A humildade do roteirista

Província Negra
Mar 14, 2019 · 2 min read
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Há uma diferença brutal entre escrever sobre um personagem fictício e sobre um personagem real. Eu já sabia disso, mas descobri que não sabia bem.

Criar sobre um personagem fictício é caminhar sobre as águas. Tudo é possível. Os limites que foram estabelecidos para caracterizar o personagem podem — e devem — ser redefinidos quando ele não funciona. Ou quando o roteirista não consegue trabalhar o personagem. É como participar de um jogo em que você mesmo escreve as regras. É confortável. É fácil. Arrogância pura, sem dúvida.

Tudo muda quando você escreve sobre um personagem que existiu de verdade. Suas paixões, seu humor, seus sonhos, suas manias, tudo o que compõe o seu perfil, foram estabelecidos pela sua vida. Não podem ser modificadas pelo roteirista. É clausula pétrea.

Ao lidar com o personagem real, o roteirista enfrenta seu limite como artista. Não dá para contornar ou modificar se o personagem não funciona bem numa cena. É a cena que não é boa. É o roteirista que não entendeu o personagem. Ou não sabe fazê-lo. O roteirista tem que se superar. Tem que reconhecer suas limitações e buscar as respostas. Tem que ter, em suma, humildade.

E para superar essa limitação, tem a seu dispor somente a mais velha, clássica e dual das aprendizagens: a tentativa e o erro.

É por isso que estou na versão 6 da primeira parte do roteiro da Província Negra. E lá vamos nós para a sétima, em breve, logo, com urgência. Até o infinito, se for necessário. Até o acerto. Até que funcione.

E de tanto escrever e reescrever, aprendi que a personagem Luiz Gama tinha três pilares que sustentavam sua personalidade: a sensatez, o amor à justiça e o profundo senso de indignação.

Eu me pergunto como ele reagiria se vivesse nestes nossos tristes dias.

A imagem que ilustra este texto é o desenho de Luiz Gama, impávido e colosso, feito pelo mestre e parceiro Kris Zullo.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida…

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real: o jurista e abolicionista Luiz Gama.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real, o jurista e abolicionista Luiz Gama. Projeto aprovado no edital da Coordenação de Fomento e Formação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real: o jurista e abolicionista Luiz Gama.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real, o jurista e abolicionista Luiz Gama. Projeto aprovado no edital da Coordenação de Fomento e Formação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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