Como um ex-jogador fez a Operação Condor ser flagrada em pleno voo

Há 40 anos, um casal de uruguaios era sequestrado por agentes da repressão em Porto Alegre. E o envolvimento de um ex-atacante de Inter, Cruzeiro e Atlético-PR revelou a ação coordenada entre as ditaduras de Brasil e Uruguai, comprovando a existência de um consórcio sul-americano do terror

Por Bernardo Peregrino

O uruguaio Universindo Rodríguez Díaz tinha programa para aquele domingo, 12 de novembro de 1978. Apaixonado pelo Peñarol, o jovem começava a criar uma relação com o Internacional, time da cidade para onde se mudara havia menos de um mês. O fim de semana marcava o começo do hexagonal final do Campeonato Gaúcho, e o Inter de Falcão, Caçapava, Valdomiro e Batista vinha de uma empolgante vitória sobre o Grêmio, seu maior rival, por 2 a 1. O adversário da tarde no Beira-Rio seria o Caxias, que vencera o Colorado no mês anterior, ainda pela segunda fase do Gauchão.

Universindo tinha companhia para o passeio dominical: os pequenos Camilo, 8 anos, e Francesca, 3. Os dois eram filhos de um relacionamento anterior da também uruguaia Lilian Celiberti, companheira de vida e de luta de Universindo. O apartamento 110 na Rua Botafogo, 621, bloco 3, situado no bairro Menino Deus, era a morada do casal, a poucos quilômetros do Beira-Rio. Universindo saiu de casa por volta de 13h45, mas não conseguiu ir ao estádio ver o Internacional empatar por 1 a 1 com o Caxias, num jogo tecnicamente ruim.

As crianças já estavam na rua quando Universindo fechou a porta de casa. Mal ele se virou, viu uma pistola em seu peito e a face do delegado Pedro Seelig, uma versão gaúcha de Sérgio Fleury. Colorado fanático, Seelig vestia uma roupa esportiva, mas também não iria ao Beira-Rio. O delegado estava num grupo de dez homens, entre brasileiros e uruguaios.

Pouco antes, o próprio Seelig tinha feito ação semelhante com Lilian. Ela já estava detida, e via tudo o que se passava com Universindo de dentro de uma caminhonete Veraneio, que estava estacionada na calçada. A uruguaia saltou logo do carro para abraçar os dois filhos. Ela já havia chegado a um acordo com os policiais: iria tentar deixar as crianças com uma vizinha. No entanto, não havia ninguém na casa deles. Camilo e Francesca virariam testemunhas involuntárias do calvário de Lilian e Universindo. A Operação Condor, a união multinacional das ditaduras militares da América do Sul, havia acabado de dar início a mais uma missão.

Cooperação internacional

O casal de uruguaios militava no Partido por la Victoria del Pueblo (PVP), organização de esquerda. Ambos decidiram vir para o Brasil com o objetivo de receber denúncias de violações de direitos humanos de seu país, que também passava por uma cruel ditadura militar. Universindo vinha da Suécia, onde tinha o status de refugiado, concedido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), enquanto Lilian estava na Itália. De Porto Alegre, o casal conseguiria recolher informações do Uruguai e fazer denúncias para organizações de defesa dos direitos humanos na Europa.

A escolha por Porto Alegre ainda tinha um componente a mais além da proximidade com o Uruguai. O Brasil vivia a abertura “lenta, gradual e segura” do regime militar. O ambiente, apesar de não ser o ideal, parecia bem mais respirável do que no país-natal do casal. Mas, no começo de novembro de 1978, o exército uruguaio conseguiu desbaratar o PVP dentro do Uruguai por meio de um telefonema anônimo.

Sob tortura, integrantes da organização confessaram que Lilian e Universindo tinham acabado de chegar da Europa para fincar morada em Porto Alegre. Se pouco mais de 800 quilômetros separam Montevidéu da capital gaúcha, em 1978 a distância entre as cidades era quase nenhuma para as garras da Operação Condor. O exército uruguaio cogitou fazer uma operação clandestina para prender o casal, mas tal ousadia diplomática não foi necessária.

A Compañía de Contrainformaciones, unidade do exército uruguaio responsável pela operação, tabelou com o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de Porto Alegre para colocar a missão de pé. O capitão Glauco Yannone, um dos mais temidos militares do Uruguai, uniu forças a Pedro Seelig, numa espécie de integração latino-americana do terror. No dia 12 de novembro, pouco antes da prisão de Universindo, Lilian fora abordada por Seelig na rodoviária de Porto Alegre. A uruguaia aguardava uma família de desaparecidos políticos quando foi pega pelo delegado gaúcho.

