O que aprendi sobre o Brasil na Alemanha

Rafael Drumond
Aug 29, 2017 · 6 min read

E outras impressões de meu intercâmbio em Hamburgo

Aniversário a beira do Alster (comigo ali na esquerda)

“E aí, como foi a viagem? ”

É a pergunta que respondo diariamente desde que voltei ao Brasil. A resposta costuma sair na forma de um “foi ótimo! ”, misturando ânimo e uma certa frustração. Ânimo porque foi ótimo mesmo; frustração porque parece ser insuficiente para explicar o impacto que esse tipo de experiência causa em alguém.

Um ano longe dos amigos, família e zona de conforto é uma experiência intensa. A saudade bate forte, somada a uma certa estranheza ao constatar que o mundo segue normalmente sem você. É um sentimento confuso ver os amigos de cabelo amarelo, cortes de gosto duvidoso e garrafas de Catuaba na mão ou a família reunida no Natal enquanto você espia a neve cair da janela do quarto.

Ao mesmo tempo, você conhece pessoas e costumes que também parecem ser insubstituíveis. Afinal não é nada mal saber que o ônibus vai passar às 7h42 em frente à sua casa e que mesmo após duas baldeações, você estará às 9h05 no trabalho, conforme o aplicativo de transporte público dizia (isso sem pedirem nenhuma vez pra conferir sua passagem); ou então sair do trabalho e reunir os amigos em frente ao lago da cidade, em um gramado onde alguns jogam bola, outros dormem, bebem cerveja (quente) e veem o pôr do sol às 22 horas entre patos e cisnes.

A faculdade era a TUHH, Universidade Técnica de Hamburg-Harburg. Como não conseguiria equivalência das disciplinas, preferi escolher algumas bem variadas, desde gestão global da inovação até cultura alemã, passando por gestão de projetos e organização da produção.

Logo de cara já ficou claro que professor que dá aula lendo slide não é exclusividade nossa. Foi até uma surpresa ver que, em termos de qualidade de aula, o nível era basicamente o mesmo. Algumas aulas eram ótimas, outras não justificavam o esforço de sair de casa a -10°C. A diferença é que pela presença ser facultativa, não se tornam necessárias técnicas complexas para burlar o sistema de presença. Pessoas aprendem de formas diferentes e isso é respeitado, o importante é dominar o tema.


Se dentro da sala de aula as coisas são parecidas, a filosofia de ensino é totalmente diferente. No Brasil ainda há uma visão ultrapassada de educação, baseada na premissa de que quanto mais tempo em sala de aula, mais se aprende. É a crítica que Paulo Freire tanto faz à ideia de educação que trata alunos como copos vazios a serem preenchidos pelo conhecimento do professor. Há vários indícios de que, na verdade, a exposição passiva do conteúdo é um dos momentos de menor aprendizado, que só se concretiza ao realmente experimentar o tema, algo difícil de acontecer com 1h30 de slides ininterruptos.

A forma como estudamos na USP vai na contramão da qualidade de vida. É praticamente impossível conciliar a rotina de aulas com coisas básicas da vida, como praticar esportes, vida social, aprender um novo idioma, ler um livro, descansar e até mesmo estudar! É tão bizarro que se torna comum deixar de ir à aula para conseguir estudar.

Ao insistir nesse modelo alimentamos uma ideia de que é preciso escolher entre sucesso e bem-estar. Não será surpresa ver cada vez mais workaholics que aos 30 e poucos anos estão repletos de problemas de saúde, infelizes nas relações pessoais e sem realmente entender o que estão fazendo da vida. Isso resulta em uma sociedade menos empática, mais casos de depressão e, no fim das contas, queda de produtividade. Portanto a Alemanha (como referência mundial em eficiência) está aí para provar que o caminho para o sucesso na educação não é a exaustão; mas o equilíbrio.

Na Alemanha, nenhuma disciplina tinha mais de uma aula por semana (quando não eram quinzenais), a sala de aula servia para expor o básico do conteúdo e os alunos desenvolviam projetos que eram debatidos em sala (a tal da história de experimentar o tema). Quem queria se aprofundar em um tema fazia uma iniciação científica ou matérias optativas.

