“Não trocamos e nem negociamos a vida do nosso povo!”

Lideranças do povo Munduruku participam de uma ação internacional que denunciou violações cometidas por hidrelétricas e fez um contraponto ao Congresso Mundial de Hidroeletricidade organizado pelo setor empresarial das barragens.

Protesto contra violações cometidas por hidrelétricas realizado, em Paris (França) dia 14 de maio. Foto: Todd Southgate

A união entre organizações ambientais, de direitos humanos, movimentos sociais e lideranças comunitárias, realizou, ontem (14) em Paris, na França, um protesto pacífico para denunciar violações cometidas por hidrelétricas e marcar uma posição contrária ao Congresso Mundial de Hidroeletricidade, que iniciou ontem e é organizado pelo setor empresarial da construção de barragens, a Associação Internacional do Setor Hidrelétrico (IHA, sigla em inglês).

O evento da IHA, que continua até o dia 16 de maio em Paris, busca retratar as hidrelétricas como uma fonte limpa de energia renovável, essencial para a implementação do Acordo Climático de Paris e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. A mobilização realizada na abertura, ontem, denunciou que tais alegações da indústria de barragens equivalem a greenwashing (“maquiagem” dos danos ambientais), visando capturar novas fontes de financiamento, como o Green Climate Fund (fundo verde para o clima). No protesto foram apontados vários casos em que projetos hidrelétricos provocaram conseqüências desastrosas para as pessoas e para o meio ambiente.

O ato também chamou a atenção para um número crescente de trabalhadores do campo e lideranças comunitárias assassinadas em conflitos relacionados à barragens ao redor do mundo. Um homenagem aos lutadores sociais assassinados foi realizada. Entre as homenageadas estavam as lideranças do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Dilma Ferreira, assassinada 22 de março de 2019, no município de Baião no Pará e Nilce de Souza, Nicinha, assassina dia 7 de janeiro de 2016, na cidade de Porto Velho, Rondônia. Elas lutavam contra as violações cometidas pelas usinas de Tucuruí (PA) e Jirau (RO).

Protesto contra violações cometidas por hidrelétricas realizado, em Paris (França) dia 14 de maio. Fotos: Todd Southgate

“Miguel Ángel Pabón Pabón, desapareceu como resultado de seu ativismo contra a barragem de Hidrosogamoso, na Colômbia, que continua apesar das graves violações dos direitos humanos”, disse Juan Pablo Soler, do Movimento Ríos Vívos da Colômbia.

No Gabão, as barragens de Kingélé e Tchimbélé estão afetando negativamente as populações que vivem perto dos rios. “Durante as fortes chuvas, algumas aldeias são inundadas quando os reservatórios transbordam. Os rios se transformam em lagos, a água se torna poluída e os peixes morrem intoxicados. Não há estrutura para nos ajudar no terreno, nem o governo ouve as nossas reclamações, e é por isso que olhamos para o estrangeiro para fazer um pedido de socorro ”, disse Assossa, líder do Pigmy do Gabão.

O Cacique Geral do povo Munduruku Arnaldo Kabá, a liderança indígena Alessandra Korap e Candido Waro da Associação DACE estiveram presentes no ato levando denuncias sobre os impactos das hidrelétricas, no Brasil, em especial na Amazônia.

Depois do Ato eles foram até a sede da empresa Électricité de France (EDF) entregar uma carta de protesto. A EDF é majoritariamente controlada pelo Governo Francês e é uma das principais organizadoras do Congresso Mundial sobre Hidroeletricidade. No Brasil, a EDF é responsável pela construção de uma das piores usinas na Amazônia em emissão de gases de efeito estufa, a hidrelétrica de Sinop, no rio Teles Pires, em Mato Grosso, segundo estudos do cientista Doutor Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). A empresa francesa também colabora com estudos de promoção da megabarragem, como o projeto de hidrelétrica “São Luiz do Tapajós”, que inundaria o território Munduruku Sawre Muybu. Os representantes da EDF recusaram-se a falar com as lideranças.

“A EDF invade nosso território, destrói nossos rios, nosso território e lugares sagrados, e quando chegamos aqui para entregar uma carta a essas grandes empresas, somos barrados. Estamos tristes, mas estamos determinados a continuar nossa luta para defender nosso território ”, disse Alessandra Munduruku.