De lá, Seelig levou Lilian ao prédio da polícia, onde a uruguaia foi interrogada e torturada. Os militares só descobriram o endereço do casal porque encontraram na bolsa de Lilian um recibo de pagamento da escola onde Camilo e Francesca estudavam. A uruguaia implorou aos seus captores para que pudesse ir junto ao endereço da Rua Botafogo, temendo que algo de mau pudesse acontecer com as crianças.

Luiz Cláudio Cunha é uma referência sobre Operação Condor; à direita, ao lado do fotógrafo JB Scalco | Fotos: Leonardo Prado/Ag. Câmara e Ricardo Chaves (reprodução)

“Uma baita fria, tchê”

Luiz Cláudio Cunha estava com o dia atribulado na sexta-feira, 17 de novembro. O chefe da sucursal gaúcha da revista Veja se ocupava de fechar a edição que informaria a eleição do então deputado estadual Pedro Simon ao cargo de senador. A eleição parlamentar de 1978 acontecera dois dias antes, no feriado de 15 de novembro, e Luiz Cláudio mandara o repórter Pedro Maciel e o fotógrafo Ricardo Chaves para o litoral gaúcho, onde Simon acompanhava a apuração dos votos.

No meio daquele turbilhão, tocou o telefone da secretária. Um homem falando em espanhol pedia para chamar o chefe da sucursal, mas Luiz Cláudio estava em contato com sua chefia em São Paulo.

“Quando era meio-dia, ele voltou a ligar, e aí eu atendi. O cara falou ‘necesitamos que se vea lo que está se pasando’. Eu anotei os nomes e disse: ‘mas o que que está acontecendo? Estão desaparecidos?’. Ele disse ‘no, detenidos’. Aí eu ‘tudo bem, vou ver’, meio com má vontade e tal. Quando eu perguntei qual era o nome dele, ele disse que estava falando de São Paulo, não podia falar mais nada e desligou o telefone. Aí fiquei meio bronco. Pô, o cara me liga e desliga na minha cara”, relembra Luiz Cláudio à reportagem do Puntero Izquierdo.

O dia seguiu, e o chefe da sucursal só foi se lembrar do telefonema por volta das 16 horas. Repousava na mesa dele um papel, onde ele tinha anotado algumas coisas: os nomes de Universindo Díaz e Lilian Celiberti e o endereço da Rua Botafogo, 621, bloco 3. Como já tinha feito a maior parte do trabalho no dia, Luiz Cláudio resolveu checar a informação do telefonema anônimo.

No entanto, Ricardo “Kadão” Chaves, o fotógrafo da Veja, estava na cobertura de Pedro Simon. O único profissional das lentes que Luiz Cláudio encontrou na redação foi João Baptista Scalco. JB era um craque da revista Placar. Registrava como ninguém imagens contra-luz no Beira-Rio e no Olímpico. O apelido de Van Gogh dos Pampas não era exagero. Juca Kfouri o considerava o melhor fotógrafo de futebol do Brasil.

Luiz Cláudio não teve dúvidas em chamar o amigo para a empreitada. A dupla embarcou no carro de Scalco até o endereço na Rua Botafogo sem poder imaginar que estava prestes a descobrir uma missão da Operação Condor em pleno andamento, no caso que gerou um incidente diplomático e resultou na única condenação de um agente brasileiro da ditadura por um ato cometido durante os anos de chumbo.

Os dois encontraram um condomínio de prédios e foram até um apartamento térreo no bloco 3. “Quando eu bati, a porta se entreabriu e apareceu o rosto de uma mulher morena com os olhos arregalados, tentando se comunicar comigo girando o olho de um lado para o outro. Eu não entendi bem e comecei a falar rápido em espanhol. ‘Hola, buenas tardes. Universindo está?’ Ela falou que não. Eu disse ‘nosotros recibimos un teléfono ahora y queremos saber…’ Fiquei falando rapidamente e não consegui terminar a frase. Subitamente, ela saiu de cena e a porta se abriu toda”, conta Luiz Cláudio.