Não é por acaso que, ao menos na Eng. de Produção, os alunos são quase unânimes em apontar as atividades extracurriculares como local de maior desenvolvimento pessoal, afinal é lá que aplicamos o conhecimento na prática. O ideal seria entender porque isso acontece e trazer parte da lógica das extracurriculares para dentro das disciplinas. Infelizmente, ainda se acredita que as extras e a graduação são concorrentes e acabam sendo criadas barreiras para a participação nelas, como cargas horárias ainda maiores para os ingressantes. A consequência disso é que muita gente é obrigada a escolher entre priorizar a graduação ou a extracurricular, onde normalmente prevalece a segunda, por conta do sentimento de aprendizado.

A questão da metodologia dentro da aula está melhorando bastante, com menos aulas expositivas e mais cases e exercícios, mas é muito importante que a estrutura de carga horária também seja modernizada. Só assim teremos um modelo atual de ensino.

Vivendo na Alemanha

O estágio foi feito na Lufthansa Technik, responsável pela manutenção nos aviões, dentre outras coisas. O departamento em que eu trabalhei estudava a implementação de Wi-Fi nos aviões para evitar o inconveniente de ter que ficar 10 horas sem olhar e-mail e Facebook (brincadeira, tem várias coisas legais para além disso).

Sobre o trabalho em si penso que era uma dinâmica semelhante à das grandes empresas no Brasil. A parte interessante fica por conta da lógica que tem como melhor exemplo a expressão “Feierabend”. Não existe uma tradução direta, mas seria algo como “o momento em que você deixa o trabalho para aproveitar o resto do dia”.

Os alemães de forma geral valorizam muito a qualidade de vida:

Não há constrangimento algum em sair do trabalho logo após o almoço porque está um dia de sol, porque você quer passar aquele dia com a família ou porque já acabaram as tarefas do dia.

É difícil imaginar esse tipo de coisa no Brasil, onde há uma pressão muito grande para estar produzindo o tempo todo, sem tempo para lazer. Além disso as relações trabalhistas têm uma lógica mais flexível, com aspectos que poderiam ser aplicados no Brasil sem apelar para precarizações.

É melhor deixar as histórias do mochilão para uma cerveja, mas ele serviu para confirmar a impressão que já tinha na Alemanha: é impressionante como o brasileiro é amado mundo afora.

Somos muito lembrados pela nossa descontração e simpatia, que são suficientes até para superar a decepção se você falar que não sabe sambar ou jogar bola.

Domingo no Jungfernstieg

Sempre penso o quanto isso representa uma oportunidade. Quem passa um tempo fora logo percebe como nossa cultura é completa, uma mistura de vários povos, cada qual com sua contribuição. Somos muito afetuosos e valorizamos muito a família e a amizade, o que se torna ao mesmo tempo trunfo e calcanhar de Aquiles. Por um lado, torna a vida mais fácil de se viver, mesmo em dificuldades; pelo outro, intensifica a cultura do jeitinho brasileiro que contamina instituições e empresas, misturando o público e o privado e travando nosso desenvolvimento.

Volto com a esperança de que, do mesmo jeito que assimilamos tantas coisas positivas de outros povos, possamos agora encarar o desafio de construir uma nação ética, justa e eficiente sem abrir mão da alegria que faz de nós brasileiros.

Um dos motivos que aprendemos tanto em intercâmbios é por conta dessa oportunidade de observar a vida em diferentes países e ter contato com outras culturas. Isso nos ajuda a entender um pouco mais do mundo e principalmente de nós mesmos. Quem puder fazer intercâmbio, vai fundo!


Puxa uma cadeira, não se acanha e continua com a gente a prosa nos comentários. Quer escrever ou mostrar sua banda indie que toca na garagem da rep? manda uma mensagem pra nós :)

-Prosa

prosajornal

puxa uma cadeira, pega um café. Curte a prosa. Um espaço para construção de ideias e reflexão. Mantido pelos estudantes de engenharia de produção da EESC-USP

)

Rafael Drumond

Written by

prosajornal

puxa uma cadeira, pega um café. Curte a prosa. Um espaço para construção de ideias e reflexão. Mantido pelos estudantes de engenharia de produção da EESC-USP

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade