Gritos abafados

Rodrigo Prata Orge
Jul 25, 2017 · 3 min read

As manhãs são as mais difíceis. Sempre foram. Isso era recorrente; independentemente de como eu estava ou da fase da minha vida, eu sempre acordava com mais angústia e pensamentos acelerados do que disposição. Poucas eram as exceções.

Nos últimos dez dias, um milhão de coisas se rearrumou na minha cabeça. Percebi meus próprios problemas, minha própria culpa. As coisas que eu preciso tratar e melhorar. Voltei a ser sobre mim. Contava os dias como um presidiário. Me tratava como um ex-fumante; qualquer recaída seria o suficiente para me derrubar. Então eu não recaía, e me sentia melhor que como eu havia me sentido o ano inteiro. Incrível como até o mundo ao redor se comporta de forma diferente no momento que somos outros.

Mas as manhãs eram complicadas. Eu era sempre extremamente mais frágil ao acordar. E quando eu era frágil, eu lembrava da dor. Eu precisava de um escape para a dor; e a minha solução era não buscar a dor de volta, mas evitar a vingança. Sublimar os gritos abafados em algo que me salvasse, e não que me destruísse.

Me sinto patético escrevendo o que parece a mesma coisa pela milionésima vez, pois parece que eu queria o passado de volta. Mas não, eu não queria; a única coisa que eu queria era o presente, e o futuro. O meu presente e o meu futuro. E eu havia me planejado e havia me protegido para que ele tivesse saído do jeito que eu esperava, sem ressalvas, sem problemas.

Não era pra ninguém ter se machucado. Não precisava disso. Saiu tudo errado. Mas de que vale lamentar pelo passado se não podemos fazer diferente, né?

A tristeza que fica é só a da desconfiança, mesmo; a de saber que algumas cicatrizes se carvam fodidas na sua pele e não saem tão cedo. É não saber mais no que crer. É a sensação do ridículo e do patético que sobrou, que hoje ainda persistem mas você sabe que não são o que te define. É engolir o veneno despejado, ao invés de cuspir de volta na cara de quem atira; não por querer se envenenar, mas por não ter sede de vingança. Pro inferno com essa vingança, desgraça.

Me diz aí: valeu tanto a pena assim? Destruir a confiança, a cumplicidade, a paz… por tão pouco? Destruir algo bom de quem te queria bem? Pra quê? Eu só queria seguir o meu caminho. Eu só queria a minha paz.

Ninguém responderia. Ninguém nunca respondia. Quem fica é quem sofre. Que se dane.

Sobreviveríamos. Sempre sobrevivi. Não ia ser diferente dessa vez. Mas vou preferir trilhar o caminho sozinho, ao menos por um tempo. Passei por dor demais. Sentimos dor por sermos bons; a nossa bondade é usada contra nós. E eu havia cansado disso. E francamente, não tô a fim de doer de novo tão cedo.

Hoje só quero seguir meu caminho em paz.

Prostasia

Do grego, προστασία: “Proteção”. (Livro 2)

    Rodrigo Prata Orge

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    Baiano sem sotaque. Gosta de escrever, mas só escreve quando quer.

    Prostasia

    Prostasia

    Do grego, προστασία: “Proteção”. (Livro 2)

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