Os dois jornalistas mal tiveram tempo de esboçar qualquer reação. Num piscar de olhos, um homem branco de bigode apontava uma pistola para a testa de Luiz Cláudio, enquanto um negro robusto fazia o mesmo com JB Scalco. Frente a argumentos tão persuasivos, a dupla não teve como recusar o convite para entrar no apartamento. Dentro, tudo estava mal iluminado. Cerca de quatro homens observavam Luiz Cláudio e JB, que foram colocados de frente para a parede, com as mãos para cima, para serem revistados.

Para a surpresa dos homens que estavam no endereço, os visitantes não tinham armas. Mais: um deles levava uma bolsa com uma máquina fotográfica Nikon. Na primeira brecha, Luiz Cláudio perguntou em alto e bom português o que estava acontecendo. Silêncio na sala. Em seguida, falou mais: era jornalista. Da revista Veja, a maior revista semanal do país. Um dos homens perguntou como a dupla tinha chegado até lá. Luiz Cláudio explicou a história do telefonema anônimo e aumentou o impasse dentro do apartamento.

“Um dos caras saiu da sala, eu senti que era o cara de bigodinho que me recebeu com uma pistola na porta. Ele saiu do apartamento, foi lá para a rua, certamente para pedir instruções. Aí ficou aquele silêncio, aquele constrangimento. Eu tentei descontrair. Falei o seguinte: ‘pô, parece que eu entrei numa fria, né?’ Uma piada… O cara corpulento, negro, que na porta recebeu o Scalco com uma pistola, disse ‘uma baita fria, tchê’. Foi a única expressão que ele usou na hora”, conta o jornalista.

O homem de bigode retornou ao apartamento e anotou o nome de Luiz Cláudio e Scalco. O repórter perguntou o que estava se passando ali dentro, mas recebeu a vaga resposta de que se tratava de “um negócio de estrangeiro ilegal no país”. A dupla foi embora com o pedido de que não falasse nada sobre o que tinha visto. “Pô, mas eu vou ter que falar, vou ter que contar”, protestou Luiz Cláudio. “Não, não, não fala nada sobre isso, isso é uma operação”, respondeu o homem de bigode.

Luiz Cláudio saiu do endereço confuso e ainda sob o impacto de que ter visto uma pistola na testa dele. O torpor não o impediu de perguntar a Scalco se o fotógrafo conhecia alguém que estava naquela cena. “Olha, não sei, mas um sujeito me lembrou o Didi Pedalada, que jogou no Inter”, respondeu o fotógrafo. “Mas quem é Didi Pedalada?”, rebateu Luiz Cláudio.

Imagens do julgamento, com Pedro Seelig e Didi Pedalada lado a lado

O ponta-esquerda encontra o homem-forte da repressão

Orandir Portassi Lucas via os dias de glória no passado. E olha que não faltavam motivos de orgulho. Em 1967, Orandir fez uma dupla infernal com o mítico Bráulio, meia criado no Internacional, numa vitória por 2 a 1 do Colorado sobre o Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes. A passagem pelo Inter rendeu a Orandir o apelido que o acompanharia pelo resto da vida, mas não exatamente pelo que ele fez dentro de campo: Didi Pedalada. O epíteto veio por causa do drible imortalizado por Robinho, anos depois.

“Vamos dizer assim, ele pintou bem. Veio arrebentando, era muito novo, também. Então, era um cara que, pô, daí vai sair alguma coisa. Só que, depois, realmente, ele baixou, caiu na média”, relembra Cláudio Dienstmann, jornalista especialista na história do Internacional. Didi chegou até a ser bicampeão gaúcho pelo Colorado, em 1970 e 1971.

A queda de produção de Didi afastou-o dos holofotes com o tempo. A princípio, Orandir gostava de jogar de centroavante. No entanto, a disputa pela posição era ingrata, porque Claudiomiro surgia na época. Ídolo eterno do Internacional, Claudiomiro foi o autor do primeiro gol da história do Beira-Rio, em 1969. A competição levou Didi para a ponta-esquerda e, na sequência, para o banco de reservas.

Entre uma passagem e outra pelo Colorado, Didi atuou pelo Cruzeiro de Porto Alegre. O então iniciante repórter Cláudio Dienstmann era setorista no clube e conviveu de perto com o jogador. “Ele era um cara muito alegre, muito de bem com a vida. Eu não participei dessa fase dele, da vida de policial dele, mas, cara, eu até não consigo imaginar o Didi assim… Ele era um cara feliz. Enfim, essa biografia de policial dele, de participante de sequestro, ela não corresponde ao Didi que a gente conhecia como jogador”, rememora.

