Tradução, o saber que já era notório antes disso virar moda

Reflexão para quem está rondando a profissão

Faíscas de uma profissão que pode ser promissora — como qualquer outra

Domingo ensolarado, fartura gastronômica à mesa da casa daquele parente que não é próximo o suficiente, mas também nem tão distante assim para fazer desfeita. Família reunida, aquela algazarra que ora te mata de vergonha, ora te enche de orgulho, conversa indo e vindo, até que aquele tio “pêagádê” cola do seu lado e lança a fatídica pergunta:

— Vem cá, você ainda faz aquele negócio de tradução?

Você, todo trabalhado no esforço de não converter o pavê da vovó em uma indigestão, engole o veneno, sorri e acena positivamente com a cabeça, já se preparando para o tiro, que não tarda:

— É que o sobrinho da vizinha da minha cunhada está desempregado e pensou em fazer umas traduções…

Quem nunca passou por uma saia justa dessas?

Se você está na estrada tradutória há um tempinho, o sangue provavelmente lhe subirá à cabeça, pois ninguém dimensiona o quanto é trabalhoso viver de tradução, se estabelecer no mercado, investir uma boa grana em moeda estrangeira para comprar a licença daquela CAT tool

Trago verdades: ninguém tem obrigação de saber disso, por mais desaforado que soe aos nossos ouvidos.

Em vez de fazer a passiva-agressiva com a pessoa, encaro o momento como mais uma oportunidade de educar não tradutores, afinal, toda pessoa leiga que cruza o meu caminho pode ser o meu cliente ou, quem sabe, colega de amanhã. Não sei vocês, mas eu prefiro ter clientes e colegas bem informados sobre como funciona o meu negócio, porque, assim, as condições do mercado ficam vantajosas para todos. Sugiro que passe a encarar esse hábito de client/peer education como uma profilaxia de mercado, e se acostume a praticá-la, pois nós, tradutores, nunca estivemos tão na moda.

Em primeiro lugar, porque estamos surfando a crista da onda que vem revolucionando o conceito de trabalho. Dia após dia, a virtualização da vida e a internacionalização dos serviços estabelecem novos paradigmas e métodos de trabalho que põem as profissões liberais remotas em destaque. Paralelo a esse fenômeno, o protagonismo do Brasil no cenário mundial com os megaeventos aqueceu o mercado da tradução e da interpretação.

E, com a atual crise econômica, as pessoas estão buscando soluções para aumentar a renda, pagar as contas e sobreviver, logo, não me admira a multidão querendo abocanhar um pedacinho dessa ocupação que carrega o estigma do “notório saber”, que vem acompanhado de argumentações rasas como “morei fora do país por muitos anos” e coisas do tipo.

A gente bem sabe que o mal em achar que qualquer um pode fazer se revela justamente na hora em que qualquer um faz e, diga-se de passagem, o rebosteio é, de fato, notório.

A facilidade de acesso aos recursos iniciais que permitem o exercício da profissão tradutor dá a falsa impressão de facilidade de atuação sadia no mercado. E a falta de visibilidade da profissão, experimentada até o momento, ajudou a fomentar essa imagem equivocada. Mas, hoje, temos a oportunidade de virar esse jogo, ensinando a quem chega ou quer chegar a botar a cara no sol só com close certo. De quebra, ainda mostramos conhecimento de causa e nos tornamos referência no setor!

E quando digo “atuação sadia”, me refiro à forma como cada um encara o que é trabalhar traduzindo. Sinto que muitos interessados chegam a mim e aos meus colegas iludidos com máximas de ser o próprio chefe, fazer o próprio horário, ostentar fotos de notebook à beira da praia e ficar rico com isso tudo.

Então, é sempre bom explicar que sim, você pode encarar tradução como um bico, mas essa postura o manterá preso a uma faixa de rendimento que, com o passar do tempo, não compensará o seu esforço. E aí, para valer a pena, você terá que investir mais nessa atividade, a ponto de ela sugar todas as suas energias e virar sua principal ocupação. A partir disso, você viverá só de tradução, que é algo possível, sim, senhores — possível, não fácil.

No final das contas, ambas as opções estão aí para o nosso livre arbítrio escolher. Há mercado para os dois caminhos. A questão é saber quais são as suas reais expectativas ao cogitar trabalhar com tradução. Indo direto ao ponto: para sobreviver e viver bem de tradução é preciso dedicação exclusiva como em qualquer outra profissão. E a gente sente quando a hora de decidir se aproxima. Se esse é o seu caso, aproveite. Nunca existiram tantas mãos estendidas para ajudar quem chega.