Traducoworkers #3 — Rafaela Mota Lemos

A Rafa é a primeira Traducoworker internacional e veio contar um pouquinho para a gente sobre coworkar e ser nômade digital

A primeira vez que ouvi falar do conceito de coworking foi em 2009 quando morava em Milão. Tinha lido um artigo sobre em como começavam a surgir espaços em cidades tradicionalmente criativas (Amesterdão, Berlim, Copenhaga), em que pessoas de profissões essencialmente criativas se juntavam em espaços bonitos, minimalistas, brancos e cheios de iMacs. Na minha cabeça era algo bem exótico e longínquo da minha actividade da altura: trabalhava numa empresa italiana com mais 100 colegas e ainda não estava nos meus planos ser tradutora a tempo inteiro.

Vamos puxar a cassete para a frente. Ano de 2012. Despedi-me do meu cargo de Project Manager numa empresa de tradução. Antes de me despedir, já sabia que queria ir para um espaço de coworking. Eu gosto demasiado de tomar um duche assim que acordo, de me arranjar e escolher uma boa roupa (que não um bom pijama para trabalhar), de sair pela brisa fresca da manhã, de beber o meu café expresso na rua — de todo este conceito de ir para o trabalho.

O meu cowork em Lisboa

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Meu cantinho no CoworkLisboa

Antes de me despedir do meu trabalho, já tinha ido visitar o espaço CoworkLisboa, localizado na LxFactory, uma das áreas mais criativas e alternativas de Lisboa. Tem cerca de 100 pessoas e um director muito carismático que funciona como um excelente aglutinador, colocando todos os novos coworkers à vontade, apresentando-os às pessoas existentes e quebrando o gelo de forma eficiente. Ali nasceu o slogan “This is not about work anymore”, o que reflecte na perfeição o que alguém que trabalha num espaço de coworking sente. Que agora pertencemos a uma comunidade real e que as vantagens não se prendem com o nosso trabalho.

Os espaços de coworking na Europa, como têm várias faixas de preços (desde 100 a 200 euros por uma mesa), possibilitam que qualquer pessoa, com qualquer rendimento/salário, possa de facto pagar um espaço de coworking. Os coworks funcionam, assim, como uma espécie de micro-cosmos da sociedade ou cidade na qual se insere: vemos todas as profissões, todas as classes sociais, todos os backgrounds. Isto só é enriquecedor para todos. Esta democratização não existe ainda no Brasil ou nos Estados Unidos, em que os espaços ainda são um pouco caros.

O meu cowork no Rio de Janeiro

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Meu cantinho no Templo Gávea, no Rio de Janeiro

Em 2014, no âmbito do meu projecto Home is where I am, mudei-me para o Rio de Janeiro. Para além de encontrar uma casa para morar, a primeira coisa que faço é encontrar um espaço para trabalhar. Escolhi o Templo, na Gávea, onde conheci algumas pessoas que mudaram a minha vida para melhor e tornaram os meus 6 meses no Rio inesquecíveis.

O Templo, para além de muito espaçoso, tem um jardim maravilhoso, onde é possível fazer telefonemas, fazer uma conference call com clientes (é bem divertido quando surge um mico ou um tucano atrás da nossa cabeça e o cliente pensa que estamos na selva), almoçar, lanchar, fazer manicure (sim, todas as semanas vem uma manicure para nós, as mulheres mais vaidosas) ou até trabalhar um pouco. Um das melhores coisas é a cozinha interna: existe almoço saudável todos os dias confecionado por uma cozinheira de mão cheia. O ambiente simpático, leve e criativo encantou-me desde o primeiro instante.

Depois do sucesso do primeiro escritório na Gávea, o Templo abriu uma segunda casa em Botatafogo. Essa, para além de jardim, tem piscina. Vocês estão a imaginar como é fácil sermos produtivos no Rio, né? :)

O meu cowork em Nova Iorque

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Meu cantinho na Big Apple

Em Nova Iorque, o caso muda de figura. As mensalidades são muito elevadas e pessoas normais, como eu, não podem pagar. Os preços podem ascender aos 600/750 dólares. E, convenhamos, para quem tem de pagar casa em Nova Iorque, fica impraticável pagar um espaço para trabalhar.

Em 2014, passei uma temporada de 3 meses em NY e descobri que a Wix, a plataforma de sites para pessoas lerdas (aqueles super fáceis de criar), tinha um espaço de coworking… grátis. Oi? Que foi que disse? Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Eu fiquei tão desconfiada, que tentei descobrir durante dias, na Internet, qual seria o senão, qual seria o catch. Até que tomei a decisão de deixar de planear e programar e simplesmente ir conhecer o espaço. E descobri que não havia catch: era inteiramente gratuito. Apenas temos de chegar cedo (até às 9h30 ou 10h00 no máximo), porque o espaço esgota. O Wix Lounge, nome oficial, é um escritório lindo no centro de Manhattan. Em 2015, eles mudaram um pouco o conceito: continua a ser gratuito, mas os clientes devem ter um site no Wix com um projecto e devem apresentar uma candidatura prévia para poderem ser autorizados a participar na comunidade e espaço da Wix. Todas as semanas organizam workshops, eventos, cursos, festas com algumas das mentes mais brilhantes de Nova Iorque. Estar num local assim é profundamente inspirador, acreditem.

Depois de 4 anos a trabalhar em espaços de cowork, acredito que esta é a melhor forma de combater o freelancer blues (quando não sabemos muito bem quem somos, em que direcção estamos a ir, quando desconfiamos se somos bem-sucedidos ou não) e de ganhar um estímulo constante. Quanto mais não seja, há uma vantagem enorme: quando trabalhamos em casa, ninguém dá pela nossa falta e é fácil transformarmo-nos em fantasmas; ao trabalharmos num cowork, há sempre alguém que espera por nós e fica feliz por nos ver. Isso é ❤.


Rafaela Mota Lemos, portuguesa, é tradutora e gestora de conteúdos e de redes sociais. Licenciada em Tradução e Interpretação desde 2006, ainda se lembra de como era o mundo sem Internet. No entanto, abraçou as novas tecnologias com toda a paixão e utiliza várias formas digitais de contar histórias sobre a sua profissão e sobre a sua vida. No âmbito do seu projeto pessoal enquanto nômade digital, Home is where I am, (mas sigam o Facebook porque ela tem preguiça de escrever no blog), morou em Nova Iorque e no Rio de Janeiro, cidade pela qual nutre um profundo amor. Gosta do conceito de começar do zero e aproveita todas as oportunidades para enriquecer a sua vida. No cowork ideal, ela teria como colegas de espaço a Oprah Winfrey, o Jorge Benjor, o Trevor Noah e a Tina Fey.