Traducoworkers #5 — Thalia Cerqueira

Nossa quinta convidada da série conta como coworkar é colocar a profissão tradutor no mapa!

A minha experiência trabalhando com outros profissionais começou por motivos puramente emocionais. Após seis anos trabalhando no solitário ambiente doméstico, vi que era hora de me relacionar com outras pessoas durante o expediente e, assim, reaprender a me socializar com outros profissionais, bater papo durante as pausas para o café, ter que lidar com ruídos, hábitos e desejos que não os meus e botar a cara no mundo.

Minha professora de ioga, Karuna Devii, havia me apresentado à Loana Goldsmidt, arquiteta, cujo escritório de arquitetura funcionava em uma rua paralela à rua para a qual eu havia me mudado recentemente. A Loana tinha duas mesas vagas no escritório, que ela pretendia alugar para quem estivesse interessado, pois não tinha planos de contratar outros arquitetos. Os R$ 650,00 que eu teria que tirar do meu faturamento mensal para pagar pela mesa ficavam martelando na minha cabeça, mas a única forma de eu transformar essa perda em ganho era trabalhando melhor, de maneira mais eficiente, me concentrando mais, evitando o retrabalho, e aumentando minha produtividade. Não estou falando de trabalhar mais, e sim de trabalhar com maior eficiência. Bingo! Problema resolvido. Pode-se dormir em paz.

Ao saber da mesa vaga no escritório, não me ocorreu que qualquer pessoa pudesse alugar uma das mesas; para mim, era óbvio que a proprietária do espaço tinha a intenção de alugar a estação de trabalho para outros arquitetos. Como não custava nada perguntar, me ofereci para trabalhar com a Lo, pagando pelo aluguel da mesa, para trabalhar de segunda a sexta, e ela topou na hora. Por que não trabalhar com pessoas que exercem atividades diferentes da sua? E aí entra um dos grandes baratos de aderirmos a espaços de coworking: é uma maneira riquíssima de promovermos a profissão tradutor. Ao saímos da toca e nos relacionarmos com outros profissionais, estamos mostrando que a profissão tradutor existe como uma ocupação em si, dá dinheiro, paga as contas, é um negócio, tem despesas, faturamento e lucro, exige conhecimentos básicos de atendimento ao cliente, e é coisa séria. Não nos restam dúvidas de que engenharia, fisioterapia, arquitetura e tantas outras são atividades profissionais e geradoras de renda, haja vista as centenas de escritórios e consultórios que vemos ao caminhar nas ruas da cidade. No entanto, a sociedade não vê, caminhando pelas ruas da cidade, escritórios de tradução, revisão e interpretação.

Posso estar enganada, mas eu duvido que a Lo e o Rafael, urbanista que alugava outra mesa, tinham ideia do que consistia o trabalho do tradutor que não fosse o tradutor literário, e eu me divertia contando para eles, quase que diariamente, os detalhes de cada projeto que entrava, para qual cliente era, que tipo de texto me aguardava, onde seria publicado, como eu elaborava os meus orçamentos, etc. A experiência durou pouco, pois logo depois vim morar na Austrália, onde procuro outro escritório para trabalhar, mas eu acabei cumprindo uma missão não antes vislumbrada, que foi a de promover o nosso ofício.


Thalia Cerqueira é tradutora há doze anos. Desde 2009, quando fundou a Transverso Traduções, tem contratos com sociedades médicas, empresas de alimentos, universidades, entre outros. Mora na Austrália desde dezembro de 2015 e pretende ficar por lá até a saudade do Brasil apertar muito.