O ato final da carreira de Orandir no futebol foi no México, entre 1974 e 1976. Na volta para Porto Alegre, faltavam-lhe dinheiro e futebol. A solução que Didi encontrou foi acionar os contatos que tinha. Quem o ajudou foi Jorge Andrade, lateral que fora companheiro de Didi no Internacional. Andrade conhecia uma figura que poderia arranjar um emprego a Didi e era bastante presente no dia-dia do clube: Pedro Seelig, delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de Porto Alegre.

Um colorado ilustre

Seelig era assíduo no Beira-Rio. Era comum vê-lo nas arquibancadas do estádio colorado em dias de jogo. O delegado tinha passe livre até mesmo no vestiário do time e se vangloriava da amizade com Paulo Roberto Falcão, craque máximo do Internacional. Além disso, Reinaldo Salomão, procurador de Falcão, era cunhado de Seelig e também delegado do DOPS. “Em 1978, ele era tão próximo do Inter que chegou a armar o esquema de segurança dos jogos no interior do Estado”, detalha Luiz Cláudio Cunha.

Mais do que torcedor do Inter, Pedro Seelig era um homem violento. “O Seelig, além de ser o maior nome da repressão no Rio Grande do Sul, correspondia ao que o (Sérgio) Fleury e o (Carlos Alberto Brilhante) Ustra eram em São Paulo. O Seelig era extremamente eficaz. Desbaratou todas as equipes de segurança da luta armada no Rio Grande do Sul apenas com a equipe dele, com muita porrada e muita tortura”, explica Luiz Cláudio.

Apesar de ser uma figura que despertava medo, Seelig era bajulado pela imprensa gaúcha. A participação do delegado na solução de dois sequestros no começo dos anos 1970 fizeram a opinião pública esquecer da ocasião em que Seelig levou o filho adotivo dele, de 17 anos, para o DOPS. O objetivo era dar um “corretivo” no rapaz, que saiu do DOPS direto para o hospital, e do hospital saiu morto por afogamento.

“Era um cara que todo mundo no DOPS sabia quando chegava. Sempre andava muito perfumado, boa pinta, e, aos sábados, ele ia ao DOPS geralmente todo vestido de branco porque ia jogar tênis. Era linha de frente e era torturador”, explica Jair Krischke, fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos e figura ativa na resolução do caso. “O Universindo me contava que, quando o levaram de um lado pro outro no DOPS, havia um espelho na parede. ‘Eu olhei e não me reconheci. Meu rosto estava deformado de tanta porrada que levei.’ Pra tu ver… Esse era o Pedrão Seelig”, completa.

Universindo e Lilian em entrevista à época; na direita, com Jair Krischke após a libertação do casal | Fotos do acervo do MJDH e reproduções

Virando o jogo

Lilian Celiberti temia pela sua vida, pela vida de Universindo e pela vida de seus dois filhos. Depois de sequestrados, eles foram levados para o prédio do DOPS, mas em momentos diferentes. A pancadaria em Universindo começou dentro do apartamento da Rua Botafogo, com os golpes de Didi Pedalada. Quando Universindo chegou no prédio da polícia, pediu para ver Lilian e as crianças. Pedro Seelig atendeu, mas depois passou a torturá-lo com mais crueldade em busca de informações.

Enquanto isso, Lilian tomou uma atitude desesperada: foi ao banheiro, quebrou o espelho e cortou os pulsos. Assim, poderia ir para um hospital e escapar daquele inferno. No entanto, duas funcionárias do DOPS ajudaram a estancar a hemorragia. Lilian voltou a pedir a Seelig para que as crianças ficassem bem. O delegado, então, pegou o endereço e o telefone dos avós de Camilo e Francesca, que moravam em Montevidéu.

Na noite dos dia 12 de novembro, o grupo levou o casal para o Uruguai. Lilian foi num carro com as crianças, enquanto Universindo foi separado. O destino deles era a Fortaleza de Santa Tereza, uma construção do século XVIII bem próxima do Chuí. Lá, Lilian traçou a única estratégia que lhe veio à cabeça: dar um jeito de voltar para o Brasil.

