muito mais tempo para serem concretizadas, simplesmente porque elas nunca imaginaram que o hobby poderia se tornar uma empresa. Para testar essa sabedoria de tomar decisões, o acaso ainda apresentou mais duas grandes chances disfarçadas de imprevisto e a primeira delas foi um convite realizado pela Natura.

A parceria local já estava acertada, mas a chance de participar do projeto em escala nacional dependia da existência do site que havia ficado de lado, após a conquista do espaço físico no Hub de Recife. O que parecia um empecilho foi, na verdade, o fator que impulsionou a criação do site.

Mais recentemente, a decisão de mudar para um espaço maior - integrando serviços de mecânica, estoque e administração - surgiu depois de Pat precisar de um novo lugar para seu escritório de arquitetura, atividade que permanece exercendo. Hoje a casa no Espinheiro, dividida com a marca Etiqueta Verde, é escritório para a Reciclo Bikes e o local de trabalho de Pat enquanto arquiteta.

Ilustrador convidado: Lucas Falcão (PE)

“Na verdade a gente foi com o coração e agora está entrando a razão “

O fato de não serem empreendedoras e do negócio ter nascido de um hobby fez as meninas aprenderem a gerenciar uma empresa na prática e claro que sem conhecimento prévio, os caminhos se tornaram mais complicados. Para elas, os anos iniciais foram os mais difíceis, principalmente porque a vontade de fazer a Reciclo dar certo fez com que as sócias não poupassem seus esforços nessa dedicação e, naturalmente, trabalhar de domingo a domingo causou um desgaste para a dupla.

“Foram quase 2 anos de loucura completa e foi nessa hora que a gente pensou, ou fecha esse negócio ou a gente se reorganiza. Porque você fica querendo que o negócio dê certo, querendo pegar tudo. Teve uma hora que a gente decidiu que não ia mais pegar tudo, porque às vezes tinham coisas que não valiam a pena financeiramente.” Pat

Além da decisão de não trabalhar mais aos domingos e reduzir o expediente nos sábados, as sócias começaram a avaliar quais tipos de serviço geravam melhor retorno financeiro e embora fiquem com os olhos brilhando quando falam sobre o desafio de montar uma bike inédita peça por peça, hoje as meninas só trabalham com opções que já tenham desenvolvido justamente para ganhar tempo no processo.

“Nada foi pensando, tudo foi melhorado”

Em 2015 uma estudante procurou a Reciclo Bikes, entre outras empresas, para incluí-la em seu projeto de pesquisa de mestrado. Em contrapartida, as meninas pagavam um valor pequeno pelo acompanhamento de uma consultoria por um ano. Essa parceria contribuiu para a Reciclo Bikes melhorar os processos, incluir novos produtos e elaborar um planejamento estratégico para 2016. Inclusive, uma das metas desse ano era vincular o estoque ao e-commerce e hoje em dia elas já possuem um único software que sincroniza tudo em tempo real.

Outro elemento fundamental nesse processo de amadurecimento do negócio foi a decisão de setorizar o que cada sócia faria na empresa. Antigamente, como não tinham as responsabilidades bem definidas, alguns detalhes passavam despercebidos, gerando ruídos na comunicação. Hoje, embora se mantenham conectadas com tudo que acontece na empresa, Maria é responsável pela mídia e comunicação e Pat pelo financeiro e questões mais administrativas. Essa mudança foi um dos elementos importantes para enfrentar o momento de crise econômica no país, mesmo o negócio sendo recente.

“É muito complicado, porque a gente não passou da fase do eu-empresa, entendeu? A gente está aos pouquinhos organizando e talvez daqui 1 ano, 1 ano e pouco a gente esteja melhor. No início a economia estava bombando, agora o negócio está outro. Por outro lado isso foi bom, porque a gente tomou algumas medidas de economizar em algumas coisas e melhorar em outras. Isso é bom para a gente ver se aguenta.” Pat

“Hoje a gente pode dizer que já tem uma organização mais empresarial”

Além das duas sócias, a Reciclo Bikes conta com o Giba, mecânico que acompanha as meninas desde o começo. Como o orçamento ainda não permite incluí-lo como funcionário fixo, a ideia foi estabelecer uma parceria que fosse interessante para ambas as partes. As meninas montaram uma oficina mecânica com todos os equipamentos e para usar o espaço, Giba contribui com um aluguel mensal. Por outro lado, ele tem a liberdade para atender seus próprios clientes, além da clientela da Reciclo Bikes.

Ilustrador convidado: Lucas Falcão (PE)

Mas no final disso tudo, em que pé andam os negócios?

De longe, a impressão é de que a empresa vai muito bem, obrigada e as meninas estão pedalando em mares de dinheiro. Mas a realidade é um pouco diferente.

“De fora as pessoas pensam que a gente está rica, mas tudo que a gente ganhou está investido aqui dentro. Como eu tenho outro trabalho peguei quase nada. Tudo o que a gente faz da Reciclo é com o dinheiro da Reciclo. A gente abre mão do nosso dinheiro pessoal para poder melhorar um processo, por exemplo. A gente abriu mão para poder vir para essa casa. A gente abre mão por várias coisas. Então são escolhas empresariais e antigamente a gente não pensava nisso”. Pat

E a terra do Capibaribe nisso tudo?

Recife não pode ficar de fora dessa trajetória tão encantadora, porque sua cultura tem um traço identitário que favorece o surgimento de negócios inovadores. Sabe aquela megalomania recifense que torna tudo o que acontece aqui o melhor ou o maior em linha reta da América Latina? Pois é, isso nada mais é do que um sentimento de pertencimento e valorização de tudo que é local.

“O bairrismo é muito peculiar. A gente valoriza muito o que é daqui. Por exemplo, eu acho que Pernambuco, falando emgeral, é um dos poucos estados em que você canta o hino, vibra e canta no carnaval com todo mundo. Essa valorização do que é da terra, do que é da gente e do que tem a cara da gente é bem peculiar de Recife.” Maria

E a Reciclo Bikes corresponde a esse amparo cultural, contribuindo para um movimento tão pulsante de tornar a cidade mais acolhedora para as pessoas.

“O mais interessante de ter um negócio como esse é a contrapartida em relação aos nossos princípios de tentar ser o mais verde possível, saca? De pensar sempre em colocar as bicicletas na rua, tirando os carros, porque a gente só faz bicicleta urbana. Eu acabei de atender uma cliente que veio deixar a bicicleta na manutenção que ela só usa para passear com o filho. Ao mesmo tempo tem gente que quer começar a trabalhar de bike e quer adaptar com coisas que ajudem nesse transporte. Então é muito gratificante. Como em Recife está crescendo esse movimento de trocar o carro pela bike, é muito massa você se ver fazendo parte dessa mudança de tentar deixar a cidade melhor.” Maria

Bom, depois de alguns cafés e da conversa incluir a participação do Giba para conferir a chegada de um pedal de alumínio de um cliente, a minha vontade foi ganhar as ruas do Recife com uma bike charmosa por aí….

E que tal batermos um papo para você conhecer mais sobre o projeto aResta? Mande um oi pelo e-mail projetoaresta@gmail.com que marcamos um café.

projeto aResta

Empreendedorismo fora do eixo. Um estudo contínuo que surgiu da vontade de olhar para a esquina de casa e falar de projetos das arestas do mapa do Brasil.

Thaís Yoshioka

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o banal extraordinário.

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