
Dionatan: espelho do futebol real, nômade e sem holofotes
De Caxias do Sul a Alagoas, do Distrito Federal à Bolívia: meia gaúcho de 24 anos já passou por mais de dez clubes em uma curta carreira que já teve quase glórias e toda a sorte de reveses que costuma atingir a maioria dos jogadores brasileiros
POR FELIPE DE SOUZA
Sucre foi uma das primeiras cidades a gritar pela independência da Bolívia. Por lá, Simon Bolívar escreveu a constituição do país e o local deu origem não só a um território — hoje chamado República Plurinacional — mas uma série de revoluções, insurgências e tretas territoriais de toda sorte. Quem desembarca pelo aeroporto Juana Azurduy de Padilla e segue de carro até o centro da cidade é brindado com uma estrada estreita, margeada por onipresentes plantações de trigo, milho e batata que servem de sustento e alimentação aos cerca de 260 mil habitantes do lugar.
Capital constitucional boliviana, Sucre abriga casarões fascinantes e museus indispensáveis, além de ser um dos principais centros universitários do país. Pelas ruelas íngremes, um sem número de consultórios odontológicos emprega jovens vindos de todos os rincões.
Foi nessa cidade, a 2.800 metros de altitude sobre o nível do mar, rica em ladeiras inclementes e dona de um dos mercados municipais mais sortidos da América do Sul, que Dionatan Machado, também conhecido como Tinga, achou sua trincheira para defender o Universitario de Sucre, equipe da primeira divisão da liga nacional. O time manda seus jogos no charmoso Estádio Olímpico Pátria, com capacidade para 30 mil espectadores, apesar da média de público raramente passar dos oito mil. Filho de Restinga Seca, cidade gaúcha cravada nas terras ao sul do Rio Jacuí, o camisa 20 decidiu encarar a dura realidade de um certame pouco glamoroso, mas muito complicado. Tão complicado quanto chegar até a terra de Evo foi o caminho traçado por Dionatan.
Aos 24 anos, sua carreira é o exemplo do que passam os atletas que precisam se aventurar pelo interior: nômade, incerta e à mercê de acordos entre cartolas, empresários e outros seres que não calçam chuteiras.

Começo em outras serras
O vírus da bola foi inoculado em Dionatan lá pelo fim dos anos 90 no Clube Seco, sociedade esportiva de sua cidade natal. Dali, foi à base do Juventude, de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, mas acabou se profissionalizado pelo arquirrival Caxias. “Só peguei um táxi e troquei de estádio. Em 2009, joguei o Campeonato Gaúcho e algumas partidas da Série C”, lembra o jogador, sentado em um banco da Plaza 25 de Mayo, área central de Sucre, num final de tarde de maio deste ano. Na terceirona daquele ano, ele e seus companheiros levaram a equipe grená às quartas de final da competição, quando caíram diante do Guaratinguetá. O bom desempenho na competição resultou no convite para jogar pelo Santos, em uma negociação intermediada pela empresa Traffic.
Naquela época, o alvinegro praiano revelava nomes com Paulo Henrique Ganso e Neymar. Com a concorrência acirrada, Dionatan foi aproveitado na primeira edição do Campeonato Brasileiro Sub 23, em 2010. Junto com a experiência, veio um trauma que acompanha a vida de todo profissional: uma lesão no menisco do joelho esquerdo.
Depois de recuperado, o jovem experimentou a realidade da esmagadora maioria dos jogadores brasileiros: uma longa jornada que contou com passagens por Cianorte (PR), Caldense (MG) e Bragantino (SP). Aliás, o time da família Chedid se revelou uma cilada. “O Bragantino foi uma escolha errada. Cheguei lá com o treinador Mazola e dois dias depois ele caiu. Eu nem tinha assinado contrato ainda e chegou o Vagner Benazzi. Ele fez uma avaliação com todo o grupo e acabou dispensando muita gente. Fiquei lá um mês e pouco e fui pra casa. Foi no segundo semestre, que é o mais difícil para conseguir lugar em equipes menores”, recorda Dionatan.
Após bater cabeça em Bragança Paulista, o jogador tomou uma decisão difícil e voltou pra casa para treinar sozinho com um preparador particular. Com o físico renovado, surgiu o convite para atuar no Legião (DF), equipe originária de um projeto social cujo nome é uma homenagem à Legião Urbana, a banda de Renato Russo. Desta vez, a transação foi auxiliada pelo empresário Marcelo Zott. Vestindo a camisa legionária, Dionatan voou longe, vencendo um torneio no México em que, na final, seu time superou a seleção paraguaia Sub-23. “Joguei bem, com a 10. Isso foi em setembro de 2013 e, depois desse torneio, o grupo acabou se espalhando. Só eu restei e decidi ficar para disputar a primeira divisão do campeonato candango. Contrataram jogadores novos. Começamos perdendo, empatando… No fim, quase caímos. Eu, como meia, fui artilheiro do time com 12 gols em 16 jogos”, lembra.

