
Senhor Invisível
Acordar era difícil, pois a solitude e o silêncio inconstante tornavam impossível admitir que havia alguém ali. Levava uma hora para levantar da cama, e outra hora para se organizar; era letárgico, insípido, e não saía da primeira marcha durante as horas iniciais da manhã.
Tomava banho frio pois a fiação da resistência havia queimado. Uma explosão no fio queimado e o cheiro da borracha derretida eram prova de que não devia insistir. Comia um pão seco pois não tinha energias para preparar uma refeição. Saía atrasado, completamente atrasado, e já não fazia questão de justificar seus atrasos a ninguém de tão constantes que haviam se tornado. Se olhava no espelho antes de sair e não via ninguém em seu reflexo. Era um senhor invisível.
No momento em que se arrastava com o vigor de uma lesma porta afora, caminhava pelas ruas desertas e não via ninguém. Cães e gatos de rua pareciam sua única companhia no trajeto desolado. Os pontos eram vazios, as calçadas eram vazias; lembrava de momentos que não sabia mais ditar se eram imaginários ou não, onde caminhava por ruas cheias de movimento, cheias de gente, cheias de vida; e novamente se perguntava por que essa realidade parecia estar tão distante de onde ele se encontrava.
Seu trabalho, desolado, já não tinha movimento nem ninguém; as poucas e mesmas pessoas, fazendo suas poucas e mesmas coisas, em um ambiente vazio cuja única completude era estar repleto de espaço. Havia algo errado, pensava ele; onde exatamente havia se omitido o mundo, e por que ele não fazia parte dele? O que deu errado? Era simplesmente uma má cartada da sorte, ou será que não se empenhara o bastante?
(Essa história permaneceu esquecida durante 27 dias até ser reencontrada. Eu não lembro como ela prosseguiria, se prosseguiria, ou o que me impediu de continuar escrevendo. Ela não possui um final.)

