A dificuldade de retratar São Paulo do século XIX

Província Negra
Mar 28, 2019 · 3 min read
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Sou o tipo de quadrinista que nunca foge de desenhar um cenário. Aliás, considero-o tão importante quanto os personagens para a condução da história. É o cenário que traz ao leitor a credibilidade daquele dado período ou lugar que se está querendo ambientar a história. Claro que existem características mais genéricas que se pode sair aplicando ao desenhar um cenário, mas meu perfeccionismo me faz adentrar em buscas e pesquisas longas atrás das melhores referências para o trabalho que estiver desenvolvendo.

Em Província Negra não tem como ser diferente. Meses antes de começar efetivamente a desenhar a história começo a fazer minhas buscas por referências, e essa é geralmente a primeira parte do meu trabalho. Tendo uma ideia, ou o roteiro definido consigo saber o que precisarei mostrar na história, e assim sei atrás de quais referências tenho que sair a caça.

O “problema” nesta HQ é que a história se passa na cidade de São Paulo em uma noite de 1869, e esse é um tempo que infelizmente temos poucos registros fotográficos.

As referências que encontrei vêm de um único fotógrafo: Militão Augusto de Azevedo, em imagens que encontrei pela internet que fazem parte do seu livro O Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo 1862–1887. Como o próprio nome diz traz uma comparação das mudanças ocorridas na cidade nesse espaço de 25 anos. Pena que o livro mesmo eu não tive acesso, só encontrei uma ou outra fotografia em livros sobre o período.

Além de fotografias, algumas pinturas e desenhos também são grandes referências para recriar visualmente esse período na HQ. A maioria dessas pinturas encontrei no livro Iconografia Paulistana do Século XIX do Pedro Corrêa do Lago. Grande fonte de pesquisa, mas ainda não cobre tudo o que preciso de referências, então ainda saio pela internet em horas de pesquisa, atrás de coisas específicas: interior de uma casa; móveis (se tinham, quais e como eram); roupas; chapéus; utensílios, etc. Nesse percalço ajuda mas não adianta eu simplesmente caçar “móveis do século XIX”, porque pode vir como resultado da pesquisa móveis usados por uma classe que não seja a que quero retratar, ou então móveis usados em 1890 que já não atenderia à minha necessidade. Preciso saber como era o interior de uma casa da cidade de São Paulo na segunda metade do século XIX, sendo assim não posso usar o interior de uma casa francesa ou inglesa do mesmo período, por serem realidades distintas as encontradas nos três países.

E nesse momento o trabalho de pesquisa começa a ficar mais intenso e até desgastante. Mas não se pode parar. É fato que algumas coisas terei de generalizar e nem tudo conseguirei retratar tão fielmente quanto eu gostaria, mas isso não diminui o esforço que tenho de fazer para conseguir transportar os leitores para um momento onde a maior cidade do país tinha menos de 40.000 habitantes, e era considerada uma província.

Kris Zullo

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