Vítima de uma fusão
Passada a experiência na Capital Federal, Tinga deu de cara novamente com a realidade do futebol do interior brasileiro. Acertado com o Guaratinguetá para jogar a Série C de 2014, não chegou a entrar em campo. “De uma hora para outra, o presidente inventou de fazer uma fusão com o Audax. Era um sábado e recebemos a notícia pelos sites da Internet. Quando nosso capitão foi ver no BID, tinham inscrito mais de 20 jogadores e também o técnico [Fernando Diniz]. Fomos liberados e só os jogadores do Audax foram aproveitados. Ficamos sem clube.”
Superado o tranco de Guaratinguetá, o destino reservou um capítulo marcante na história do meio campista: engrossar o elenco do Santa Rita (AL) time sensação da Copa do Brasil de 2014. Na realidade, o time formado naquele ano é fruto de outra fusão, desta vez com o Corinthians de Alagoas. Com a camisa 10, ajudou a aguerrida equipe a eliminar Guarani (SP), Potiguar de Mossoró (RN) e, fazendo história, superar o poderoso Santa Cruz (PE). “No jogo de ida, na nossa casa, estádio Rei Pelé, meti um gol aos 15 do primeiro tempo. Eles empataram e viraram com Léo Gamalho. Depois empatamos e viramos de novo: 3 a 2”, recorda.
Dionatan não esquece da pressão no jogo de volta, com a fanática torcida coral balançando o ônibus na chegada ao Estádio do Arruda e o time da casa indo para cima, impulsionado pela força da arquibancada. “Eles vinham pra cima direto. Parecia que o campo estava inclinado. Mas nosso grupo era ousado, jovem. Tinha dois zagueirões experientes e o Reinaldo Alagoano na frente, o resto tinha média de idade de 23 anos. Nessa aí de ir sem responsabilidade, o Rafael Silva fez 1 a 0 pra nós e nos metemos atrás. Eles só empataram no fim do jogo. Aí já era tarde demais.”
Nas oitavas, o brioso Santa Rita pegou o Cruzeiro (MG) e não deu: perderam de 5x1 no Mineirão e ganharam em casa por 2x1. “Caímos mas fizemos história”, lembra o meia.
Quem também recorda com saudade a campanha na Copa do Brasil de 2014 é Anderson Nobre, diretor de futebol do Santa Rita na época e que está no clube até hoje. “O Dionatan teve uma boa passagem por aqui. Ele é um jogador com muita qualidade técnica, ótimo passe e boa dinâmica de jogo”, conta o dirigente.
Atualmente, o Santa Rita vive dias menos gloriosos. Acabou o último Campeonato Alagoano na quinta colocação e, a exemplo de diversos clubes do mesmo porte, não tem o que disputar no segundo semestre. Fora das quatro linhas, Gustavo Feijó, que presidia o clube na campanha de 2014, atualmente é vice-presidente da CBF e foi alvo da “Bola Fora”, operação da Polícia Federal que investiga uso de Caixa 2 em uma de suas campanhas à prefeitura de Boca da Mata (AL).
Na Bolívia, a Libertadores
Depois de ficar marcado na lembrança do torcedor alagoano, o gaúcho rodou por Grêmio Barueri, Pelotas, Central (PE) e novamente Caxias. Foi nessa segunda passagem pelo time grená que apareceu a proposta do Universitario de Sucre, convite intermediado pelo empresário Sérgio Santana. “Decidi vir pois era uma oportunidade única para jogar a Libertadores, além do bom salário e da estrutura”, conta. No país andino, o atleta teria como inspiração brasileiros como Marcelo Gomes, veterano de 35 anos que atua há mais de uma década na Bolívia e já passou por clubes como Aurora e Jorge Wilstermann, ambos de Cochabamba; Bolívar (La Paz) e San José (Oruro). Outro brasileiro de destaque por lá é Fernando Marteli, zagueiro que está desde 2014 no The Strongest, se naturalizou boliviano e chegou a ser convocado para a seleção local nas seis primeiras rodadas das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. Marteli foi titular em jogos contra Uruguai, Equador, Venezuela, Paraguai e Argentina.
Classificado à Pré-Libertadores, o Universitario precisava superar o Montevideo Wanderers na primeira fase do torneio. A estreia de Dionatan na competição virou notícia nos jornais da região central do Rio Grande do Sul. No jogo de ida, em casa, o Universitario saiu perdendo logo aos cinco minutos do primeiro tempo em um contra-ataque mortal e finalização impecável do experiente Blanco. O empate boliviano veio aos 17, em uma falha do goleiro uruguaio. A virada surgiu 11 minutos depois, em cobrança de pênalti de Bravo. Aos 21 minutos do segundo tempo, Dionatan, improvisado na lateral, recebeu a bola pela esquerda de ataque, deu um drible seco no marcador, bateu cruzado, o goleiro deu rebote e Velasco empurrou para as redes, fazendo o gol que seria pá de cal para os bohemios uruguaios. Só que Palácios, num erro de saída de bola da equipe boliviana, descontou e deixou vivo o jogo de volta do mata-mata.
“O que mais pesou foi levar o último gol aqui. O atacante saiu pelas minhas costas, eu tava fazendo a linha e quando olhei o meia deles tava com a bola e meu atacante aberto. Tomamos esse gol e ficou difícil”, recorda o jogador.
