Vovóffice

Mistura de vovó com home office

Aquelas ruguinhas, repositórios de histórias. Foto por Cristian Newman, disponível no Unsplash

Como diria vovó, trabalhar em casa é uma faca de dois legumes: aquela maravilha de evitar a fadiga do deslocamento no Hell de Janeiro, aquele padecer com a dinâmica da casa, dos moradores, os barulhos da vizinhança e afins.

Há quatro anos vivo nessa realidade do home office, com alguns flertes aqui e acolá em cafés, espaços de coworking e casinha do namorado. Há quatro anos entendendo o valor de ter um canto só para trabalho que não se misture com todo o aconchego da casa, já que é tão difícil sair do trabalho quando ele mora com você — e vive dentro de você, como é o meu caso. Sofro de uma grande dificuldade em me desligar do bicho, estou sempre pensando em novas formas de prospectar clientes, em pautas inéditas para este blog e outros canais, em propostas de palestras para congressos… Enfim, eu não paro e me mantenho sempre ocupada até quando não preciso (não façam isso).

E, há quatro anos, aprendi que a rotina de educar quem mora com você a entender o funcionamento do seu trabalho é uma infinita caminhada em busca de uma relação mais saudável — e a pista é pedregosa, amigos. E de toda a galera que mora comigo (somos uma família grande, barulhenta, composta por elementos bem diferentes entre si), quero dedicar os próximos minutos de leitura à Dona Gloria, que também atende pelo nome de “vó” — afinal, agosto é o mês dela.

Em teoria, pela diferença geracional que volta e meia nos faz querer comer o fígado uma da outra, minha avó seria a pessoa mais difícil de “adestrar” à minha rotina de trabalho. E, como toda regra tem sua exceção, Dona Gloria aprendeu (e aprende, lembrem-se: o exercício é diário) rápido como eu funciono em modo de trabalho, respeita essa dinâmica e dá esporro em quem não respeitar (ganhei uma aliada, vejam bem!). Às vezes rola um rádio nas alturas? Sim. Às vezes rola aquela puxada de papo interminável? Várias. Isso atrapalha? Há quatro anos eu diria “sim, com certeza”, mas hoje enxergo a coisa com outros olhos.

A minha avó é o meu lembrete pessoal de que a vida não acontece nos trâmites frenéticos do trabalho virtual.

Quando ela puxa papo e eu não estou com trocentos mols de palavras para traduzir, eu dou trela mesmo, adoro! E quando estou exausta feat. enterrada e ela me grita lá do quintal “menina, para de trabalhar tanto, não desperdiça sua vida, vem pegar um sol!”, eu até rosno, mas desço, descanso um pouco e reparo o quão sábia ela é.

Ela é da época em que não havia tantos estímulos distratores como hoje. Não, não vou entrar no debate “vivemos-na-era-da-comunicação-e-ninguém-se-entende-direito” porque esse buraco é muito mais embaixo do que a gente pensa e não é com mais tecnologia que esse bagulho se resolve. O que me preocupa de verdade é a infinidade de aplicativos que encurtam distâncias, mas dissolvem presenças.

Quantas vezes você termina o dia estafado após uma maratona de trabalho, se perguntando quando finalmente os humilhados serão exaltados, e percebe que não esteve realmente presente nos momentos de olho no olho, só nas longuíssimas horas de olho na tela?

Eu ando muito preocupada com isso, sabe. A vida é um sopro. E ter minha avó materna como minha “galera da firma” durante todo o meu expediente semanal me fez estar mais atenta à brevidade da vida como a gente entende que ela seja. A bofetada veio com tudo em um dia em que abracei Dona Gloria com menos pressa, lamentando, chorosa, algum estresse de trabalho e me dei conta de que eu estava com saudades daquela sensação de interação humana não mediada por alguma tecnologia. O famoso “cara na cara, pele na pele” — sem a conotação sexual neste contexto, pelamor. Gelei. O quão virtualizada estou me tornando? Isso está me deixando feliz? Ou só estou seguindo o baile?

Desde então, busco humanizar cada vez mais os meus pequenos ritos caseiros ao lado de vovó: almoçar juntas, tentando manter o celular em outro cômodo; café da tarde também juntas; jantar juntas e com quem mais estiver em casa. Em dias quentes e com pouco trabalho, vamos para o quintal juntas pegar um sol, ler, responder e-mails… Presença, saca?

Como já estamos carecas de saber, a resposta está no equilíbrio. Hoje, ter uma carreira como tradutor e intérprete requer uma presença mínima nas redes sociais, mas isso não pode nos engolir, muito menos substituir a presença real, física e entregue das nossas relações, sejam elas pessoais ou profissionais. Não deixe sua vida passar e se resumir num clicar de likes.


A propósito, eu estou procurando fazer isso com todas as pessoas da minha vida, sabe? Não é porque é a minha avó, que tem mais idade, blablablá. Ela tem um pacto de viver até os 200 anos — e do jeito que é braba, eu não duvido de nada vindo dela, não!

Mesa de trabalho de um lado, vovó na rede do outro. Isso é Vovóffice. ❤

Feliz 78 carnavais, Dona Gloria. Que o seu espetáculo se estenda desfilando na Sapucaí da vida por mais muitos e muitos anos.