Poupem o Caran D’Ache

Província Negra
Feb 28, 2019 · 3 min read
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O roteiro é estruturado para alcançar determinado objetivo no leitor e/ou espectador. Em geral, uma mescla de emoção e ideia, e quanto maior a emoção, de modo paradoxal, mais tangível fica a ideia, os objetivos ideológicos do criador da história. Não se iludam: não existe texto ou imagem neutra. O máximo de neutralidade que você vai conseguir é numa bula ou numa placa de trânsito. E olhe lá.

Apesar do roteiro perseguir as fortes emoções, ele é um documento, um texto técnico em busca de um determinado efeito dramático. Para mim é uma ironia do destino eu ter abandonado o curso de direito, praça dos textos técnicos, dos jargões e dos labirintos das regras, para escrever roteiros, com sua estrutura seca descritiva, de enumeração de cenas como se fosse artigos de lei, de rol de objetos e pessoas como se fosse um inventário, de diálogos como testemunhos, de jargões de movimentos de câmeras…

Meu começo de carreira, porém, não foi assim.

Assim que eu abri meu portfólio de desenhos ao editor de quadrinhos Disney da Abril Jovem, ele parou um instante, respirou fundo, e disse, num tom que eu acho, hoje, era de desafio, mas na época achei que era de ironia: “Como desenhista, você daria um ótimo roteirista”. Fiquei pálido. Tinha fracassado. Já me via no fórum distribuindo processos quando ele me mostrou uma página branca, um pouco menor que uma A3, com linhas azuis bem claras demarcando quatro tiras.

“É aqui que a gente faz um rough”, disse ele.

”Ráfi?”, perguntei, no alto dos meus vinte anos.

Então me mostrou outras páginas assim só que cheias de rabiscos à lápis: “Estes são os roteiros”. Eram os roteiros da galera da época que escrevia Pato Donald e seus parentes. Alguns desenhos eram sensacionais, quase o desenho pronto, até melhores, expressivos e engraçados, e outros eram bem primitivos, palitos com azeitonas na ponta que andavam e conversavam, e o autor colocava preventivamente o nome do personagem em cima do palito com azeitona. Um Peninha mal desenhado poderia virar uma Margarida num piscar distraído de olhos do desenhista e toda uma cadeia de trabalho iria por água abaixo.

Fiquei fascinado. Então se podia desenhar roteiros? Sim. E com meu traço? Desde que ficasse compreensível, sim, disse por fim o editor. Não havia nenhum compromisso com perspectivas complexas, volumetria ou jogos de luzes. Apenas que deixasse claro na página o que estava acontecendo. Abri um sorriso pervertido diante da perspectiva de tanta diversão.

Desde então, todos os meus roteiros de quadrinhos são feitos em rough, ou em bom português, eles são rafeados. Eu desenho o roteiro. Sem jargões, sem enumeração de cenas, de descrições técnicas. Puro lazer. Se um personagem tenta matar o outro, você vai lá e desenha a cena. E se o sol se põe, os raios de luz amarelados refletem todo a dramaticidade. Se o meu desenho fica muito azeitona, coloco uma descrição por cima. Nenhum cuidado é pouco para uma história em quadrinhos alcançar o efeito dramático desejado.

A grande maioria dos desenhistas brasileiros prefere assim, um roteiro em rough. Quando insinuei fazer o Província Negra escrito porque assim demandaria menos tempo na produção do roteiro, Kris Zullo, o desenhista da história, me olhou desolado e disse que preferia que sua coleção de lápis suíços Caran D´Ache Supracolor Superior Magnum Espectrum de 72 cores, fora de catálogo desde 1992, pegasse fogo.

A página que ilustra este texto é uma página cortada do roteiro do Província Negra, quando o coronel Titus se confronta com Luiz Gama. Um soco devidamente rafeado com uma lapiseira Pentel 0.7 2B, que eu não troco por nada deste mundo.

Província Negra

História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida…

Província Negra

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real: o jurista e abolicionista Luiz Gama.

Província Negra

História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real, o jurista e abolicionista Luiz Gama. Projeto aprovado no edital da Coordenação de Fomento e Formação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real: o jurista e abolicionista Luiz Gama.

Província Negra

História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real, o jurista e abolicionista Luiz Gama. Projeto aprovado no edital da Coordenação de Fomento e Formação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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