Missão intérprete: Humans of New York aterrissa no Rio de Janeiro

No final de janeiro, a famosa fanpage Humans of New York (HONY) anunciou a chegada do projeto em algumas cidades latino-americanas. A convocatória por intérpretes para acompanhar o fotógrafo Brandon Stanton chacoalhou as redes tradutórias brasileiras e chegou até a mim por várias “tagueadas” de amigos.

Para quem nunca ouviu falar do HONY, o projeto tem uma premissa bem simples e, ao mesmo tempo, muito poderosa: retratar a história de pessoas comuns através de uma foto e um breve relato, fruto do bate-papo que Brandon trava com seus modelos. A conversa é direcionada por perguntas complexas (por exemplo, qual é o seu maior desafio hoje em dia?) que vão se tornando mais específicas à medida que o entrevistado se permite conhecer pelo fotógrafo. Hoje, com a visibilidade do projeto, Brandon passou a apoiar iniciativas humanitárias e já viajou boa parte do mundo fotografando pessoas e emocionando milhões de seguidores.

Assim como tantos outros que se candidataram, eu também acreditava que era a pessoa ideal para intermediar o garimpo de histórias pela Cidade Maravilhosa. Nesse caso, a formação em interpretação era um mero detalhe: a identificação com o projeto foi o que alimentou essa certeza, somada ao timing do trajeto feito por Brandon — eu simplesmente sabia que ele viria para o carnaval do Rio e, modéstia à parte, meu gabarito carnavalesco é um grande diferencial. Assim, deixei a síndrome do impostor de lado e enviei meu e-mail, redigido com muita estratégia para se destacar na multidão de mensagens.

Muitas águas rolaram desde então: fui arrebatada pelo trabalho e pela correria do pré-carnaval e, infelizmente, fui vítima da profunda desigualdade social que assola o nosso país — vulgo “sofri um assalto”. Emocionalmente abalada por esse episódio, imaginem a minha surpresa ao descobrir, justo no meio dessa confusão, que eu estava contratada para passar o carnaval carioca andando sem rumo pelas ruas do Rio ao lado de um gringo com uma câmera nada discreta a tiracolo.

Mesmo escaldada, não hesitei por um segundo. E não me arrependo nem um pouco.

Cinelândia. Foto: Erin O’Sullivan

De início, me surpreendi com a receptividade das pessoas: com pouca resistência e uma baixa taxa de rejeição, em questão de minutos lá estávamos nós, discutindo a infertilidade de um, o falecimento do pai de outro, a dificuldade de criar um filho na favela. E, por abordar assuntos tão íntimos e sensíveis, mais de uma vez me peguei tendo que segurar a emoção, mas não o suficiente a ponto de não demonstrar empatia pelo entrevistado.

Em termos profissionais, o desafio desse job foi perceber que todo o beabá da interpretação em modalidade de acompanhamento e consecutiva tinha que ser reajustado a cada nova história narrada. Isso me rendeu um bom treino de jogo de cintura para situações futuras.

Desbancando o paradigma do luxo de ser intérprete. Foto: Erin O’Sullivan

Por outro lado, a informalidade das entrevistas foi um fator favorável para a minha personalidade: rapidamente entrei na personagem cabível ao contexto dos bate-papos (muitos levados à moda carioquíssima, sentados na areia embaixo de um sol de rachar, como ilustrado na foto), desenvolvendo uma afinidade com o fotógrafo que me permitia prever os rumos das entrevistas e o potencial de uma história ser postada na fanpage.

Bloco Cordão Umbilical. Foto: Erin O’Sullivan

Minha maior satisfação com essa empreitada profissional foi perceber que eu consegui juntar algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida em uma única experiência: interpretar, traduzir e contar histórias — e fazer tudo isso durante a festa popular que mais mexe comigo é indescritível.

Além da honestidade dos relatos e da simplicidade do registro imagético, o sucesso do HONY está na busca incessante por histórias boas de gente comum, aquelas que não viram manchetes, mas que acontecem todos os dias por aí, em meio aos eventos tristes, chocantes e impactantes que sugam a nossa atenção e energia, nos fazendo temer descabidamente o mundo lá fora. Sentir esse sopro de esperança não é se iludir, mas abrir bem os olhos para enxergar além do caos, mudar de perspectiva para reler a realidade.

Portanto, dar voz em inglês/português a esse projeto me ajudou a resgatar um pouco da fé e da força necessárias para viver em um presente tão conturbado. E, mais que um job imperdível, trabalhar dois dias* ao lado de Brandon foi um deslumbramento da vida como ela é: um amontoado de histórias, nem sempre justas, nem sempre belas, mas fundamentalmente dignas de serem contadas e ouvidas. Porque, no final das contas, é a narrativa que nos reconhece humanos, nos imprime na realidade e nos propaga na História.


*Por questões de agenda (minha e dele), não acompanhei o Brandon todos os dias que ele passou no Rio. Portanto, nem todas as histórias publicadas na fanpage foram coletadas junto comigo. Para conhecer mais sobre o projeto, acesse: http://www.humansofnewyork.com/ (conteúdo em inglês).