Pode me chamar de pioneiro

A paixão pelo o clube e o bairro que movem o coração do banguense Clécio

Foto: Projeto Incondicional

Os cinco minutos de caminhada pela Rua Ribeiro de Andrade que separam a estação de trem Guilherme da Silveira do galpão de Clécio Regis de Assis, de 55 anos, não deixam dúvida do bairro onde estamos: Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro. As cores vermelha e branca pintadas na fachada e uma bandeira tremulando lá no alto mostram qual será o principal assunto da conversa: o Bangu Atlético Clube.

Banguense desde pequeno por influência de seu tio, um guerrilheiro comunista que se escondia no bairro na época da ditadura, Clécio teve o amor pelo time intensificado quando se mudou para Bangu, aos 11 anos. Vinha do Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho, Zona Norte. “Quando eu saí do Juramento para vir morar em Bangu, vi a Vila Operária, a Praça Guilherme da Silveira, estádio de futebol, aquelas coisas que eu não via lá no morro. […] A Igreja de São Sebastião e Santa Cecília no fundo, o Bangu Atlético Clube, a Fábrica… e falei: isso aqui é Londres, muito bonito. Foi uma paixão que vinha desde criança. Só fortaleceu essa paixão pelo Clube. Fui me dedicando, aprendendo, conhecendo, fiz amizades”, conta.

Ele lembra que as cores da camisa de um torcedor do Bangu, que acompanhava o jogo da final do Campeonato Carioca de 1966 através de um radinho de pilha e que comemorava a cada gol do time da Zona Oeste, também contribuíram para a sua escolha. “Era um gol atrás do outro em cima do Flamengo. Foi 3x0. Atropelou. Tanto é que, se o Flamengo não tivesse posto o Almir pra acabar com o jogo, que era um brigão, seria uma goleada histórica. Mas foi uma goleada muito folgada. 3x0 rápido.” O jogo foi disputado no Maracanã. Com gols de Ocimar, Aladim e Paulo Borges, o Bangu conquistou seu segundo campeonato estadual perante um público de 143.978 presentes.

Foto: Projeto Incondicional.

Esse, porém, não foi o mais marcante para o torcedor, que deixa o rótulo para o jogo que culminou no vice-campeonato brasileiro, em 1985. Após empatar por 1x1 com o Coritiba no tempo normal, o Bangu perdeu nos pênaltis e pôs fim ao sentimento de euforia que vinha das arquibancadas do Estádio Mário Filho.

“O Bangu botou 96 mil pagantes e é mais um dos pioneirismos do Clube. Ele conseguiu juntar todas as torcidas do Rio de Janeiro, do menorzinho, que é o Olaria, o Bonsucesso, o Madureira, até o Flamengo. O Russão, chefe da torcida do Botafogo, viu o jogo sentado atrás de mim. Eu lembro que eu soltei um balão escrito Tóquio. Estava entusiasmado. O balão com formato do escudo do Bangu, bateria da Mocidade. Foi realmente uma festa. Mas foi uma ducha fria por que perdemos nos pênaltis e foi muito triste. O Ado perdeu o pênalti e ficou marcado para o resto da vida. Sem sombra de dúvida foi o jogo mais emocionante de todos. Não teve outro”, relembra.

Clécio está presente em todos os jogos do Bangu, exceto quando há compromissos relacionados à profissão. O trecho entre a entrada e os fundos do galpão, onde está o escritório dele, é cercado por elementos que representam parte de sua vida. Proprietário de uma empresa que atua com cenografia, arte e cultura, é possível observar os trabalhos desenvolvidos por ele e sua equipe ocupando os grandes espaços. E, no meio deles, está o Bangu. Seja no quadro da fotografia do time de 1905, ampliada e pendurada na parede, mostrando, segundo ele, o primeiro negro a jogar futebol: Francisco Carregal. Ou no boneco do Seu Madruga, personagem da série de tevê Chaves, vestido com uma camisa do clube e disposto em um aparador. Ou na bandeira em cima de sua mesa.

O alvirrubro é a paixão de Clécio, uma das coisas que conseguem emocioná-lo. Perguntado sobre possuir outro time, ele foi taxativo. “O banguense não tem outro time. Os times grandes costumam ter um time pequeno. Dos times pequenos, quem é Bangu é Bangu e não torce nem para seleção.”

“Aqui nasceu o futebol”

O surgimento do bairro de Bangu se deu a partir da instalação da Fábrica de Tecidos Bangu, em 1889. E com ela chegou, também, o futebol. De acordo com Clécio, o escocês Thomas Donohoe, técnico têxtil que veio da vila operária de Busby para atuar na fábrica, foi a pessoa que trouxe o esporte para o Brasil e importou a primeira bola, antes mesmo de Charles Miller.

