Quem tem medo do plano de negócios?

Como contar histórias me ajudou a derrotar o “business plan”, o lobo mau do autônomo

Quando prestei vestibular para História, um amigo da família, daqueles tipos que se acham muito espertos e engraçados, disse que eu estava me esforçando muito para entrar em um curso que me ensinaria a contar história (como se isso fosse algum demérito) — *piada sem graça detected*.

É claro que eu não aprendi a escrever narrativas envolventes na faculdade. Muito mais que isso, eu aprendi a problematizar (#adoro/amo/sou) e desenvolvi senso crítico, coisa da qual o colega provavelmente carece até hoje. E, com a mente disposta a questionar e a cruzar habilidades, consegui unir um hobby (escrever e narrar histórias) a uma necessidade enquanto profissional autônoma: desenvolver o meu plano de negócios, que era um verdadeiro lobo mau para o meu business ainda no formato “casinha de palha”.

Em 2013, quando decidi trabalhar em casa e ser minha própria chefe, eu ainda não era madura o suficiente para mensurar todos os passos que eu deveria seguir para alicerçar o meu negócio tradutório em pilares firmes. Eu tinha aversão ao campo semântico do “business’’, todo trabalhado nos terninhos engomados e scarpins de bico fino, pois eu era (e ainda sou) meio maluco-beleza-chinelão-de-dedo. Que bom que o mundo dá voltas. Hoje, ter esse meu jeitão mais despojado está até na moda, quem diria…

Independentemente de ser informal ou não, há elementos que nos ajudam a traçar um rumo para o que a gente faz. Assim que comecei a ler sobre ter e ser um negócio, percebi que era preciso organizar a casa para evitar ser confundida com “aquela que faz bicos”, poder crescer profissionalmente e de forma saudável. Entre uma leitura e outra, mergulhei no abismo de textos do SEBRAE, que são ótimos, porém distantes da realidade do tradutor e do intérprete. Desanimada, segui a busca pela internet e pelos fóruns das redes sociais. Encontrei uma luz acompanhando o blog da Marta Stelmaszak-Rosa, principalmente aqui e aqui. A solução veio logo em seguida: já que a minha cabeça funciona melhor ao escrever, e se eu montasse o meu plano de negócios como se estivesse narrando uma história?

Um sonho: meu plano de negócio em formato de livro para colorir

O pessoal de Publicidade dá um nome chique para isso: storytelling, ou seja, a capacidade de contar histórias que sejam relevantes (e que vendam, diga-se de passagem). Taí algo que eu faço bem — ou de um jeito arrumadinho o suficiente para manter as pessoas lendo o que eu escrevo. Como sei que muitos tradutores e intérpretes também se consideram escritores, resolvi compartilhar essa estratégia aqui no blog, afinal, quanto mais colegas souberem botar ordem na casa, melhor será o mercado para todos nós.

O que é um plano de negócios?

É a história do seu negócio: como ele começou, por que ele começou, em quais circunstâncias. Você narrará o que já percorreu e os caminhos que pretende seguir para atingir seus objetivos. Como um romance, ele é composto por capítulos e subcapítulos que você escolhe incluir ou não no enredo.

Se você prefere ler uma descrição mais formal para essa ferramenta, cai pra . Se não, segue o jogo comigo!

Recheio: capítulos e subcapítulos

Seguem algumas sugestões para vocês adotarem, compiladas de leituras que fiz em canais diversos. Não se esqueçam de que cada negócio é único: não tem receita de bolo e você é livre para acrescentar as seções que bem desejar ao seu plano.

Sim, meu plano de negócios tem até capa. Afinal, um livro de respeito tem que ter capa, título e subtítulo, né mores?!

Sumário executivo

É o resumo do meu negócio, com motivo, objetivos e o que eu quero com ele no futuro.

Descrição geral

  • Missão (o motivo do meu negócio que o distingue de todos os outros; o que eu quero oferecer ao mundo com o meu negócio);
  • Visão: como eu vejo o mundo quando a minha missão for cumprida;
  • Metas e objetivos (papo reto: onde quero chegar?);
  • Segmentação de clientes do meu negócio (áreas de atuação do meu negócio).

Quem sou eu?

