A parede de memórias

Acordei e colei um texto que havia escrito meses atrás na parede. Não tinha fita adesiva ou qualquer coisa assim. Usei dois post-its para prender o papel.

Me sentia mal. A usual tristeza matutina e a ressaca faziam minha cabeça doer. Decidi que não queria parar de colar coisas na parede.

Um a um, fui escrevendo as memórias de tudo aquilo que eu não devo esquecer. Alguns eram ideias sequenciais, outros apenas pensamentos jogados. Em breve, eu tinha um esquema; como aqueles quadros de filmes policiais norte-americanos, do nada a minha parede havia se tornado uma extensão da minha própria memória. Tudo tinha um elo e um porquê. Bilhões de post-its amarelos agora enfeitavam a minha parede, uns com traçados grosseiros, outros mais fortes, mas cada um deles importante à sua própria maneira.

Meu cérebro — esse maldito que me acompanha sempre e não desliga nunca — tem o péssimo hábito de lembrar de tudo que deveria esquecer e esquecer de tudo que deveria lembrar. Minhas mãos tem o ótimo hábito de eternizar tudo aquilo que o cérebro processa em conflito o tempo todo. Agora, tudo que eu precisava lembrar estava ali; à um olhar de distância. Restava eu nunca mais esquecer disso.

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