“Charles Miller tem o mérito dele, trouxe o futebol com regra. Mas a primeira pelada, seis contra seis, cinco contra cinco, sem goleiro, foi no jardim da fábrica, seis meses antes de Charles Miller. Esses seis meses era tempo suficiente para ter tido uma partida oficial, mas não foi registrado, infelizmente. No entanto, os registros das bolas, das chuteiras e da realização desse jogo, desse evento que aconteceu dia 9 de setembro 1894, são fato”, conta.

Foto: Acervo pessoal.

A partir de um trabalho de pesquisa, desenvolvido juntamente com historiadores, foi montada uma exposição sobre o tema, no Shopping Bangu, localizado hoje onde era a Fábrica de Tecidos. “Fizemos um grande monumento, que eu julgo como o melhor monumento de futebol no Brasil, que é a estátua dele (Thomas Donohoe) com 7 metros de altura, em cima de uma esfera de concreto com o mapa mundo muito bem feito. Eu trabalho com arte e cenografia, então para mim foi tranquilo. Flutuando no lago com luz colorida de LED, na entrada principal do Bangu Shopping.”

Segundo ele, o local tem uma média mensal de 1,5 milhão de pessoas circulando, o que gera bastante visibilidade ao projeto. “Veio televisão do mundo inteiro. Veio a âncora da TV escocesa, que era a mais importante, uma jornalista muito bacana, que entendia um pouco de futebol. Depois veio Alemanha, o The Sun, França, Hungria, Al Jazira, TV dos Emirados Árabes. Foi pros quatro cantos do mundo. Tem matéria da China, Irã, Rússia e por aí vai.”

A “confusão entre a história do bairro e a do clube” faz com que surja o que Clécio chama bairrismo dos moradores. E ele, com o seu trabalho, contribui para que isso aumente. Além das exposições sobre Bangu (bairro e clube) realizadas, o torcedor confecciona e distribui adesivos pelo bairro com os dizeres Aqui nasceu o futebol.

“Hoje, os adesivos de carro, em Bangu, viraram moda, igual São Jorge. O cara botou o adesivo porque o vizinho botou, mas não é fiel a santo. Nós ficamos bairristas. O banguense é extremamente bairrista, é um torcedor diferenciado, porque nós torcemos pelo clube e pelo bairro. Então existe uma diferença muito grande, uma diferença bonita. Todos os banguenses vestem a camisa vermelha e branca.”

Os trens das 18h30

Após terminar a primeira fase do Campeonato Carioca de 2012 sem pontuar, o Bangu se viu líder de seu grupo no segundo turno e classificado para as semifinais. Seu adversário? O Botafogo, de Loco Abreu. A inesperada guinada do alvirrubro na competição gerou mobilização no bairro da Zona Oeste. Clécio e um outro torcedor conseguiram três trens junto à Supervia para levar a torcida ao jogo, marcado para as 18h30, no Engenhão. (Confira a história completa no vídeo abaixo.)

Vídeo: Projeto Incondicional.

Quem é mais pioneiro do que eu?

Clécio não esconde o orgulho que tem pela história do Bangu, principalmente os pioneirismos que o clube tem no futebol. Para ele, no quesito história, no Rio, “talvez Vasco e Flamengo cheguem aos pés do Bangu.”

O torcedor enumera feitos. “O primeiro negro a jogar futebol, Francisco Carregal, em 1905, contra o Fluminense. Vencemos por 5 a 3, na antiga Rua Ferrer, onde era o antigo estádio. Nós fomos o primeiro clube a usar propagandas no estádio na Rua Ferrer, em 1905, contra o Andaraí. Fomos o primeiro a ter cinco irmãos jogando no mesmo clube: os irmãos da Guia, Domingos da Guia, no final da década de 30. […]Primeiro campeão profissional do Rio de Janeiro, em 1933. Primeiro campeão mundial interclubes. No mundo, foi o primeiro clube a usar propaganda em camisa. […] Inauguração do estádio com Luiz Carlos Prestes, Estádio Proletário Guilherme da Silveira. Um dos primeiros clubes a ter estádio, em 1947. […]

O primeiro a explodir fogos no ar, faz parte do hino.” Apesar de grande, a lista não para por aí. “11 títulos internacionais. O Vasco tem quatro e o Corinthians tem oito. Nós temos 11 internacionais, de torneio pesado, não torneiozinho de dois contra dois”, completa.