Aqui é o momento de ser justo com quem você é e com tudo o que você já conquistou. Narre a sua trajetória ressaltando seus pontos fortes, suas competências e habilidades, mas sem tirar os pés do chão: não se esqueça de assinalar as áreas em que você precisa melhorar.

Serviços prestados

Quais serviços você oferece em nível profissional? Seja honesto com você para não abraçar o mundo com as pernas ou encher linguiça: se existem atividades que você tem pouca experiência, que tal incluí-las em outro momento da sua história — nos objetivos e metas, quem sabe?

Plano de marketing

Este capítulo é o meu preferido, no qual discorro sobre as ideias mirabolantes que tenho para fazer o meu negócio crescer. Para não perder o fio da meada, oriento a escrita com essas perguntas:

  • Como vou alcançar meus clientes?
  • Quais estratégias quero usar para me destacar na multidão?
  • O que quero alcançar com as ações de marketing? Visibilidade? Mais clientes? Mais projetos?
  • Preciso da ajuda de um profissional de marketing ou dou conta disso tudo sozinha?

Plano financeiro

A gente é de humanas, a gente não sabe fazer conta de cabeça, mas a gente não nega que vivemos em um sistema capitalista, que as contas precisam ser pagas e as cervejas devidamente bebidas. Neste capítulo, narre a história do seu bolso, a sua luta por estabilidade financeira, botando na roda:

  • quanto você cobra e quer passar a cobrar;
  • quantas horas por semana trabalha e quer passar a trabalhar;
  • quais são as despesas básicas do seu negócio;
  • se você pretende diversificar a sua renda. Se a resposta for “sim”, já pode arregaçar as mangas para outro capítulo dessa história!

O plano financeiro é um capítulo que merece ser ilustrado por tabelas e planilhas. Eu não meto o bedelho nesse assunto e não hesito em pedir ajuda aos universitários e amigos — obrigada, Thiago Hilger. Fica a dica de pauta para ajudar os colegas! — , mas se você manja de Excel, aproveite!

Falando em dicas…

Não se reprima

Redija o seu plano de negócios como se estivesse falando com um leigo, alguém fora do seu ramo de atuação, ou até mesmo o seu próprio cliente, para já treinar o “desenrolo”.

Escreva por partes

Quem é escritor sabe que escrever é difícil. Há dias que nem “vovó viu a uva” chega ao papel! O importante é não transformar a confecção do seu plano de negócios em mais um problema, pois ele se propõe ser justamente o contrário. Desenvolva suas ideias aos poucos; escreva uma seção por dia, por semana, não importa: você decide o que é melhor para você. Seu plano de negócios, suas regras.

A história sem fim

O plano de negócios é um livro fadado a nunca ser concluído, pois não há como prever tudo o que acontecerá na nossa vida profissional. E, se tudo der certo, seus objetivos serão atingidos e outros virão, você vai crescer e acrescentar novas especialidades ao seu leque de competências… Ou seja: senta que lá vem a história!

Ele não deve ser um documento engessado e imutável, como também pode (e deve!) ser revisitado algum tempo depois para avaliar o andamento das coisas. E se você usa da escrita como ferramenta para organizar as ideias e sentimentos, quando bater aquele desespero profissional, que tal jogar tudo nas páginas do seu plano de negócios? Afinal, ele também funciona como um “querido diário profissional” e não precisa ser compartilhado com ninguém.

Conteúdo gera conteúdo

Ao encarar o desenvolvimento do seu plano de negócios como um livro, diário ou história a ser contada, você já está treinando e cultivando um traquejo para se promover, seja pessoalmente, seja na criação de seu site ou perfil profissional. Portanto, aproveite todo esse conteúdo para outras frentes de ação!

Quem conta um conto…

Me tornei uma pessoa melhor para mim mesma o dia em que entendi que a minha percepção de mundo se descomplica pela escrita. Depois de alguns anos batendo cabeça, descobri que, mais uma vez, o aconchego de uma folha digital em branco também me ajuda a organizar meus mixed feelings sobre a minha profissão e carreira.

Ser dono do próprio negócio não é para amadores. O que ninguém conta para a gente é que essa “faxina” não acontece da noite para o dia. Ela leva anos, vai por mim. Dizem por aí que a graça disso tudo está no caminho, não no destino a ser alcançado. A cada capítulo escrito, rasgado, jogado fora e reescrito, não me arrependo nem um pouco. E espero que vocês também não.