Cinco dias


Ele temperava o macarrão quando se pôs a pensar. Com uma pitada de sal ainda em suas mãos, veio-lhe a inspiração e o título: “cinco dias”. Sempre utilizava as unidades de tempo para determinar as fases de sua vida.

Fazia tempos que ele não cozinhava. Diante do tanto de obrigações que agora ele tinha que se responsabilizar, bem como a indisposição que havia o acometido durante as últimas semanas, ele havia negligenciado algumas atividades básicas. Desde que o restaurante perto de sua casa abaixou o preço, havia se tornado mais fácil almoçar fora todos os dias. Não havia a necessidade de lavar louças, a variedade de comidas era maior, e ele tinha feito amizade com os donos do local. Considerando tudo, era vantajoso.

Ainda assim, estava orgulhoso de cozinhar novamente. Não era nada muito pomposo, nada realmente especial, mas foi ele que fez.

Toda a sua casa estava agora diferente. Em um prazo de cinco dias fez o trabalho que estava há meses acumulado. Devido à greve geral na sexta e o feriado na segunda, o fim de semana havia se tornado um feriadão; o terceiro do mês, e que agora fechava abril. Em outros momentos haveria deixado se levar pelo tédio, mas agora tinha uma melhor noção de tudo que havia para fazer. Havia ordenado as suas roupas, trocado a roupa de cama e organizado os papéis da escrivaninha. A cozinha ele limpava majoritariamente sozinho, e por mais que o incomodasse ter que tomar mais conta disso que o necessário, não o incomodava tanto a ponto de ser um problema. Havia varrido a casa e espanado todos os móveis. Suas alergias atacaram menos que de costume dessa vez. Desenhou um rosto sorridente no banheiro, só de estupidez; pretendia apagá-lo logo em seguida, mas acabou gostando tanto que resolveu deixar lá.

Aprendeu a organizar melhor o seu tempo. Tinha uma pendência do trabalho que deveria ter terminado há dois meses; completou em uma manhã. Ontem à noite, leu registros de seu diário do ano passado e viajou no tempo recordando memórias e pessoas e situações que nem lembrava mais que haviam ocorrido. Havia lido, em algum lugar, a dica para tentar escrever uma página de diário e ler uma página de um livro todos os dias, logo pela manhã. Achava uma página de leitura muito pouco, mas não contestou; só desrespeitou a regra e leu o primeiro capítulo de O Chamado Selvagem, de Jack London. Fazia tempo que não sabia o que era experienciar uma boa leitura. Não fazia ideia que o personagem principal seria um cão. Achou inusitado. Gostou.

Ainda não havia escrito a página em seu diário, mas chegaria a isso eventualmente. Cada pendência em sua hora.

O calor morno, porém agradável, de uma segunda com cara de domingo fazia ele pensar se a mudança no clima não estaria finalmente chegando. O que quer que fosse, hoje simplesmente parecia um dia mais agradável que de costume. Justamente enquanto refletia sobre isso, começou a chover. Foi uma chuva breve, mas levaria isso como um presságio, ou ao menos uma recordação.

Tanto tempo disponível fez ele refletir sobre inúmeras coisas e, como resultado, hoje sua mente parecia mais limpa que de costume. O pequeno quadro na parede, que outrora lhe servira de contador, hoje não continha mais números; apenas lhe repetia aquilo que já havia feito questão de não esquecer. O tempo não só cura todos os males, como ensina muitas coisas.

O pós-almoço, o barulho de chuva e o tempo nublado pareceram ter trabalhado em conjunto para garantir que ele tivesse sono na hora apropriada. Agradecia pelo dia não ter os barulhos usuais de domingo, o que o permitia relaxar. Sentia-se imensamente tranquilo. Gostava de se sentir assim.

“Eu me sinto bem”, pensou consigo mesmo. “Eu estou genuinamente feliz”, reafirmava a si mesmo, não duvidando de suas palavras. E sentia-se assim. Sentia-se bem.

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