Hábitos de criança e interpretação

Não sei se é a vida adulta maturando, se são as sessões intensivas de terapia ou o quê, mas tenho acessado com frequência as memórias da minha infância. Essa viagem no nosso próprio tempo, na forma como apreendemos as situações que vivemos, é sempre muito elucidativa e, não raro, estabeleço pontes entre o ontem e o hoje.

Hoje eu sou tradutora, intérprete, escritora. Trabalho justamente com as coisas que eu sempre gostei de fazer, mesmo quando não era alfabetizada: escrever, falar, comunicar. Que privilégio. Mas existem atividades, e até brincadeiras, que parecem ter facilitado a minha circulação nessas carreiras. Ler muito, escrever mais um tanto, são justificativas óbvias para a tradutora e a escritora que coabitam em mim. E a interpretação?

Desde que retomei os estudos nessa área, tenho me surpreendido com a relação que alguns hábitos infantis têm com os exercícios que faço como aluna da Interpret2b.

Para começar, todo intérprete é um orador, seja dentro ou fora da cabine. Reproduzimos e reformulamos discursos que precisam fazer o máximo de sentido para os nossos ouvintes. E falar bem envolve boa dicção, cadência, ritmo, entre outros elementos que podem ser praticados com um simples exercício: preparar discursos do zero, para que outros colegas interpretem, e ler em voz alta.

Imaginem a minha surpresa ao receber essa recomendação de uma professora do curso para soltar a voz, a musculatura oral e treinar entonação! Incluí o exercício na minha rotina de estudo rindo por dentro, lembrando da Carolina de vinte anos atrás, lendo Turma da Mônica e encenando com a voz a história narrada nos quadrinhos.

A memória é outro ingrediente fundamental no cardápio variado de habilidades de um intérprete. Ter uma boa memória é uma questão de treino, não é um dom — aliás, essa coisa de dom cada vez mais me soa como desculpa para acobertar questões mais complexas, como privilégio de classe. Falarei mais sobre isso em outro texto. E, se você treina a sua memória desde criança, ela segue se fortalecendo com o passar dos anos. Minha relativa facilidade nesse quesito sem dúvidas remonta ao meu vício de criança: jogos da memória!

Quem lembra do poke-tapa? Foto: @jehbenatto

Depois que li na “Bíblia” sobre interpretação de conferências que jogar Perfil (ou Trivial Pursuit, como sugerido pelo autor) é um ótimo exercício para expandir nosso conhecimento geral, constatei, de uma vez por todas, que o processo de aprendizagem do intérprete foge completamente ao tradicional. Acredito que esse é o diferencial que me fascina na profissão, pois empodera o estudante a entender o próprio processo cognitivo dentro da sua rotina de vida e a escolher os caminhos de aprendizado que consegue trilhar, respeitando seu nível de competência.

E você? Já descobriu quais foram os hábitos da sua infância que te ajudaram a ser o profissional que você é hoje?