Sangue de barata

Nico Rosberg não perdeu o título mundial de Fórmula 1 no último fim de semana. O alemão da Mercedes perdeu o campeonato já no ano passado, quando foi trucidado por Lewis Hamilton na metade final da temporada. Rosberg começou o ano derrotado e não demonstrou nenhuma força para reverter o trágico quadro que vinha sendo pintado para ele.

O piloto do carro #6 foi apático durante praticamente todo o ano, com uma ou outra prova em que conseguiu brilhar um pouco, mas não o bastante para ofuscar a estrela de Hamilton.

Rosberg conseguiu superar o companheiro de equipe em apenas um pequeno período da temporada 2015, entre o GP da Espanha e o da Áustria, quando conseguiu três vitórias e um segundo lugar em quatro provas, mas foi só. E essa pequena boa fase só foi conquistada graças a uma falha clamorosa da equipe de Hamilton no GP de Mônaco.

A temporada do filho de Keke é tão abaixo do esperado para quem guia uma Mercedes que ele conseguiu a proeza de ter o mesmo número de vitórias que Sebastian Vettel, que corre em uma Ferrari em reconstrução. É tão ruim que Rosberg conseguiu perder a vice-liderança do campeonato para o tetra-campeão.

O único momento dos últimos dois anos que Rosberg mostrou que tinha algum sangue nas veias. Durou pouco e o tiro saiu pela culatra.

Lewis sabe de tudo isso e amassou o rival. Hamilton tem muito mais garra e vontade de ser campeão que o companheiro de equipe. Hamilton não deu espaço para que Rosberg tentasse se impor. E o começo desse massacre psicológico foi o GP de Spa-Francorchamps de 2014.

Foi naquele momento em que Rosberg finalmente decidiu peitar o rival e jogar duro, mas a estratégia deu totalmente errado e Nico foi crucificado pela equipe por colocar em risco os dois carros em uma manobra estúpida e impensada.

Hamilton se aproveitou do erro de julgamento de Rosberg e cresceu. Tomou conta da equipe e transformou Nico em segundo piloto, mesmo que não haja esse tipo de separação no time alemão. Lewis passou a jogar mais duro, porém sempre dentro do limite do aceitável, enquanto que Rosberg pareceu ter perdido a coragem de apertar o companheiro.

Lewis e o jogo duro para cima de Nico no Circuito das Américas

Prova disso são as largadas dos GPs de Suzuka e de Austin desse ano. Nas duas ocasiões Hamilton tirou espaço de Rosberg e o jogou para fora da pista. Ambas as manobras foram muito bem executadas e consideradas legais tanto pela direção de prova quanto para a equipe. Rosberg apenas reclamou, mas não tomou nenhuma atitude para recuperar terreno. Não tentou tirar espaço de Hamilton nas voltas seguintes. Não arriscou uma manobra mais “kamikaze”, comum para quem não tem muito a perder.

Desde o começo da temporada passada era possível saber que a disputa do título ficaria entre Hamilton e Rosberg, tendo em vista a disparidade entre o carro projetado pela Mercedes com o resto do grid. Já vimos isso acontecer na Fórmula 1 diversas vezes, a última com Vettel e Webber na Red Bull, mas talvez nunca tínhamos visto um piloto massacrar de forma tão humilhante o outro como Lewis fez com Nico.

Nem mesmo Webber, que perdeu quatro títulos para Vettel e, mesmo assim, saiu com a cabeça erguida e deu a sensação de que fez o que era possível. Já Rosberg sai de mais uma temporada deixando a sensação de que é um piloto que não tem coragem o suficiente para ser campeão e peito para se impor. Ninguém jamais foi campeão sem jogar duro. Ninguém jamais foi campeão sem ser respeitado pelos adversários.

Hamilton curtiu isso.

Nico parece não assustar ninguém e parece ter medo de fazê-lo. Parece não ter a capacidade de deixar o carro escorregar aqueles centímetros a mais em um curva para tirar o espaço do adversário. Parece conformado com o domínio imposto por Hamilton e não parece ter forças para reverter a situação.


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