Traducoworkers #12 — Flavia Souto Maior

Relato de uma tradutora literária em um espaço de coworking

Antes de ser tradutora, trabalhei cerca de oito anos como jornalista. Uma redação de jornal, como todos podem imaginar, é um lugar meio caótico, em que todos falam ao mesmo tempo, os telefones não param de tocar e televisões ficam ligadas em vários canais de notícias diferentes. Eu sempre me senti um pouco incomodada com aquilo, mas, de certo modo, trabalhava bem naquele ambiente barulhento. Entre um emprego e outro, cheguei a trabalhar em casa como jornalista freelance. No entanto, como todo repórter, interagia muito com outras pessoas, falava ao telefone, participava de reuniões de pauta e ia muito para a rua fazer entrevistas. Os momentos mais solitários, de “sentar e escrever” a matéria, não dominavam minha rotina. E essas fases como “frila” nunca duravam muito, eu sempre acabava voltando para o trabalho formal.

Aí chegou um belo dia em que resolvi largar tudo aquilo e trabalhar por conta própria, traduzindo. No começo, eu não traduzia livros. Os trabalhos eram mais curtos e menos frequentes e não cheguei a sentir o peso de ficar horas e horas diante do computador, fazendo sempre a mesma coisa. Nessa época, eu também estava fazendo uma segunda faculdade, então saía de casa (e encontrava pessoas) pelo menos quatro vezes por semana. Menos de um ano depois, chegou o primeiro livro e eu realmente senti o que era trabalhar em casa.

Muita gente procura os espaços de coworking por não ter uma estrutura adequada em casa. O espaço é pequeno, os vizinhos são barulhentos, os membros da família não entendem que, apesar de estar em casa, a pessoa está trabalhando, filhos cobram atenção… Várias coisas podem atrapalhar. Eu nunca tive nenhum desses problemas: moro em um apartamento relativamente grande, tenho um cômodo exclusivo para trabalhar, cadeira e mesas boas, meu marido passa a maior parte do dia fora e não me incomoda em nada, não tenho filhos (só caninos!). A questão que começou a incomodar foi outra: passar dias inteiros sozinha dentro de casa.

Sim, eu podia sair a hora que quisesse. Sim, eu podia me envolver em diversas outras atividades para interagir com seres humanos. Mas falar é mais fácil do que fazer. É ilusório achar que tradutores de livros têm muito tempo livre. Os prazos são realmente maiores se comparados aos dos tradutores técnicos, mas os projetos também são enormes (por menor que um livro seja, ele ainda é um projeto grande, que dura meses). Ou seja, não dá para bobear. É preciso passar muitas horas trabalhando, e, apesar de eu adorar o que faço, é um trabalho cansativo (quase exaustivo). Em um desses momentos de muito trabalho, cheguei a passar mais de uma semana sem colocar o pé na rua. Percebi que aquela rotina não estava me fazendo bem, eu estava começando a deixar de me cuidar (o pijama já tinha virado uniforme oficial) e a saúde emocional estava começando a ficar comprometida. Eu precisava dar um jeito de mudar.

Pesquisando, na época, encontrei o Pto de contato, um espaço de coworking perto de casa. Ele nem existe mais, mas acredito que tenha sido um dos pioneiros em São Paulo (e talvez no Brasil). No começo, a mudança foi radical. Eu ia a pé (uns quarenta minutos de caminhada, entre ida e volta — não é muito, mas para quem passava o dia inteiro sentada…), comecei a me vestir melhor e até a me alimentar de maneira mais saudável. Parecia perfeito, mas… não me adaptei a trabalhar com tanta gente e tanto barulho. Não chegava aos pés do caos das redações, mas a natureza do meu novo trabalho já não me permitia lidar com tanta interferência. Percebi que aquilo só funcionaria se eu estivesse com prazos muito folgados (algo muito raro) e nunca, nunca, nunca, poderia ir para o espaço em dias de revisão de livro. O espaço era uma gracinha, as pessoas eram ótimas, mas acabei desistindo, pois minha produção caiu demais, apesar de todos os outros benefícios. Conformada, passei a ir de vez em quando trabalhar em alguns cafés para sair um pouco da “toca”, mas sempre havia algum problema. Cadeiras ruins, música alta… Quebravam um galho, mas não eram um espaço adequado.

Até que, recentemente, todas os meus desejos foram atendidos, e a Google abriu o Google Campus São Paulo. Além de gratuito (basta se inscrever), o espaço é lindo e fica muito perto da minha casa. O fato de ser gratuito pesou muito, pois nos dias de prazo mais apertado e de concentração redobrada para revisar minha tradução, ainda prefiro o silêncio e isolamento do meu lar. Não valeria a pena pagar um espaço para não ir sempre. A gratuidade também tem seu lado ruim, pois o Google Campus está SEMPRE cheio. Não chega a ser um defeito, ele foi mesmo concebido para ser um espaço rotativo — e esse conceito é muito legal. Mas também significa que não dá para contar muito com ele. Já cheguei poucos minutos após abrir e não consegui lugar. Tive que voltar para casa.

Atualmente, frequento o Google Campus umas duas vezes por semana, com o objetivo principal de sair um pouco de casa, respirar outros ares e mudar a rotina. A intenção de procurar um espaço compartilhado, no meu caso, nunca foi fazer novos contatos (provavelmente agiria diferente se trabalhasse com tradução técnica), mas adoro quando consigo encontrar algum amigo ou colega por lá para dividir a mesa de trabalho e, nos intervalos, bater um bom papo e tomar aquele cafezinho gostoso. Quem vem?


Flávia Souto Maior é formada em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA–USP) e estudou Letras (Inglês/Português) na mesma universidade. Trabalhou como jornalista em veículos de comunicação de destaque antes de se tornar tradutora profissional. Desde 2007, traduz livros de ficção e não ficção para as principais editoras brasileiras, nos pares inglês > português e espanhol > português. Faz parte do grupo Ponte de Letras, formado por quatro tradutores que escrevem sobre o dia a dia da tradução de livros e ministram oficinas de tradução editorial, presenciais e on-line, desde 2015. Saiba mais em: flaviasoutomaior.com