A uruguaia tinha uma reunião marcada em seu apartamento para o dia 17 de novembro com Hugo Cores, o chefe do PVP. A combinação com os companheiros de partido era de que Lilian ligaria todos os dias para um intermediário, de modo a assegurar que tudo estava correndo como planejado. Ela nem precisou revelar tantos detalhes ao capitão uruguaio Eduardo Ferro, que assumira o controle da operação em solo uruguaio. Bastou dizer que tinha um encontro marcado no apartamento da Rua Botafogo. Foi o suficiente para convencer os seus algozes a voltarem para Porto Alegre.

Lilian só pôde ver Universindo de longe. Ele continuou sob o domínio dos militares e não voltou para o Brasil. De Camilo e Francesca, Lilian pôde se despedir antes de ir a Porto Alegre. No dia 13, a noite, a caravana deixa Lilian no DOPS. Ela passou uma noite ali antes de voltar para o apartamento.

O capitão Eduardo Ferro vigiava tudo o que acontecia no endereço da Rua Botafogo. Ele não arredava pé do local, mantendo a vigilância. A rotina seguia monótona, até que um carteiro bateu na porta no dia 16, quinta-feira, pela manhã. Ele vinha entregar um telegrama, que dizia “beca outorgada chame Paris” e continha um número para ligação. Lilian ficara confusa na hora: será que os seus companheiros não tinham se dado conta de que ela tinha sumido? O capitão Ferro entendeu outra coisa — achava que era o contato para Lilian conseguir a vinda do chefe do partido.

Os militares insistiram para que Lilian fizesse a chamada. Deram a ela papel e lápis para que escrevesse o que iria falar no telefone. À noite, Lilian foi levada de volta para o prédio do DOPS. O destino era um escritório com um aparelho de telefone. Pedro Seelig, Eduardo Ferro e mais homens estavam presentes. Não queriam perder aquela ocasião.

A chamada foi rápida. O interlocutor perguntou a Lilian o que tinha acontecido, ela respondeu que estava tudo bem. No fim, um recado: estaria em casa na sexta-feira para encontrar o companheiro de São Paulo às cinco da tarde. Pronto, fim da ligação. Os militares não sabiam, mas a expressão “cinco da tarde” era a senha do PVP para avisar que as coisas não estavam bem.

O recado foi captado e a informação chegou no mesmo dia para Hugo Cores. O chefe do PVP estava escondido em São Paulo com a mulher e a filha pequena. Assim que se deu conta do que estava acontecendo, Hugo saiu rodando em seu carro a esmo pela cidade de São Paulo. Nem mesmo o endereço falso que mantinha para receber correspondências parecia mais um lugar seguro.

Ao ver uma banca de jornal, Hugo decidiu avisar à imprensa. Parou o carro e pediu ao jornaleiro um exemplar da revista Istoé. Telefonou para a redação, mas ninguém atendeu. Então tentou a Veja. Dessa vez, no entanto, a redação de Porto Alegre.

Em seguida, Hugo foi à sede da Cúria Metropolitana da Arquidiocese de São Paulo, onde funcionava o Comitê pelos Direitos Humanos no Cone Sul, o CLAMOR, organização que buscava proteger e assistir refugiados políticos das ditaduras militares que infestavam a região. Do CLAMOR, a informação do sequestro chegou ao advogado Omar Ferri, em Porto Alegre. Além de Luiz Cláudio Cunha e J.B. Scalco, mais uma pessoa tinha ciência do que estava se passando.

Nesse meio tempo, os militares que estavam na Rua Botafogo achavam que tinham capturado Hugo Cores. Quem mais poderia aparecer no apartamento no dia combinado e falando em espanhol? A informação de que Luiz Cláudio e Scalco eram jornalistas deixou todos desconcertados.

Montando o quebra-cabeça

A pista que levava até a identidade de Didi Pedalada ficou adormecida na cabeça de Luiz Cláudio Cunha e J.B. Scalco por um mês. O repórter da Veja se envolveu tanto com a estranheza do caso que simplesmente esqueceu do insight que o fotógrafo tivera ao sair do apartamento. Na segunda-feira posterior à entrada da dupla no apartamento, Luiz Cláudio Cunha começou a consultar os órgãos policiais, e todos negaram qualquer operação de detenção de estrangeiros ilegais.

