Tricolor de coração

A torcedora do Fluminense, Elisa, mostra que há mais coisas envolvidas numa partida de futebol do que o jogo em si

Foto: Projeto Incondicional.

“Eu gosto de ir ao Maracanã fazer tremer a arquibancada”. É assim que Elisa Nacif Diniz, 50, classifica suas idas ao estádio Mário Filho. A torcedora do Fluminense, que afirma ainda não ter tido coragem de ir ao estádio após sua reforma, diz que já fez até gol em seu maior adversário, o Flamengo. “Era falta para o Fluminense, aquele silêncio no Maracanã. De repente, a torcida começou a cantar uma música pegando no pé do Júlio César (goleiro do rubro-negro na época). O jogador do Flu chutou e a bola foi direto para o fundo da rede. Eu me senti fazendo o gol. Aquele foi um gol de torcida”.

Um FlaxFlu, inclusive, é o jogo que a torcedora afirma ser o mais marcante que já presenciou. E quem chutou que a partida é a do famoso Gol de Barriga, não se enganou. Mesmo estando no Maracanã no memorável 25 de junho de 1995, Elisa não conseguiu ver o gol de Renato Gaúcho, que rendeu o troféu de campeão carioca ao time de Laranjeiras.

“Não vi o Gol de Barriga porque estava olhando para o Romário. Eu estava do outro lado do Maracanã e teve um ataque do Flamengo. O Romário estava na banheira, onde bem sabia ficar, recebeu a bola e perdeu. A jogada continuou e eu fiquei olhando para um Romário desacreditado que tinha perdido a bola. De repente, vejo Maracanã explodir. Não acreditei. Eu tive que ver a jogada do gol depois, pela televisão”, conta a tricolor.

Foto: Acervo pessoal.

Esse jogo rendeu o que ela chama de “inimigo no futebol”. Mas no bom sentido. O que aconteceu foi que Elisa e uma amiga saíram de Niterói acompanhadas de dois flamenguistas: seu cunhado e um amigo dele. Chegando à decisão, cada dupla foi para sua torcida. Mas a volta para casa foi conjunta. “Terminou o jogo e eles ficaram esperando a gente. Era ruim de eu sair de lá sem pelo menos ver a faixa de campeão. A gente foi até Niterói gritando dentro do carro. Meu cunhado lembra desse jogo até hoje. Tem mais de 20 anos, mas ele tem arrepios só de lembrar. Antes, ele nem era tão implicante comigo no futebol, mas depois disso eu não posso ver um jogo do Fluminense ao lado dele sem a torcida contra”, lembra.

Como tudo começou

Por adorar esportes, Elisa, ainda criança, gostava de acompanhar o padrasto tricolor em suas idas ao Maracanã. No estádio, encantou-se pelo Fluminense. “Quando eu tinha meus 11 anos, comecei a frequentar o Maracanã. Na época, Fluminense tinha o Rivelino, era a máquina. Não tinha como não se apaixonar”, diz.

Além do Rivelino, Elisa tem como ídolos no futebol Edinho e Fred. “O Rivelino foi mais naquele momento em que eu comecei a gostar de futebol. O Edinho, eu vi quase a carreira dele toda. No momento atual, é o Fred. Eu não queria que ele tivesse ido embora”, lamenta.

O pé quente da pequena tricolor, que afirma ter visto poucas vezes o time das Laranjeiras perder no Maracanã, só esfriava em jogos contra o Botafogo. Supersticiosa, ela não vai ao clássico vovô. “Eu não vou, nem assisto. Aquela torcida de fusquinha sempre ganha quando eu estou”.

O Maraca é dela

Mais do que um lugar para assistir aos jogos do clube de coração, a torcedora vê o Maracanã como um lugar de divertimento. “Eu uso o futebol também como uma forma de brincadeira. Tem épocas que não sei dizer a escalação completa do time, mas estou sempre nos jogos”.

Esse ambiente de descontração que Elisa enxerga no estádio Mário Filho já a rendeu boas histórias para contar. Uma delas, como afirma, é a de “um dos melhores beijos na boca que já deu”. Segundo a torcedora, em meio às cervejas, bandeiras e pó de arroz da arquibancada tricolor, aconteceu. O escolhido já era conhecido de Elisa. Mas foi o Maracanã o cenário para a investida além da amizade. “E tiveram mais outros muitos bons”, completa.

Fotos: Acervo pessoal.

Outra situação engraçada lembrada por ela aconteceu durante o canto da torcida para os jogadores, no início de uma partida. Ela diz que, acompanhando o grito dos tricolores da arquibancada, saudou um tal “Tiquinho”. Mas o canto destinado a ele durava mais do que o dos outros. Elisa, então, perguntou para a amiga ao lado quem era o jogador. Foi aí que descobriu que, na verdade, os torcedores estavam “saudando” o time adversário, chamando-o de “timinho”.

Um dos passos mais penosos para a ida aos jogos de futebol é a compra de ingressos. Enfrentar filas nos locais de venda, principalmente, em finais de grandes campeonatos, como a Libertadores da América, é tarefa recorrente na vida dos torcedores. Desorganização, confusões e, até mesmo, spray de pimenta são alguns dos obstáculos impostos aos torcedores nessa fase do processo de ir a uma partida. Com Elisa, uma etapa nova foi inaugurada: a quase prisão. (Veja o que aconteceu com a torcedora no vídeo abaixo)

Vídeo: Projeto Incondicional.

Mesmo não sendo uma típica torcedora fanática, que sabe tudo o que está acontecendo com o clube, Elisa tem grande espaço de seu coração reservado ao tricolor das Laranjeiras. “Eu amo o Fluminense”, diz ela, que brinca com os demais torcedores cariocas. “Só o tricolor é de coração. O resto tudo é doente”.