Inconstância


Acho que de todas as coisas que eu não entendo, eu nunca entendi tão pouco algo como não entendo o agora. É profundamente estranho, o vaivém profundo de compreensões, as oscilações constantes de humor, a incerteza do como agir. Me perguntam como estou, e eu já não sei responder; digo que agora estou bem, de manhã estava mal e que ontem estava melhor. Não é a ausência de perspectiva que me consome, mas a amplitude; consigo ver o objetivo, sei qual é o caminho, mas não consigo trilhar.

Talvez o que me consuma seja a supressão de mim mesmo; fingir o que não sou, como se o que eu fosse fosse errado. A vida inteira ficam nos pedindo para ser mais; mais fortes do que somos, mais resilientes do que somos, mais insensíveis do que somos. A questão é que eu não consigo ser essas coisas. Eu não consigo ser mais forte do que sou, eu não consigo ser menos sensível do que sou. E eu não vejo nem quero considerar a minha força particular como uma fraqueza. Eu prefiro aceitá-la como minha do que ter vergonha do que sou.

Que eu transforme essa dor em poesia ao invés de sufocá-la. Prefiro fazer lirismo do meu sofrimento do que morrer em amargura. Prefiro falar tudo que quero ao invés de afogar em câncer o meu peito. Não espero nada em troca, como nunca esperei. Só quero exercer aquilo que tenho para sentir ao invés de esconder. Quando eu não mais sentir, tudo bem; acabou-se e eu não tenho mais nada a omitir. Mas vou deixar de suprimir o que ainda bate, como se isso fosse errado. Vou deixar de me sentir menos por isso. Vou continuar sendo eu mesmo.

Mudei muito nesse tempo; e ainda assim, mudei muito pouco. Permaneço o que sou.

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