Metajornada — a transformação de si mesmo

Aprofundando o olhar interno a partir das sombras.

Escrever me ensina a construir perspetiva, a desconstruir tudo e a questionar a vida, mas ainda não É o que sinto. Enquanto escrevo, crio um jeito precioso de estar realmente comigo — a tela em branco se transforma em um espelho interno único e singular, sempre em movimento. E as palavras vão me conduzindo a lugares cada vez mais profundos.

Muitos de vocês se encontraram comigo apenas uma ou duas vezes nos últimos meses. Nunca antes tinha vivido tantas conexões profundas com tantas pessoas diferentes. Descobrir-me me ajuda a revelar quem sou e os encontros realmente me convidam a ir mais fundo (e é por isso que desejo compartilhar). O convite que me faço é desafiador, mas simples: Ser com o coração, abrindo passagem para o que existe de mais real em mim e aos poucos compreendendo as raízes que aqui me sustentam.

Observo tudo isso me transformar. Reconheço os encontros como ferramentas de autoconhecimento reais e límpidas. Quanto mais abertura e confiança, mais verdade. Quanto mais vulnerabilidade e conexão, mais profundidade, alegria, amor.

Mas hoje tive um encontro com o medo

Olhei para ele de frente e honestamente questionei a sua existência, como se estivesse por um momento inteiramente livre. A minha consciência ficou repleta de vazio por alguns instantes. E curiosamente existia muita clareza lá, muita sabedoria.

Experienciar internamente o meu medo primitivo de viver me permitiu sentir algo verdadeiro e misterioso. Fiz desse novo momento face d‘água para meus olhos. E a transformação se iniciou quando me abri e voltei ao mundo.

Joseph Campbel dizia que tememos a caverna porque nos importarmos muito com o tesouro que reside oculto por lá.

Aprender a transformar ações, crenças e aprofundar a experiência com o silêncio requer força de vontade e dedicação. É nesse ponto da jornada que me encontro agora. Os desafios estão por todos os lados. Como convites, me despertam para as antigas histórias, para o mesmo padrão de medo, para o conforto satisfatório. A procrastinação (novo apelido da velha preguiça), a mentira ou ainda a raiva, iniciam sua real apresentação. Percebo que preciso experienciar as mensagens para descobrir e aprofundar a percepção. O aprendizado agora é a observação.

Navegar é preciso, viver não é preciso! — Fernando Pessoa

Mas como resistir à guerra?

Aprendi que a guerra interior pode se manter sustentável por eras e que a humanidade sempre caminhará lentamente. Mas sei que se olhamos à nossa volta, aqui e agora, enxergaremos possibilidades. E que se olhamos para trás, nos daremos conta de que podemos enxergar os nossos antepassados dentro de nós. No futuro, encontraremos esperança…

Certamente eu e todos nós nos perderemos pelo caminho, mas reconheço tudo isso como mero resumo dos primeiros passos. Para perceber o mundo a partir de dentro, precisamos desconstruir as primeiras camadas de ilusão e é quase certo que iremos sofrer durante o processo. O autoconhecimento nos direciona às nossas próprias sombras e nos convida a enxergá-las como portas para a compreensão.

As crises podem nos levar à sabedoria e os desafios nos conduzem ao evoluir.

Acredito que todo o nosso trabalho se resume à desconstrução. Precisamos apenas reorientar os nossos canais para que os potenciais de vida, amor e criatividade que nos habitam passem a vibrar em harmonia, a se manifestar e a gerar união. A prosperidade é o extremo oposto da escassez. Precisamos trilhar o caminho entre elas. Estamos todos nessa jornada.

E então somos convidados a olhar mais uma vez para fora (nesse eterno yin yang). Ficamos diante daquilo que se apresenta às nossas disposições: a comunidade, os relacionamentos, os encontros, as necessidades.

Escutando o silêncio

Mas quando as dores começaram a cessar, no entanto, me deparei com o silêncio. Passei a enxergar luz no que até ontem era desconhecido. Aqui, conheci os primeiros sinais de quem realmente sou. Simples assim: quanto mais silêncio, mais visão. A observação novamente se coloca como lição e a jornada para dentro se tornou mais sutil, mais viva, mais presente. Fiquei mais próximo da maior luz que me habita, o amor.

Chamo a vida de “metajornada” porque nessa fase da nossa jornada evolutiva damos um passo adiante e nos aproximamos de valores humanos — nos ensinamos e criamos a nossa própria transformação.

Tudo ainda é muito experimental por aqui, muito interno. Mas já posso sentir a força amorosa que está presente nessas experiências. Como ela mobiliza, como fortalece.

Isso é apenas um relato, uma história do que tem passado através de mim. Espero que as minhas palavras tenham te encontrado. Meu desejo é a vida, o seguir, o caminhar.

Afinal, precisamos conhecer as trevas para reconhecer a luz.

Um abraço,

Marcelo J.