Na partida de volta, os cinco mil torcedores do Wanderers que foram ao Estádio Centenário não conseguiam nem fazer ruído minimamente audível na colossal cancha, mas mesmo assim viram o time charrua golear por 5x2 e ficar com a vaga. Dionatan jogou improvisado na lateral esquerda novamente.
“Fazia tempo que não jogava por ali. No começo da partida nosso volante errou a saída de bola. Eu já estava saindo para dar a opção de passe para ele, mas ele foi dar o passe por dentro e deu no pé do adversário. O cara do Wanderers tocou nas minhas costas, tentei voltar, mas a bola passou e o centroavante fez de cabeça, sozinho. Aí arrebentou tudo”, lamenta. Com o sonho da Libertadores abortado prematuramente, restou encarar a dura realidade da liga local.

La Boba, altitude e penúltima colocação
O campeonato boliviano conta com 12 equipes: Universitario de Sucre, Nacional Potosí, Real Potosí, Club Petrolero (Yacuiba), Blooming (Santa Cruz), Sport Boys Warnes (Capiatá), San Jose (Oruro), Bolívar (La Paz), Guabirá (Montero), The Strongest (La Paz), Jorge Wilstermann (Cochabamba) e Oriente Petrolero (Santa Cruz). Os times se enfrentam em turno e returno por sistema de pontos corridos. Neste ano não houve descenso e o rebaixamento vai passar a ser definido a partir da média dos próximos três torneios. O Universitario terminou a competição em nono lugar.
No fim de tarde em que conversamos com o jogador ele voltava de uma sessão fisioterápica no ginásio do clube. “No coletivo de ontem, fui dar uma ‘la boba’ no zagueiro do time reserva e acabei levando uma chegada forte no joelho”. A pancada tirou Dionatan da partida que a equipe capitalina jogaria contra o San Jose no dia seguinte e que acabou empatada em 3 a 3.
A lesão e a indigesta penúltima colocação na tabela não pareciam tirar a serenidade de Dionatan e ele topou dar a entrevista bem ali na Plaza 25 de Mayo. Por lá, trombamos com Alejandro Quintana, atacante argentino que também atua no Universitario.
Apesar do clima de normalidade, a posição no campeonato gerava zumbidos insistentes da imprensa. “A pressão rola em qualquer lugar, ainda mais pelo fato de eu ser brasileiro. A gente joga bem, mas os gols não acontecem. Na partida contra o Oriente Petrolero, em Santa Cruz, tivemos quatro grandes chances e não fizemos. Os caras cavaram um escanteio e fizeram o gol. Contra o Real Potosí, estávamos bem no jogo, metemos bola na trave, fizemos uma pressão danada. Aí, aos 47 do segundo tempo, num arremesso lateral, eles colocaram a bola na área, o goleiro trombou com o atacante e a bola sobrou para um adversário meter pra dentro.”
À medida que o sol caía na capital do departamento de Chuquisaca, o atleta aproveitou também para responder aos que acham que jogar o campeonato boliviano é barbada. “Quem diz isso nunca trabalhou aqui. Hoje você joga aqui em Sucre, a 2.800m de altitude, depois vai pra La Paz, a 3.600 metros. Aí desce, vai pra Santa Cruz, que é calor pra caramba”, explica. Além da altitude, algumas viagens se tornam verdadeiras aventuras. Para jogar contra o San Jose, por exemplo, é preciso encarar oito horas de sinuosas estradas, pois a cidade de Oruro não possui aeroporto.
E não é só a logística que precisa ser vencida. Algumas praxes do futebol local geraram estranhamento no meia gaúcho. “No primeiro treino, fiquei sabendo que aqui o costume é cada um trazer seu meião e seu short térmico e levar pra casa para lavar”, conta Dionatan. Concentração também é raro. “Em partidas em casa, chegamos horas antes, almoçamos e ficamos pelo estádio”.
A despeito dos contratempos, o jogador afirma que o grupo é bom e o clube trata todos muito bem. Mantido pela universidade local e patrocinado por uma fábrica de cimento, atraso de salário nunca é pauta no “equipo docto”, nem mesmo durante um campeonato que toda a torcida quer esquecer.
Apesar de estar bem adaptado ao clube e à cidade, o atleta já tem bagagem suficiente para saber que a bússola do futebol nem sempre tem alinhamento ortodoxo. “Eu penso sim em fazer um bom trabalho aqui, mas tenho contrato com o Caxias e preciso ver com eles como vai ficar minha situação”. O empréstimo de Dionatan com o Universitario de Sucre acaba no fim do ano e, para ficar com o atleta, o clube precisa bancar a multa rescisória imposta em contrato pelo time caxiense e superar as propostas que estão chegando do Oriente Médio. “Eu prefiro focar aqui, mas infelizmente a realidade é que ninguém fica pra sempre em um clube”, encerra.
O noticiário recente sobre o futebol boliviano informa sobre um possível desmanche no elenco do Universitario. Incluindo Dionatan, que aos 24 anos deve ir em busca de seu 14º emprego em um clube de futebol.