Candido Waro, Arnaldo Kabá e Alessandra Korap tentando entregar o manifesto do povo munduruku na sede da EDF, em Paris (França). Foto: Todd Southgate

Conferencia paralela

Citando evidências científicas crescentes de que as barragens são uma fonte significativa de gases de efeito estufa, como o CO2 e o metano, grupos da sociedade civil também contestam o papel dos projetos hidrelétricos na mitigação da mudança climática. Estas e outras questões, incluindo os impactos das barragens hidrelétricas nos locais de patrimônio natural e cultural, foram debatidas por cientistas, movimentos sociais e representantes de comunidades afetadas por barragens noBrasil, Colômbia, Mianmar e Turquia em uma conferencia realizada no dia 13 de maio.

A ação teve o intuito de fazer um contraponto ao Congresso do setor empresarial de barragens com o nome “Barragens hidrelétricas: solução ou obstáculo para o cumprimento do Acordo do clima de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável?”. A atividade foi organizada pelas ONGs Planète Amazone, GegenStrömung / CounterCurrent, Rivers Without Boundaries, International Rivers e AIDA.

Um dos palestrantes da conferência foi Myint Zaw, ativista e pesquisador de Mianmar, que recebeu o Prêmio Goldman de 2015. “A segurança alimentar de milhões de pessoas está ameaçada por projetos planejados de represa no rio Irrawaddy, que impactariam importantes áreas agrícolas necessárias para a produção de arroz ao longo do rio e na região do delta”, disse Zaw.

Acesse a declaração produzida pela conferencia em português, inglês, russo, espanhol e chinês: http://bit.ly/declaracaoConferencia

Conferencia realizada com a presença de organizações socioambientais, de direitos humanos, líderes comunitários impactados por barragens, pesquisadores e acadêmicos no dia 13 de maio, em Paris (França). Foto: Todd Southgate

“não trocamos e nem negociamos a vida do nosso povo!”

Os representantes do povo Munduruku que participaram da conferencia ,mm em Paris no dia 13 de maio, publicaram uma carta para denunciar as violações de direitos cometidas por hidrelétricas. Leia na integra:

Nós do povo munduruku sempre decidimos continuar resistindo, defendendo a vida dos nossos filhos, mostrando e ensinando o caminho sem ganância, sem doenças, sem ameaças para nosso povo. Não trocamos a vida dos nossos filhos pelas hidrelétricas, mineração, portos, concessão florestal, ferrovia e hidrovia. O governo e as empresas continuam matando a nossa mãe terra. Já mataram a mãe dos nossos peixes como Karobixexe e Dekoka’a. Agora, o novo governo não é diferente. É o mesmo pariwat (branco) inimigo dos povos indígenas.

Estamos aqui mandando o recado: não trocamos e nem negociamos a vida do nosso povo! A cada dia, a cada minuto, o governo Bolsonaro quer acabar com o nosso direito, com nosso território, nao queremos que as empresas junto com o governo brasileiro destrua o nosso rio como voces fizeram como a Usina Hidreletricas Belo Monte,Teles Pires, São Manoel e tantas outras barragens. Nós caciques, mulheres, pajes, guerreiros e crianças ouvimos os passaros cantar mais baixo, os rios estão doente e voces das empresas estão invadindo e acabando com a Amazonia. O presidente Bolsonaro não quer demarcar as nossas terras mais querem acabar com elas, nao respeita a VIDA que temos. Viemos de tão longe da nossas casas pra deixar bem claro que vamos continuar fazendo autodemarcação, vamos fazer continuar fazer nossos encontros de RESISTÊNCIA, lutando contra esses monstros que querem arrancar as nossas florestas, matar os nossos animais. Vamos defender os nossos locais sagrados, que as empresas destruiram e querem destrui, como o nosso Karobixexe (onde os espiritos se juntam), Dekuka’a (morro dos macacos) e Dajekapap (os fechos atravessia dos porcos).

O Governo está rasgando a Convenção 169 da OIT, está declarando guerra contra os povos indÌgenas, mais nos fizemos os nossos proprios protocolos de Consulta Munduruku e outros povos que estao fazendo os seus proprios protocolos.

Além de tudo, os polÌticos e empresários são surdos aos reclames da nossa Awaidip (floresta). Mas nós a escutamos e sabemos que a cada barragem construída, um dedo do tatu que sustenta o planeta é cortado … por isso todo esse desequilÌbrio, essas mortes, essas tragédias. São provocadas pelo pariwat e todos nós sofremos, que sofrem com a morte dos seus rios e com todos aqueles que foram vítimas desses crimes cometidos pelas barragens. E nos Munduruku vamos continuar defendendo os nossos rios para que as futuras gerações tenham o territorio garantido, possam continuar existindo do nosso modo e cultivando o nosso bem VIVER.

Sawe, sawe, sawe!

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Ação em rede para o enfrentamento das violações de direitos humanos e ambientais na Amazônia

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