“E aí o pessoal do Uruguai, os amigos dos exilados, começaram a ligar para a imprensa, e ficou cada vez mais forte a ideia de que era um sequestro. E eu me coloquei na posição de um perfeito idiota, porque aí começou a cair aquele remorso de ‘porra, eu vi um sequestro e não sabia’. Não tinha nem como saber!”, relembra o jornalista. Camilo e Francesca foram entregues aos pais de Lilian no dia 25 de novembro. Enquanto isso, a ditadura uruguaia havia inventado uma versão de que Lilian e Universindo teriam tentado voltar para o país ilegalmente. Isto não havia acontecido, mas o fato era que o casal fora levado pelos militares para Montevidéu após a “visita” de Luiz Cláudio Cunha e Scalco.

O quebra-cabeça começava a ser montado quando Luiz Cláudio foi a Montevidéu para conversar com o menino Camilo, com a permissão dos avós. Ao ver a foto do prédio do DOPS, o filho da uruguaia sequestrada imediatamente reconheceu o lugar. Bingo. Mesmo assim, em dezembro de 1978, a investigação estava parada. Quando Luiz Cláudio estava no Uruguai, um repórter do jornal O Globo mostrou a Scalco, que estava no Brasil, uma foto antiga de Didi. A má qualidade impediu que o fotógrafo que vira aquele homem no apartamento o reconhecesse.

Quem chamou a atenção de volta para essa pista foi outro fotógrafo: Ricardo Chaves, o Kadão, grande amigo de Luiz Cláudio e integrante da equipe da Veja. “Eu estava no táxi e o Kadão, que é o meu irmão de fé, fotógrafo chato para cacete, mas baita profissional, começou ‘mas espera aí, alguma coisa está faltando. Conta a história de novo’. Eu disse ‘porra, Kadão. Te contar de novo? Tu já não sabe tudo?’”, narra Luiz Cláudio. Não, Kadão não sabia de tudo. O fotógrafo não sabia a história de Didi Pedalada e descobriu ali, no táxi, que Luiz Cláudio não vira nenhuma foto do ex-jogador.

No mesmo dia, Kadão partiu com Divino Fonseca, repórter da Placar, para a sede do jornal Zero Hora. Sob o pretexto de estarem fazendo uma reportagem sobre times históricos do Internacional, os dois conseguiram pegar uma pasta repleta de fotos antigas de Didi Pedalada. Quando Luiz Cláudio viu as três fotos copiadas por Kadão, não teve dúvidas.

O repórter da Veja foi ao encontro de J.B. Scalco, que estava fechando uma matéria para a Placar em São Paulo. A dupla tinha um combinado de só avançar na investigação quando os dois tivessem absoluta segurança do que estavam fazendo. “Eu não tinha dúvida nenhuma. Olhei e era o cara do ‘baita fria’. O Scalco me buscou no aeroporto, em Congonhas, e fomos para um boteco. Pedimos uma cerveja, um bolinho de bacalhau e tal. Quando eu mostrei a foto para ele, com aquele memória fotográfica de um fotógrafo da qualidade do Scalco, aí me deu uma puta segurança”, descreve Luiz Cláudio. Uma conversa com José Roberto Guzzo, diretor de redação da Veja, deu o apoio necessário à dupla para publicar a matéria.

“Surge o primeiro nome”

Em 27 de dezembro de 1978, aparece na Veja uma matéria com a manchete “Surge o primeiro nome” e a foto de Didi Pedalada. O resto da imprensa nacional embarcou na história, e o caso virou notícia recorrente no Jornal do Brasil, na Folha de São Paulo e em O Globo. Um ano depois, Luiz Cláudio chegou ao nome do homem que havia apontado a pistola em sua cara: João Augusto da Rosa, codinome Irno, mais um integrante da equipe de Pedro Seelig. Em maio de 1979, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul abriu uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o caso, que logo virou processo na justiça.

Em 3 de maio de 1980, apareceu mais uma testemunha do sequestro, mas que estava do lado oposto da ação. Um soldado uruguaio de nome Walter Hugo Rivas havia desertado do exército de seu país e estava disposto a falar tudo o que sabia e o que tinha visto, desde que pudesse ir para a Europa. Jair Krischke se encarregou da negociação e conseguiu que a Cruz Vermelha internacional levasse o ex-militar para a Noruega.

Walter Hugo Rivas detalhou como a operação foi preparada do lado uruguaio e citou nominalmente Pedro Seelig e Didi Pedalada. O ex-jogador, inclusive, chegou a ser congratulado pelos oficiais uruguaios pelo passado futebolístico.

