Cuidado com o nomadismo digital

Virei a casaca: sou a favor das férias caretas

Olho para uma foto dessas hoje e só consigo pensar: S O C O R R O

Quem me acompanha há algum tempo, leu todo o meu deslumbre com o fenômeno do coworking e do nomadismo digital, que se mantêm em alta, angariando adeptos pelos quatro cantos do mundo.

De fato, ambas as ideias te seduzem com facilidade, mas precisamos estar atentos ao que elas escondem nas entrelinhas:

1.Se você mora em uma metrópole, a localização dos espaços de coworking seguirá a divisão socioeconômica da cidade: os bairros mais ricos vão hospedar os espaços mais legais, mais inovadores e também mais caros. Se você mora em uma metrópole superfaturada como o Rio, não precisa ir tanto ao sul da Zona Sul para se espantar com as mensalidades altas para a pesada maioria dos usuários de coworking (pequenos e médios empresários). Verdade seja dita, esses espaços oferecem planos variados, então, vale a pena analisar as opções com atenção e, por que não, marcar uma visita para negociar pessoalmente essa parceria.

2. Chutar o balde e viver viajando e trabalhando é para poucos, tenha consciência disso, seja para admitir que você não faz parte desse grupo, seja para reconhecer seu privilégio de pertencer a esse grupo. Não vou me estender sobre essa questão, já que a Laura Pires foi direto ao ponto:

Só larga tudo quem tem quem segure se der merda. Quem precisa mesmo de emprego, de dinheiro, não larga nada, tem que se planejar e se organizar pra conseguir viajar e se descobrir — e às vezes não chega nem a isso.

Dito isso, não se sinta um fracasso de força de vontade se você não consegue largar seu trabalho para bater perna pelo mundo, mas também não seja aquela pessoa que insiste em dizer que “todo mundo pode fazer isso, basta querer”.

3. Tanto o coworking quanto o nomadismo digital nublam a divisão entre trabalho e tempo livre para lazer. Os espaços de coworking são projetados para acolher os coworkers quase como se ali fosse a casa deles, e sediam vários eventos bacaninhas que te mantêm ali, sempre “no trabalho”. O nomadismo digital te presenteia com a liberdade de viajar, expandir horizontes e conhecer pessoas novas, tudo isso com o trabalho nas suas costas, o que pode ser ora conveniente, ora assombração.

Já vivi as duas experiências e, mesmo as recomendando para todos os privilegiados interessados, não ignoro os prejuízos que tive, em parte devido a minha personalidade viciada em trabalho e responsabilidades, em parte por essa “sedução” que mencionei ali em cima.

Nesse sentido, minha experiência com o coworking foi menos danosa que o nomadismo digital. Eu conseguia definir bem os meus horários coworkando, mas volta e meia me via dentro do espaço bebendo cerveja e procrastinando pelas mídias sociais. Não há mal nenhum nisso, trabalho e lazer podem se misturar e tal, mas até que ponto isso não é exploração disfarçada com um lero-lero cult bacaninha? Outra pessoa já escreveu sobre isso aqui e, embora tenha várias ressalvas aos argumentos feitos, vale a leitura.

Já essa coisa de viajar e trabalhar me rendeu três anos seguidos sem férias, que já estão pesando na minha saúde geral. Nesse período, dei conta de todo o pacote viajante: curti a vida, conheci pessoas e lugares novos, mas não parei de trabalhar por mais de três dias. Parar um final de semana para relaxar é importante, mas não é a mesma coisa que tirar férias de dez, quinze dias corridos (considerando o meu modo de trabalho e de vida, também não vejo necessidade de trinta dias consecutivos com os pés para o ar, mas isso um dia pode mudar).

Enfim, minha intenção aqui não é criticar essas práticas (nem quem as pratica) ou choramingar meu cansaço com o trabalho, mas questionar o perigo dessa nova tendência de sempre conjugar trabalho com lazer e sermos ainda mais reféns do primeiro. Não sei vocês, mas às vezes bate aquela bad em perceber que isso tudo não liberta ninguém, muito pelo contrário, nos prende e seduz a ponto de sermos incapazes de estranhar o que está acontecendo.

Desabafo feito, fica a primeira resolução para 2017: parar de postar foto à beira da piscina com o notebook, achando que tô tirando onda.