O que aprendi sobre o Brasil na Alemanha

E outras impressões de meu intercâmbio em Hamburgo

Aniversário a beira do Alster (comigo ali na esquerda)
“E aí, como foi a viagem? ”

É a pergunta que respondo diariamente desde que voltei ao Brasil. A resposta costuma sair na forma de um “foi ótimo! ”, misturando ânimo e uma certa frustração. Ânimo porque foi ótimo mesmo; frustração porque parece ser insuficiente para explicar o impacto que esse tipo de experiência causa em alguém.

Um ano longe dos amigos, família e zona de conforto é uma experiência intensa. A saudade bate forte, somada a uma certa estranheza ao constatar que o mundo segue normalmente sem você. É um sentimento confuso ver os amigos de cabelo amarelo, cortes de gosto duvidoso e garrafas de Catuaba na mão ou a família reunida no Natal enquanto você espia a neve cair da janela do quarto.

Ao mesmo tempo, você conhece pessoas e costumes que também parecem ser insubstituíveis. Afinal não é nada mal saber que o ônibus vai passar às 7h42 em frente à sua casa e que mesmo após duas baldeações, você estará às 9h05 no trabalho, conforme o aplicativo de transporte público dizia (isso sem pedirem nenhuma vez pra conferir sua passagem); ou então sair do trabalho e reunir os amigos em frente ao lago da cidade, em um gramado onde alguns jogam bola, outros dormem, bebem cerveja (quente) e veem o pôr do sol às 22 horas entre patos e cisnes.

A minha experiência pode ser dividida em 3: faculdade, estágio e mochilão.

A faculdade era a TUHH, Universidade Técnica de Hamburg-Harburg. Como não conseguiria equivalência das disciplinas, preferi escolher algumas bem variadas, desde gestão global da inovação até cultura alemã, passando por gestão de projetos e organização da produção.

Logo de cara já ficou claro que professor que dá aula lendo slide não é exclusividade nossa. Foi até uma surpresa ver que, em termos de qualidade de aula, o nível era basicamente o mesmo. Algumas aulas eram ótimas, outras não justificavam o esforço de sair de casa a -10°C. A diferença é que pela presença ser facultativa, não se tornam necessárias técnicas complexas para burlar o sistema de presença. Pessoas aprendem de formas diferentes e isso é respeitado, o importante é dominar o tema.


Se dentro da sala de aula as coisas são parecidas, a filosofia de ensino é totalmente diferente. No Brasil ainda há uma visão ultrapassada de educação, baseada na premissa de que quanto mais tempo em sala de aula, mais se aprende. É a crítica que Paulo Freire tanto faz à ideia de educação que trata alunos como copos vazios a serem preenchidos pelo conhecimento do professor. Há vários indícios de que, na verdade, a exposição passiva do conteúdo é um dos momentos de menor aprendizado, que só se concretiza ao realmente experimentar o tema, algo difícil de acontecer com 1h30 de slides ininterruptos.

A forma como estudamos na USP vai na contramão da qualidade de vida. É praticamente impossível conciliar a rotina de aulas com coisas básicas da vida, como praticar esportes, vida social, aprender um novo idioma, ler um livro, descansar e até mesmo estudar! É tão bizarro que se torna comum deixar de ir à aula para conseguir estudar.

Ao insistir nesse modelo alimentamos uma ideia de que é preciso escolher entre sucesso e bem-estar. Não será surpresa ver cada vez mais workaholics que aos 30 e poucos anos estão repletos de problemas de saúde, infelizes nas relações pessoais e sem realmente entender o que estão fazendo da vida. Isso resulta em uma sociedade menos empática, mais casos de depressão e, no fim das contas, queda de produtividade. Portanto a Alemanha (como referência mundial em eficiência) está aí para provar que o caminho para o sucesso na educação não é a exaustão; mas o equilíbrio.

Na Alemanha, nenhuma disciplina tinha mais de uma aula por semana (quando não eram quinzenais), a sala de aula servia para expor o básico do conteúdo e os alunos desenvolviam projetos que eram debatidos em sala (a tal da história de experimentar o tema). Quem queria se aprofundar em um tema fazia uma iniciação científica ou matérias optativas.

