Eles dizem: “Futebol não é para mulheres. Vocês podem se machucar”


Mulheres peruanas contam como enfrentam o machismo e a falta de apoio para se divertir jogando futebol — e transformar o esporte em instrumento para a própria emancipação.

POR KEPH SENETT
Tradução: Fernando Cesarotti

Marcada para o dia 6 de junho, em Edmonton, no Canadá, a Copa do Mundo feminina coloca o futebol das mulheres novamente no foco — mas o noticiário sobre a competição se concentra nos protestos de jogadores contra o uso de gramados artificiais nos estádios. A reivindicação é emblemática da falta de equidade com o futebol masculino e acabou forçando um diálogo sobre discriminação de gênero, mas acabou deixando de lado as discussões sobre as escalações, o perfil das atletas e dados estatísticos que costumam vir antes de um grande evento esportivo.

Há razões para essa disparidade. O futebol feminino recebe menos dinheiro e mínima publicidade. No entanto, para as milhões de mulheres de todas as idades que jogam, a Copa do Mundo é o principal evento.

Como na maioria dos países sul-americanos, o futebol é o esporte mais popular no Peru. Apesar do desempenho medíocre nos últimos anos, a seleção nacional masculina (fora de uma Copa do Mundo desde 1982) ainda conta com relativa fama e suporte financeiro. Já o futebol profissional feminino é ignorado e entregue à própria sorte. A seleção e as jogadoras não são pagas e o time mais se vira do que efetivamente treina com algum profissionalismo. Mas as mulheres ocuparam seu lugar em campo e se mostram exemplo de vida saudável, bem-estar, engajamento político e harmonia. O Peru nunca disputou uma Copa do Mundo feminina e neste ano não será diferente, mas isso não muda a relação das jogadoras peruanas e da torcida com o esporte.

No fim de 2014, viajei ao Peru, entrevistando jogadoras dos Andes, da Amazônia e da capital Lima. Falei com atletas amadoras, semiprofissionais e profissionais sobre suas experiências no jogo e esperanças para o futuro.

Mulher e criança assistem a uma partida de futebol masculino em comunidade peruana. Foto: Keph Senett

Os Andes

Antes de chegar ao Peru eu já tinha a ideia de que o futebol cumpria um papel importante para algumas mulheres na região dos Andes. Em 2009, o Guardian publicou um ensaio fotográfico com um torneio de futebol jogado pelas mamachas, como são conhecidas as típicas moradoras das regiões montanhosas. Algumas das imagens mostravam a interação que existia entre o jogo e o modo de vida das comunidades. Alguns anos depois, a Al Jazeera produziu um episódio de seu programa de documentários “Witness” em que a protagonista era Juana, uma plantadora de milho e batata dos Andes que organizou um campeonato feminino de futebol. Como consequência disso, mulheres até então relegadas a segundo plano ganharam poder político e social e se tornaram líderes comunitárias. Fiquei curiosa em saber mais sobre como o futebol se relaciona com a opressão sofrida por mulheres indígenas e moradoras da zona rural.

Nas profundezas do Vale Sagrado do Peru, Ollantaytambo é uma vila localizada entre Cuzco e a principal atração turística do país, Machu Picchu. Conta com uma série de ruínas do império Inca e é um conhecido ponto de partida para quem deseja encarar a Trilha Inca a pé ou de bicicleta. A vila foi fundada no século XV e muitas de suas tradições culturais permanecem intactas. É claro que as conveniências modernas já chegaram — há uma loja da telefônica ATM na praça central –, mas ainda é comum ver pessoas nas coloridas roupas típicas e mulheres carregando cestos de grama para alimentar os porquinhos-da-índia que servem como alimento.

Ollantaytambo parece ser o local perfeito para fazer perguntas sobre o futebol das mamachas. Pergunto aos guias locais, mas descubro que é tão difícil encontrar informações específicas sobre isso pessoalmente como se estivesse online. E há um outro problema: as mamachas vivem em comunidades indígenas nas regiões montanhosas, e sua língua é mais próxima do tradicional quechua do que do espanhol.

Finalmente dou de cara com a sorte. Ruth Francisca Roque Huamán, funcionária do meu hotel, tem 33 anos, é mãe solteira de um menino e eventual jogadora de futebol. Seu time é formado por outras jovens mães, mas o elenco é bem irregular e depende de quem está disponível na hora do jogo. Isso não parece aborrecê-la, mas Ruth gostaria de mais recursos para seu time. “Aqui em Ollantaytambo não há apoio para as mulheres, somente para os homens”, ela diz. Peço que ela explique melhor e ela diz que as mulheres não têm um campo certo para jogar, muito menos um técnico. “Às vezes nós mulheres jogamos bola, mas não sabemos as regras. Tipo, se você é atacante, ou meio-campista, ou… Entende? Então alguém precisa nos dar umas dicas, umas estratégias.”

