Do imaginário do tradutor

ou “O decálogo segundo São Jerônimo”

A serenidade no olhar de quem dominou a Tia Dédilaine

Ando tendo visões e conversas imaginárias. Não sei se por pressão de prazos curtos e noites mal dormidas, passadas quase que inteiras na frente do computador, ou se porque meu mundo gira em torno de localização de scripts de jogos que depois não me saem da cabeça. O fato é que ando realizando tertúlias com figuras das mais diferentes, do meu eu criança a Martinho Lutero, e nessa vou trocando ideias sobre dilemas cotidianos e coisa e tal, temas que, como já descobri com minha adorada Rita Lee, “são coisas da vida, e a gente se olha e não sabe se vai ou se fica”. Pois bem, o último a me aparecer foi o querido São Jerônimo.

O padroeiro dos tradutores e tradutor da Bíblia do grego antigo e hebraico para o latim (a Vulgata), pensador da tradução, filósofo, teólogo, historiador e santo (como todo bom tradutor é) me apareceu numa tarde chuvosa. Eu lá sentando com a já batida xícara de café na mão, vendo pingos escorrendo pelo vidro e pensando em coisas bem leves, tipo, como fundamentar a minha vida tradutória segundo os preceitos éticos da profissão em contraposição à mecânica das relações de trabalho dentro do escopo do contrato social pelo viés construtivista de Vygotsky. Coisas triviais assim.

Foi então que o santo se fez homem em carne e osso ali, bem na minha sala. E eu, como todo bom e tradicional cristão que desconhece praticamente tudo do dogma judaico-cristão e sabe menos ainda de santos, esconjurei o bendito no ato e mandei logo um vade retro satanás em nome do mais puro fogo do Jesus do Amor Divino, mas logo ele fez com que eu me acalmasse e me anunciou quem era.

De pronto imaginei ao que viera: não poderia ser outra coisa senão esclarecer aquele dilema básico do parágrafo lá em cima. Jogamos conversa fora e falamos sobre a vida do agora e a vida do dantes. Ele me contou sobre o presente de grego que tinha sido a tradução da Bíblia e que judiação é pouco pelo tanto que sofreu com datas e entregas parciais (Tia Dédilaine é tão antiga quanto o diabo, e tão implacável como ele) e que, na época dele, o negócio era o preto da pena no branco do papel, e que Google Tradutor soava possivelmente como um demônio qualquer que, outrora anjo e expulso do céu por Javé, ainda teima em nos atazanar tentando falar a língua dos homens sem muito êxito.

Depois de ouvir extasiado, fui inquirido pelo santíssimo sobre meus tormentos e tribulações. Disse a ele que, tirando a parte hipster high-tech tradutória contemporânea, não havia nada de muito novo e que o mundo ainda é uma Babel, só que com 7,3 bilhões de falantes dentre os mais de 6.703 diferentes idiomas naturais e artificiais (o velhinho ficou embasbacado com o Esperanto, entretanto, como todo bom filósofo, mandou aquele tralalá de que idioma sem arcabouço sociolinguístico e cultural não vinga e coisa e tal, e eu concordei com ele porque já manjo um pouco desses paranauês também #humanaséamor), porém, achou a tentativa louvável. Foi daí então que o ilustríssimo me confiou palavras que, garantiu ele, eram a pedra filosofal e a solução para a questão que eu então problematizava: o excelso havia criado, após árduos anos de trabalho, observação e inspiração divina, seus dez mandamentos. E assim falou São Jerônimo:

1º — Adora tua labuta acima de todas as coisas, porque deus nenhum, desde o mais alto cume de sua glória, escreveu uma só linha que fosse. Tal encargo sempre coube aos mortais, criadores de tão prodigioso labor;

2º — Não uses teu sagrado tempo em vão em trabalhos que não são de tua ceara. Quem tudo faz, nada faz: concisamente, não te metas com o que não sabes;

3º — Santifica o dia que de melhor proveito te for dentro de tuas possibilidades, porque feriado, festividade, dia santo ou seja o que for não te pertencem mais;

4º — Honra teus clientes, pois é deles que depende teu pão de cada dia;

5º — Não mates, causes dano no corpo ou na alma de teu revisor, pois dele também depende tua labuta;

6º — Guarda castidade nas palavras e nas obras, sê exímio em teu trabalho e não te deixes enlevar pelo demônio da tradução automática;

7º — Não te furtes de ensinar e aprender com os teus, pois é dos dignos de profissão o reino santificado da tradução;

8º — Não levantes falso testemunho, não faltes com a verdade nem difames os teus, porque tua reputação te precede, e talvez, teu passado te condene;

9º — Guarda virtude em teu conhecimento e libera-te na volúpia do aprendizado continuado sem qualquer temor;

10º — Não cobices as coisas alheias, afinca-te com fervor ao teu ofício e verás que o que plantares, colherás.

O eminente então me sorriu e, olhando nos meus olhos, pediu que eu guardasse e fizesse uso do decálogo, pois ele me seria utilíssimo por toda a vida. E, ao terminar de falar, levantou-se e, caminhando em minha direção, foi se esvaindo de seu corpo material no ar parado da sala. No lugar onde havia se sentado deixou uma imagem em pergaminho antigo com a imagem de uma coruja, símbolo da sabedoria e erudição inerentes a ele; creio que como estímulo para que eu siga as virtuosas instruções. Ele não precisava ter se preocupado em ser assim sugestivo: eu já sabia de antemão que dentro de sua iconografia além da pena, tinteiro, papel e outros materiais de escrita, é dele também a trombeta do Juízo Final.