Não é por acaso que, ao menos na Eng. de Produção, os alunos são quase unânimes em apontar as atividades extracurriculares como local de maior desenvolvimento pessoal, afinal é lá que aplicamos o conhecimento na prática. O ideal seria entender porque isso acontece e trazer parte da lógica das extracurriculares para dentro das disciplinas. Infelizmente, ainda se acredita que as extras e a graduação são concorrentes e acabam sendo criadas barreiras para a participação nelas, como cargas horárias ainda maiores para os ingressantes. A consequência disso é que muita gente é obrigada a escolher entre priorizar a graduação ou a extracurricular, onde normalmente prevalece a segunda, por conta do sentimento de aprendizado.

A questão da metodologia dentro da aula está melhorando bastante, com menos aulas expositivas e mais cases e exercícios, mas é muito importante que a estrutura de carga horária também seja modernizada. Só assim teremos um modelo atual de ensino.

Vivendo na Alemanha

O estágio foi feito na Lufthansa Technik, responsável pela manutenção nos aviões, dentre outras coisas. O departamento em que eu trabalhei estudava a implementação de Wi-Fi nos aviões para evitar o inconveniente de ter que ficar 10 horas sem olhar e-mail e Facebook (brincadeira, tem várias coisas legais para além disso).

Sobre o trabalho em si penso que era uma dinâmica semelhante à das grandes empresas no Brasil. A parte interessante fica por conta da lógica que tem como melhor exemplo a expressão “Feierabend”. Não existe uma tradução direta, mas seria algo como “o momento em que você deixa o trabalho para aproveitar o resto do dia”.

Os alemães de forma geral valorizam muito a qualidade de vida:

Não há constrangimento algum em sair do trabalho logo após o almoço porque está um dia de sol, porque você quer passar aquele dia com a família ou porque já acabaram as tarefas do dia.

É difícil imaginar esse tipo de coisa no Brasil, onde há uma pressão muito grande para estar produzindo o tempo todo, sem tempo para lazer. Além disso as relações trabalhistas têm uma lógica mais flexível, com aspectos que poderiam ser aplicados no Brasil sem apelar para precarizações.

É melhor deixar as histórias do mochilão para uma cerveja, mas ele serviu para confirmar a impressão que já tinha na Alemanha: é impressionante como o brasileiro é amado mundo afora.

Até o mais frio dos russos te recebe com um sorriso ao saber que você é brasileiro.

Somos muito lembrados pela nossa descontração e simpatia, que são suficientes até para superar a decepção se você falar que não sabe sambar ou jogar bola.

Domingo no Jungfernstieg

Sempre penso o quanto isso representa uma oportunidade. Quem passa um tempo fora logo percebe como nossa cultura é completa, uma mistura de vários povos, cada qual com sua contribuição. Somos muito afetuosos e valorizamos muito a família e a amizade, o que se torna ao mesmo tempo trunfo e calcanhar de Aquiles. Por um lado, torna a vida mais fácil de se viver, mesmo em dificuldades; pelo outro, intensifica a cultura do jeitinho brasileiro que contamina instituições e empresas, misturando o público e o privado e travando nosso desenvolvimento.

Volto com a esperança de que, do mesmo jeito que assimilamos tantas coisas positivas de outros povos, possamos agora encarar o desafio de construir uma nação ética, justa e eficiente sem abrir mão da alegria que faz de nós brasileiros.

Um dos motivos que aprendemos tanto em intercâmbios é por conta dessa oportunidade de observar a vida em diferentes países e ter contato com outras culturas. Isso nos ajuda a entender um pouco mais do mundo e principalmente de nós mesmos. Quem puder fazer intercâmbio, vai fundo!


Puxa uma cadeira, não se acanha e continua com a gente a prosa nos comentários. Quer escrever ou mostrar sua banda indie que toca na garagem da rep? manda uma mensagem pra nós :)

-Prosa

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