Anualmente, diz Ruth, um torneio organizado pelo governo local recebe cerca de 20 times das comunidades próximas. Os vencedores ganham prêmio em dinheiro e às vezes troféus, e o dinheiro é usado para comprar uniformes e chuteiras. Percebo que para Ruth a questão não é dinheiro, e pergunto a ela por que escolheu o futebol como seu esporte.

Ruth joga futebol com outras jovens mães. Foto:Keph Senett
“No futebol, você se sente como se ele te desse. É como se você tirasse força de onde menos espera.”

Alguns dias depois, pego o ônibus até Andahuaylillas, uma vila a cerca de 40 quilômetros de Cuzco. Estamos a cerca de 20 minutos da cidade quando passamos por uma série de barracas na beira da estrada, cada uma oferecendo porções de carne de porco crocante cercadas de anúncios coloridos. “É uma chicharroneria”, me conta Judy Chavez Ipenza, minha tradutora e guia daquele dia. “Aqui é a cidade para comprar o chicharrón. A próxima é a das porquinhos-da-índia.” De fato, passamos por outra vila, dez minutos depois, com barracas idênticas, à exceção de que os sinais agora dizem “Cuyería”. Andahuaylillas é uma comunidade mais conhecida por sua igreja jesuíta construída no século XVI. Há também um estádio de futebol.

Em outro domingo eu poderia ter a oportunidade de ver as mulheres locais jogarem, mas dou azar. Judy e eu chegamos durante um torneio de homens. Meu contato, Oscar Villavivencio, nos cumprimenta no portão e explica a situação, mostrando os rapazes no gramado verde. Mas a viagem não foi perdida, ele diz. Ele conseguiu marcar entrevistas com quatro mulheres locais. “Aqui é onde elas normalmente estariam jogando.” Ele aponta para uma pequena quadra de concreto. Pergunto a Judy para ela descobrir por que elas não jogam na grama. “Ele diz que elas reclamam que o campo é muito grande”, ela responde. “Os homens têm medo de que elas se machuquem.”

Gladys Palomino Rincon é uma tímida mulher de 38 anos, mãe de três. Suas filhas estão com ela, um bebê de dez meses e uma garotinha de sete anos que se interessa pelo meu gravador. “Me llamo Maisa”, diz a menina ao microfone. Ela assobia um pouco porque acabou de perder os dois dentes da frente. Gladys diz que começou a jogar futebol há cerca de cinco anos, em Apulima, sua comunidade natal, e continuou quando se mudou para Qhewar depois de se casar. Ela passa as manhãs com as crianças e a tarde com o marido, e depois se encontra com um grupo de mulheres para preparar bonecas feitas à mão que serão vendidas aos turistas. Aos domingos, joga futebol.

Pergunto a Gladys como ela se sente quando está em campo. Ela sorri e deixa aparecer a coroa de ouro de um de seus dentes. “É muto divertido. Esqueço meus problemas quando estou jogando”, diz. “E seu marido, como se sente?”, pergunto. “Ela me apoia”, responde Gladys.

Gladys Palomino Rincon. Foto: Keph Senett
“É muito comum ver as mulheres jogando futebol aqui, e normalmente os maridos vão lá para torcer.”

Oscar se movimenta. “Nosso prefeito nos conseguiu material para o jogo. Desde então temos os Jogos Esportivos, e a principal atração são as mamachas das comunidades montanhosas. Elas vêm com suas roupas típicas, brilhantes e coloridas, em verde fluorescente e laranja, com suéteres e cachecóis, imagina debaixo do sol. Sabe as sandálias que as mulheres usam? Algumas usam canetas e desenham o simbolo da Nike nelas.” Oscar aponta para uma mulher vendendo salgadinhos e bebidas perto do campo. “Vê aquela moça ali vendendo comida? Ela é das comunidades, veio hoje de moto.” Ele faz gestos na direção dela. “Deixe-me apresentá-lo a esta garota, a mais forte de todas as goleiras”, ele diz. “A muralha!”, Gladys corrige do outro lado do banco em que cuida de seu bebê. “A muralha, goleiro, atacante, defensora…”, cochicha a mulher, modesta.

Hidigia: “Sou a melhor jogadora”. Foto: Keph Senett

Ela veste uma camisa do Bayern de Munique por baixo de seu avental. “Meu nome é Hidigia Chavez Chihuantito, sou da comunidade Ccachabamba. Tenho 49 anos e sou a melhor jogadora de todos os campos.” Pergunto a Hidigia sobre os jogos entre as mamachas. “Todas as comunidades participam. Elas descem de trás desta colina. Algumas delas aparecem com saias coloridas. Às 8 horas em ponto o jogo começa, então todas têm que estar aqui a essa hora. Somos 14 comunidades, e todas elas estão aqui pontualmente para começar a jogar.”

