O que mais se ouve no Spotify?

Em 2006, o editor da revista Wired Chris Anderson popularizou para o mundo o conceito da economia de nichos em seu livro “A Cauda Longa”. Na obra, que reúne textos do seu blog pessoal, Anderson destrincha a tendência seguida por mercados como os de entretenimento e de conteúdo: investir na variedade e na pluralidade para obter lucro — e não necessariamente no volume de venda dos grandes hits. Quando analisado sob o ponto de vista do mercado musical, o livro traz consistentes exemplos de como a Apple, por exemplo, construiu com o iTunes um império, investindo na diversificação de sua base de faixas e artistas, sem necessariamente se restringir a promover a venda daquilo que era vendável. Trocando em miúdos, o conceito explica que um conjunto enorme de artistas de pouca expressão em vendas é tão ou mais significativo do que um pequeno grupo de “blockbusters” cujo sucesso de vendas é praticamente garantido.

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O Spotify, que nos últimos anos mostrou ter poder para assustar marcas como o iTunes oferecendo um serviço via streaming, parece estar encontrando seu caminho por esta mesma rota. E identifica no metal um nicho que garante boa parte da sua fatia de bolo no mercado.

Em abril, o Spotify publicou os resultados de uma pesquisa super interessante que retrata, em função da frequência de audições de determinadas músicas e bandas, quais estilos musicais dominam o consumo de música via streaming no mundo — e por país. Irrelevemos os curiosíssimos resultados de uso do Spotify no Brasil (punk nacional em primeiro, rock gaúcho em segundo e pop nacional em terceiro) e tentemos nos focar em resultados globais. Se por um lado a maior parte das pessoas do mundo, inadvertidas, atribuiriam o primeiro lugar ao pop de artistas como Beyoncé ou Rihanna, por outro os fatos comprovam que a paixão pela música está mesmo no coração dos metaleiros. Metal é o estilo musical mais ouvido no Spotify. E com considerável vantagem sobre o pop, que vem em segundo lugar, e sobre o folk, em terceiro.

Embora a mídia volte seus olhos com muito mais frequência a artistas como Taylor Swift, que baniu suas canções do app em 2014, é nos fones dos fãs de metal que o streaming impera. E não é difícil compreender esse fenômeno se resgatarmos o conceito apresentado por Chris Anderson em “A Cauda Longa”. É nítido que Ed Sheeran (artista que mais teve faixas reproduzidas via streaming em 2014) sozinho foi mais ouvido do que qualquer banda de metal no último ano — mas o gênero metal como um todo representou um número maior de audições do que o folk-pop de Ed. E isso tem despertado a atenção dos responsáveis pelo Spotify para todo tipo de movimento ou evento que se passe com o metal. A marca está presente em festivais do gênero, lança playlists customizadas. Não à toa, dias após a decisão de Taylor Swift por retirar suas canções do serviço de transmissão online, o Spotify anunciou a “aquisição” de todo o catálogo de canções da banda alemã Rammstein.

Nem todo metaleiro está necessariamente satisfeito com isso.

É bem verdade que a maioria das bandas está mais preocupada com os impactos negativos que a voracidade do Spotify pode causar do que com o uso da plataforma como mídia de distribuição de músicas. De um lado, artistas e bandas como Thom Yorke, AC/DC, David Gilmour, Tool, The Black Keys, Garth Brooks, e Jay-Z (que lançou seu próprio serviço de streaming, o Tidal) se posicionam de forma contrária ao modelo de remuneração proposto pelo Spotify ou ao serviço de streaming em si. Segundo o Gizmodo, o Spotify paga em média entre US$ 0,006 e US$ 0,0084 por cada vez que uma música é tocada. O panorama não é diferente com bandas de metal. Embora Lars Ulrich (baterista do Metallica e protagonista da antológica briga com o Napster na década de 90) já tenha dito que ama o Spotify, o streaming aparentemente não surtiu efeitos positivos às vendas da banda após a entrada de seu catálogo no Spotify. Mais recentemente, Rob Halford, do Judas Priest, demostrou sua insatisfação com o modelo atual da plataforma:

“Os grandes serviços de streaming como Spotify gostam da posição em que estão. Eles ganham baldes de dinheiro e acham que, como ainda estar começando, não precisam ser justos conosco. As coisas precisam ser claras: sem nós, eles não têm uma empresa de streaming. É isso, puro e simples. Então é uma luta, mas acho que os artistas vão prevalecer e chegaremos a um acordo para que tudo funcione para todos”.

Também é bem verdade que o Spotify não é o único responsável pela insatisfação com o modelo de remuneração. Com o vazamento de informações internas da Sony, o mundo tomou conhecimento da relação entre as gravadoras e a plataforma de streaming. A Sony recebeu antecipadamente do Spotify US$ 42.5 milhões, além de ter aceitado em contrato o pagamento de uma taxa mínima de US$ $0.00225 por stream. Estima-se que, em média, 10% do valor pago pelo Spotify vá para o artista. Sendo assim, as gravadoras têm boa parte da culpa no cartório.

Então de onde vem a disposição para manter relações com o Spotify?

Se de um lado temos uma indústria que encontrou novas formas de se manter lucrativa às custas da produção musical e, do outro, temos uma legião de artistas descontentes, o que faz com que a maior parte das bandas ainda aceite fazer parte do acervo do Spotify e integrar um primeiro lugar pulverizado neste ranking de gêneros mais escutados do planeta?

A resposta está justamente no resultado do ranking. Pessoas estão ouvindo metal no Spotify. E muito. E de forma legalizada (em muitas ocasiões substituindo o download de mp3 e pagando algo por isso). Concordo com o que Jason Abbruzzese diz em seu artigo para o Mashable: as bandas permanecem no Spotify porque é lá que seus fãs estão. Enquanto houver uma legião de fiéis da música optando por uma ferramenta de consumo legal e que garanta alguma remuneração ao artista (mesmo que pífia, como a oferecida pelo Spotify), as bandas que honrarem sua relação com o fã acabarão optando por negociar sua entrada e permanência na ferramenta. E há dois fatores quase sempre deixados de lado quando se discute esta polêmica de “artistas vs. Spotify”. O primeiro é que muitos artistas já migraram seus esforços para obter um “ganha-pão” via outras alternativas que não a venda da música em si (física ou digital). Investem em turnês, linhas de produtos, royalties para o uso das canções, etc. O segundo fator é que pensar em receber algum valor pela reprodução de uma faixa já pode ser considerado uma micro-evolução. Um princípio de resgate do hábito de valorizar (e desembolsar algum valor, literalmente) para consumir música — hábito praticamente extinguido com o surgimento da mp3 e das redes P2P. Em vista do que o mercado da música foi há 5, 10 anos atrás, isso é ou não é uma fagulha de esperança para músicos?

Bandas de heavy metal podem não estar morrendo de amores pelo streaming. Mas seus fãs aparentemente estão. E por isso elas ainda terão que bater muita cabeça por aí para chegar a um modelo ideal, que respeite a produção criativa e os meios de distribuição.

Minha singela opinião? Artistas dão murro em ponta de faca ao demonizar o Spotify quando seus parasitas continuam sendo as gravadoras. E você, o que pensa a respeito?