Traducoworkers #8 — Tereza Braga

Trabalhar por conta própria foi um sonho que me pegou de surpresa. Sempre quis ter carreira independente e renda própria, mas não me incomodava em trabalhar com horário. Por motivos que remontam à infância, eu ansiava por trabalhar em escritório. Desde adolescente eu achava o máximo a vida que meu pai levava: o intenso movimento do Centro do Rio, os prédios altíssimos, os executivos estrangeiros, os contratos para preparar, as reuniões para organizar, a hora do almoço nos deliciosos restaurantes do Centro, a corrida para a faculdade à noite e minha idolatrada máquina de escrever (sim, você leu certo — esse milênio é recente).

Quase duas décadas como secretária executiva bilíngue em três cidades se passaram e, de repente, por várias circunstâncias, me deparei com a possibilidade de uma carreira autônoma como tradutora/intérprete, já morando fora do Brasil. Nada de chefe, adeus ao despertador e um horizonte muito mais amplo de renda, além do meu dia para organizar como eu bem entendesse e a oportunidade de passar o tempo que eu quisesse viajando. Não sabia que isso era possível.

No início foi o máximo. Esqueci que as cidades têm hora do rush. O vira-noite de sábado para cumprir o prazo da tradução era até divertido porque a manhã de segunda me encontrava lendo jornal na cama até meio-dia. Eu tirava de letra o cliente ligando na sexta às 17h para um orçamento urgente porque comecei um hábito de cinema à tarde no meio da semana. O supermercado começou a ficar vazio, o conceito de fila virou memória e o café favorito com a turma de freelancers do bairro ia até às 11h da manhã. Me despedi definitivamente daquela dificuldade eterna de marcar horário no médico, na massagem ou na manicure; qualquer hora passou a servir.

Aos poucos, porém, uma saudade sorrateira começou a me incomodar e me vi sentindo falta dos ruídos do escritório e da hora do almoço com a turma. Sempre morei sozinha e isso não ajudou. Ninguém mais aparecia na minha casa. Casa era trabalho — e eu queria rua. As viagens como intérprete consolavam um pouco, mas quando chegava uma tradução rendosa eu já não sentia a velha alegria. Sentia solidão. E as cadeiras do Starbucks da esquina não têm rodinhas. São de madeira — duras!

Comecei a ouvir falar de escritórios coletivos. Recortei matérias de jornal, mas a coisa parecia ser só lá em Nova York — ou Tóquio. Um belo dia, a nossa associação de tradutores convidou um empresário que tinha acabado de abrir uma editora só de obras estrangeiras traduzidas para o inglês. O rapaz nos contou que seu endereço temporário era um local chamado The Common Desk, no bairro vizinho ao meu em Dallas. No mesmo dia fui até lá e me associei. Meu mundo mudou. Voltaram os deliciosos ruídos de escritório. Os bate-papos trocando o filtro da máquina de café, sem falar nos almoços no novo restaurante argentino downtown e as dicas do melhor jazz da cidade. Minha produtividade disparou — a decoração, os sofás, tudo inspira criatividade e eficiência com doses de relaxamento. Que gostoso explicar como é a vida de tradutora na sessão “Show & Tell” semanal. Toda terça-feira a gente vai testar um restaurante novo. E as cadeiras são de couro e giratórias — macias!

Isso foi há um ano e meio. Já ouvi falar de três outros empreendimentos similares na nossa região de Dallas-Fort Worth. Não sei se vou manter minha membership por muito tempo, pois tenho viajado com mais frequência como intérprete e venho assumindo menos serviços de tradução. Mas o coworking foi a melhor coisa que eu fiz como autônoma que, além de tudo isso, ainda resgatou o meu prazer de cozinhar para amigos.


Tereza Braga tem dupla cidadania e divide seu tempo entre Dallas e Rio. Adora jazz, samba e cinema. É intérprete simultânea e tradutora certificada pela ATA e ABRATES do inglês para o português e do português para o inglês, especializada em marketing e comunicações empresariais. M.A. em negócios internacionais pela Universidade do Texas em Dallas. Ex-administradora da ATA Portuguese Language Division.