Interpretação remota, a cabine do futuro

Uma realidade promissora para intérpretes

O trem da interpretação remota já está em movimento. O que fazer? Embarcar ou observar ele passar? Foto: Fabrizio Verrecchia, disponível no Unsplash

A presença da tecnologia no cotidiano de trabalho do tradutor profissional já era uma realidade estabelecida quando eu entrei no mercado da tradução. Eu não senti na pele a revolução digital vivida por tantos colegas experientes, que relatam essa mudança sempre mencionando a resistência de um ou outro tradutor.

Por outro lado, a minha geração tradutória acompanha de perto o caloroso debate sobre tradução automática feita por máquinas e softwares adestráveis por nós, humanos. A relutância, mais uma vez, participa desse cenário: alguns colegas já anunciam o fim da profissão, outros enxergam benefícios nesses avanços tecnológicos.

Não condeno os primeiros: qualquer mudança gera alguma dose de medo. Eu, particularmente, fico com a galera da ousadia, que abraça essas inovações sem medo de ser feliz, ciente de que, quando bem utilizadas, essas ferramentas poupam a nossa energia e aumentam os nossos rendimentos.

E hoje, em 2017, enquanto cavo aos pouquinhos o meu espaço no mercado da interpretação de conferências, vejo a oportunidade de participar ativamente de uma onda revolucionária que vem ganhando cada vez mais força: a interpretação remota.

O futuro já é agora

A possibilidade de interpretar um evento de dentro do seu escritório em casa já é uma realidade para muitos intérpretes fora do Brasil, que está começando a abrir as portas para essa prática. No último final de semana, eu tive a oportunidade de testar essa novidade interpretando para o ConVTI pela plataforma HeadVox. E que experiência, amigos.

Trabalhando diretamente da Zona Norte carioca junto com a minha querida “concabina” Roberta Barroca interpretando diretamente de Miami, dei voz em português a três sessões coletivas ao vivo do evento. A cabine de espanhol estava distribuída em diferentes cidades mexicanas, ao passo que os palestrantes e participantes estavam espalhados pelo mundo inteiro.

A plataforma é muito intuitiva para os usuários: quem quisesse ouvir a interpretação para o português tinha que simplesmente clicar na bandeira do Brasil para acessar o canal pelo qual a minha voz ou a da Roberta saía. Nós, conectadas à plataforma com um login diferente dos participantes, também selecionávamos a bandeira brasileira para indicar a todos o idioma que estávamos falando.

Apesar da facilidade de usar a plataforma, o esquema da troca entre intérpretes ainda não é muito eficiente e, para evitar uma descontinuidade da interpretação incômoda aos ouvintes, nós decidimos fazer as trocas de meia em meia hora e não demoramos a nos acostumar com essa dinâmica. Ouso ainda dizer que a minha facilidade com a plataforma deveu-se também pelo fato de estar habituada a ter aulas virtuais com a equipe competentíssima da Interpret2b, uma iniciativa pioneira de formação remota de intérpretes no Brasil.

Apesar de alguns problemas de conexão que, não raro, fugiam ao controle dos desenvolvedores da HeadVox, as mesas-redondas que interpretamos fluíram na maior tranquilidade e todos, organizadores, participantes e intérpretes ficaram satisfeitos com o resultado final desse grande evento que foi o ConVTI , pioneiro em sua proposta de trazer um canal de desenvolvimento profissional de qualidade e acessível, tanto em termos financeiros quanto geográficos — atire a primeira pedra quem não assistiu a uma palestra do programa no conforto do sofá de casa!

Calma, o apocalipse (ainda) não chegou

Em suma, trago verdades: a interpretação simultânea remota veio para ficar no hall de modalidades de interpretação profissional. Ao contrário do que muitos temem, ela não substituirá completamente o intérprete, pois os eventos que exigem a presença física desses profissionais não vão desaparecer do mapa da noite para o dia. Como aprendi com os palestrantes de alto nível chamados para o ConVTI, o modo remoto é mais uma possibilidade de trabalho para os intérpretes. Os únicos profissionais que serão substituídos nessa história serão aqueles que decidirem não aprender a usar essas ferramentas.

Portanto, se há motivos para entrar em modo apocalíptico, eles com certeza não passam pelos últimos lançamentos tecnológicos do mundo da tradução e da interpretação. Minha sugestão para os colegas brasileiros é: vamos aproveitar que essa tendência está dando seus primeiros passos firmes por aqui para fazer parte dela, abraçando a causa e nos mantendo abertos para dar uma chance a essas plataformas. Quanto mais envolvidos estivermos, mais autoridade teremos para ajudar a definir os rumos que essas ferramentas remotas vão tomar. É aquela velha máxima do Gandhi (aqui parafraseada em um carioquês bem papo reto): quer mudança? Seja a mudança.


Às organizadoras brilhantes do ConVTI, Giovanna Lester e Márcia Nabrzecki: muito obrigada pela confiança no meu trabalho. Foi incrível participar do evento como um todo e mais ainda como intérprete. Que a gente ainda tenha juntas muitas outras oportunidades de trabalho e desenvolvimento profissional!

À Roberta Barroca, minha concabina virtual: muito obrigada por todo o apoio e parceria, dentro e fora da cabine. You rock!


Quer entender melhor o que é interpretação remota e o que está acontecendo no mundo em relação isso? Inscreva-se no canal do intérprete Barry Slaugther Olsen e assista a todos os vídeos que ele faz. É simplesmente inspirador! O conteúdo do canal é todo em inglês.