Crasso Santo

Província Negra
May 20, 2019 · 2 min read
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As fazendas de Martim Crasso embranqueciam as serras do norte da província de São Paulo com seus frutos de algodão durante a primavera. Centenas de mãos negras colhiam de maneira ordeira e pacífica a fibra ressecada, do primeiro ao último raio de sol de longos dias. Martim Crasso, imponente em seu corcel chamado Serafim, olhava sereno todo o processo, chicote calado na cinta, sentindo uma mescla de compaixão e orgulho por seus escravizados.

Às vezes, descia de sua montaria, e pessoalmente dava água para um escravizado. Gostava de ver o suor gotejado na pele negra. Percebia que ensinava àqueles seres oriundos de sociedades não civilizadas o valor do trabalho. Mais tarde, em seu leito da morte, entendeu que na verdade sentia a paz verdadeira da missão cumprida, e quis que sua eternidade pós vida estivesse preenchida por este sentimento sublime e redentor.

A sua vida tinha sido, de certa maneira, fácil. Logo cedo, ainda jovem, compreendeu que a principal escassez de um país de dimensões continentais como Brasil era a mão de obra e, com as poucas economias herdadas de uma avó portuguesa, foi pessoalmente à África negociar cativos de guerra com chefes tribais. Caminhos feitos do adocicado pó do deserto e, do sal do oceano que separava e unia e dois pedaços selvagens de terra, eram sua rotina. Logo fez fortuna. Calculou, no final da vida, que tivesse trazido ao Brasil quase dez mil escravizados.

Riquíssimo, resolveu retribuir a generosidade divina para com sua pessoa construindo hospitais, asilos, orfanatos e distribuindo esmolas graúdas para viúvas honestas. Emprestou dinheiro a ministros e príncipes. Foi condecorado pela coroa brasileira com todas as ordens existentes. Porém, recusou um título nobiliárquico. Sua humildade não o permitia.

Nunca se casou. Não deixaria herdeiros que dissipariam sua fortuna em farras e cantorias profanas, tão comuns na província à sua época.

Aos noventa anos sentiu que seu fim se aproximava. E então resolveu que a revelação da face de Deus se daria em companhia de seu escravizados.

Afinal, eles eram a sua obra.

Kaled Kanbour

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real: o jurista e abolicionista Luiz Gama.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real, o jurista e abolicionista Luiz Gama. Projeto aprovado no edital da Coordenação de Fomento e Formação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real, o jurista e abolicionista Luiz Gama. Projeto aprovado no edital da Coordenação de Fomento e Formação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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