Uma dúvida

Província Negra
Feb 21, 2019 · 3 min read
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A história de Luiz Gama tem a capacidade de impactar de diversas formas. Para mim, com surpresa, deslumbre e urgência.

Tudo necessariamente nessa ordem.

Surpreso, porque não conhecia sua história, nem por rumor ou nota de rodapé de um livro qualquer de História que eu tivesse lido desde os primeiros tempos de escola. Li e reli várias vezes, maravilhado, o trecho em que ele surge em “A Capital da Solidão”, livro de Renato Pompeu de Toledo, sobre as origens da cidade de São Paulo, que eu lia por pura curiosidade e para passar o tempo durante as viagens de metrô entre as estações Luz e Faria Lima.

Era a epopeia de um gigante moral que havia caminhado entre nós.

O estado do deslumbre provocou a necessidade de falar dele. Melhor, escrever sobre ele, de maneira urgente. Mais. Desenhá-lo. Mais ainda. Fazer uma história em quadrinhos! A imagem de Luiz Gama andando pelas ruas da cidade na metade do séc. XIX, com escravagistas em seu encalço, foi o combustível radioativo para um projeto de romance gráfico.

Nesta história, ficção e realidade se misturam, produzindo uma pulp fiction policial, com leves toques de Gogol. Um aspirante a escritor acompanha Luiz Gama na investigação de crimes em que o advogado é o principal suspeito. Tudo se passa em menos de vinte quatro horas. É o tempo que Gama tem para provar sua inocência, serpenteando nos labirintos da antiga São Paulo, sob a densa e antiga garoa.

A estrutura narrativa estava criada. Mas havia uma dúvida.

Como eu, homem branco, que confortavelmente descobriu Luiz Gama dentro de uma linha de metrô (amarela, a mais confortável da cidade), a partir de sua mesa de trabalho, olhando para um quintal cheio de tomates em flor, pode falar da luta, intensa e desproporcional, de um homem negro, filho de uma mãe escravizada, vendido pelo pai para pagar dívidas de jogo, que abriu seu caminho nas ciências jurídicas de maneira brilhante, numa sociedade de castas, escravista e violenta?

Só havia um ponto de vista que minha narrativa poderia ser legítima: o discurso de dominação.

É a espinha dorsal da história e a partir daí se organiza. O norte da narrativa. Bem vindos à Província Negra.

Bem-vindos também ao Blog da Província. A partir de hoje, uma vez por semana, vou escrever sobre o processo de criação de um romance gráfico em que a História é o pavimento principal. E como isso impacta a criação, as dificuldades e as glórias da pesquisa, as alegrias e as tristezas que estão escondidas no passado da cidade.

O post que ilustra este texto é um detalhe das arcadas da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, do largo de São Francisco. Foi produzida por Kris Zullo, desenhista, meu parceiro em criar este álbum.

São Paulo não seria São Paulo se não fosse por cinco ou seis pilares que sustentam sua gênese, e um deles, com certeza, é a faculdade de direito. A inauguração do curso de ciências jurídicas em 1828 deu o impulso intelectual que tirou a província do ritmo modorrento das tropas de mulas. A faculdade é peça chave da história e da vida de Luiz Gama, seu ilustre aluno. E que eu mesmo, modestamente, tive a honra de também ser seu egresso, até abandonar o curso da fila de matrícula do 8º semestre para me dedicar, com a mesma paixão que Luiz Gama se dedicou ao direito, ao incrível mundo de escrever histórias.

Kaled K. Kanbour

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida…

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real: o jurista e abolicionista Luiz Gama.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real, o jurista e abolicionista Luiz Gama. Projeto aprovado no edital da Coordenação de Fomento e Formação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real: o jurista e abolicionista Luiz Gama.

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História em quadrinhos que narra um fato ficcional na vida de um personagem real, o jurista e abolicionista Luiz Gama. Projeto aprovado no edital da Coordenação de Fomento e Formação Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

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