Oficialmente, nem a Polícia Federal e nem o governo brasileiro classificavam o caso como um sequestro, apesar das denúncias que eram publicadas em vários jornais. A barreira começou a ser quebrada quando o promotor de justiça Dirceu Pinto denunciou Didi Pedalada, João Augusto da Rosa, Pedro Seelig e Janito Keppler — mais um da equipe de Seelig que participou do sequestro. Os quatro foram acusados pela operação envolvendo Lilian e Universindo. “Pela primeira vez, na história do golpe de 1964, uma equipe da repressão brasileira sentou no banco dos réus”, relata Luiz Cláudio.

A sentença final do juiz Moacir Rodrigues saiu no dia 21 de julho de 1980. A princípio, Didi Pedalada e João Augusto da Rosa foram condenados a uma pena de seis meses de detenção pelo crime de abuso de autoridade, com a proibição de trabalhar em Porto Alegre por dois anos. Mais tarde, João Augusto da Rosa conseguiu um recurso para não cumprir a pena. Pedro Seelig e Janito Keppler foram absolvidos por falta de provas — afinal, os torturados pela equipe de Seelig estavam presos em Montevidéu. Didi Pedalada terminou como o único agente do aparelho repressivo brasileiro condenado na justiça.

Lilian e Universindo em imagens recentes; abaixo, homenagem recebida na Assembleia Legislativa do RS em 2008; e a capa do livro de Luiz Cláudio Cunha sobre o caso | Fotos: Agência Brasil, acervo MJDH e reprodução

Destinos cruzados

Pedro Seelig tem 87 anos e vive em Porto Alegre. Está denunciado como violador dos direitos humanos e torturador nos relatórios finais da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Estadual da Verdade do Rio Grande do Sul. Faz parte do conselho deliberativo da Associação dos Delegados de Polícia do Rio Grande do Sul.

Didi Pedalada também atuou com as camisas do Cruzeiro (dessa vez o mais conhecido, de Belo Horizonte) e do Atlético-PR antes de ter o ato final da carreira no México, entre 1974 e 1976. Esteve muito longe de ser um peixe grande no organograma militar brasileiro, mas entrou para uma lista que tem, entre outros, Rafael Videla, ex-ditador argentino, e Manuel Contreras, chefe da DINA, a temida polícia secreta do governo de Augusto Pinochet. O único brasileiro da relação de condenados pelas atrocidades dos regimes militares sul-americanos saiu dos campos para os porões. Nunca mais quis falar sobre o sequestro. Morreu em 2005, aos 60 anos, de problemas no fígado.

Jair Krischke mantém o Movimento de Justiça e Direitos Humanos. Asilou cerca de duas mil pessoas durante os anos de chumbo e segue lutando pela condenação dos militares que cometeram crimes durante as ditaduras do Cone Sul.

Luiz Cláudio Cunha ganhou, ao lado de J.B. Scalco, o Prêmio Esso de 1979. Passou por diversas redações e foi chefe de comunicação do Conselho Nacional de Justiça. Em 2008, publicou o livro “Operação Condor — O sequestro dos uruguaios”. Hoje, mora em Brasília, mas não deixa de torcer pelo Grêmio.

João Baptista Scalco, o grande fotógrafo que reconheceu Didi Pedalada, morreu em 1983, aos 32 anos, por problemas cardíacos. Em maio deste ano, o Puntero Izquierdo publicou um perfil sobre ele.

Universindo Díaz e Lilian Celiberti ficaram presos no Uruguai até 1983. O casal e Camilo e Francesca, filhos de Lilian, foram os únicos sobreviventes da Operação Condor. Todas as outras pessoas que foram alvo da multinacional do terror foram mortas. Universindo cursou história após deixar a prisão e trabalhou na Biblioteca Nacional de Montevidéu. Casou-se de novo e morreu aos 60 anos, em 2012, de câncer.

Lilian Celiberti vive em Montevidéu, onde cuida, desde 1985, do coletivo feminista Cotidiano Mujer. Em 2013, veio ao Brasil para depor na Comissão Nacional da Verdade. “A disputa pela memória é uma disputa política, é uma disputa ideológica. Estados que torturaram, estados que assassinaram não foram obras apenas de indivíduos. Foi uma política. Como os estados democráticos se relacionam com esse passado tem a ver com o presente e com a ideia de democracia. Uma democracia que permite que seus torturadores e assassinos permaneçam nos estamentos do estado tem pouco a dizer em termos democráticos”, disse.