“E como os homens das comunidades reagem?”, pergunto. “Na verdade, aqui em Andahuaylillas, todos somos esportistas. Em todas as comunidades, homens, mulheres e crianças jogam. Até as mulheres mais velhas, de 45, 50 anos, nós também jogamos, sempre participamos. Não sou casada, mas fico com minhas crianças. Quatro meninos e uma menina. O mais novo tem dez anos e o mais velho, 29, e todos nós jogamos juntos.”

Oscar se aproxima com mais duas mulheres, as irmãs Meri Huamán Mamani e Alejandra Huamán. Pergunto a elas por que gostam de futebol. “É bom porque nos identifica com a comunidade”, diz Meri. “É desestressante. Às vezes a gente está em casa e vem até aqui para jogar, rir e tudo o mais, e saímos relaxadas.” Pergunto a ela se os homens da comunidade são abertos ao futebol das mulheres. “Alguns deles são machistas, mas outros nos apoiam. Meu marido está sempre aqui, gritando ‘Corra!’”

“No começo nossos maridos não queriam”, diz Alejandra. Meri concorda. “Meu marido ficava preocupado se eu não ia me machucar, mas eu o despistava, dizia que estava indo a alguma loja”, ela ri sobre sua saída furtiva. “Eu costumava chantageá-lo chorando”, diz Alejandra.

“Ele não queria que eu viesse e eu ficava em casa chorando, dizendo que gostava muito de futebol. Chorei por uns dois anos, acho. Ele saía para jogar, e aos poucos comecei a ficar tão aborrecida que não conseguia mais suportar a situação. Disse a ele: ‘Ok, você vai jogar bola, certo? Mas você sempre volta para casa bêbado. Se ganha, você bebe. Se perde, também bebe’, eu falei. ‘Também vou jogar. Você pode me bater se quiser, mas eu vou jogar. E não vou voltar para casa bêbada.’ No começo, ele se questionava como uma mulher poderia jogar, era muito machista. Então ele nos viu jogar e aos poucos foi mudando de opinião. Agora ele grita para nos apoiar.”

A Amazônia

Embora possa ser alcançada somente pelo rio ou pelo ar, Iquitos é uma cidade movimentada, espécie de entreposto comercial na entrada da bacia do rio Amazonas. Ao contrário das cidades dos Andes — a vida na montanha é muito diferente da rotina na floresta tropical –, a cidade é suja e barulhenta e organizada para o comércio. A cidade cresceu como se fosse uma zona de fronteira, e pude perceber isso e entender a comparação andando ao longo da movimentação na margem do rio.

Ambulantes a pé e de bicicleta brigam por sua atenção, oferecendo passeios, comidas e viagens em seus mototáxis. As ruas são caóticas, com o inescapável sons das buzinas que saem das pequenas charretes de três rodas. Cães de rua fuçam no lixo e gatos se acomodam nos beirais das janelas. A moderna Iquitos nasceu no fim do século 19, quando a cidade se encontrou no meio do boom da borracha. Um fluxo repentino de riqueza levou à construção de riquíssimas e elaboradas mansões, algumas delas em pé até hoje. Mas trouxe também miséria a milhões de indígenas peruanos que foram escravizados e vítimas de uma série de abusos, que permanecem até hoje.

Para muitas garotas e mulheres da região, as oportunidades de crescimento são limitadas, e autonomia está fora de cogitação. Vim a Iquitos para entrevistar jogadoras de um time feminino semiprofissional e investigar os boatos sobre uma liga LGBT na região. Depois de nenhum encontro se concretizar, estendo a mão a uma comunidade de expatriados anunciando meu desejo de encontrar jogadoras de futebol. Consigo uma resposta imediata: vai haver um jogo no dia seguinte e “o único motoxista gringo do Peru” vai me levar lá. As coisas dão errado logo de cara: mal entramos na selva, meu condutor começa a reclamar dos peruanos. Eles são desorganizados e estão sempre atrasados, ele reclama, e ele devia saber, já que é casado com uma.

Quando chegamos ao campo, somos cumprimentados por três garotas adolescentes. Elas dizem que estão esperando pelas companheiras, e assim que andam meu mototaxista as acompanha com o olhar. “Esse jogo deve ser bom”, ele diz, e então começa a chover. “Agora vai ser ainda melhor.” Tento mudar de assunto e pergunto sobre os times a que vamos assistir, mas percebo que essa não é uma partida normal. Tenho a impressão de que é uma exibição montada especialmente para mim.

Enquanto esperamos pelas outras garotas, pergunto ao meu companheiro sobre como é a vida das garotas por ali. Ele me diz que é uma vida ok, desde que elas não engravidem. Peruanos têm muitos filhos, ele diz, e não conseguem sustentá-los. Pergunto que tipo de trabalho está disponível para elas e ele lista alguns: faxineira, garçonete, vendedora no mercado. Se a coisa fica desesperadora, elas podem recorrer ao bordel flutuante, no bairro do Belén. Eles levam garotas desde os 12 anos, ele conta. Ao ver minha reação, ele esclarece: “Mas eu sou casado agora.” Depois do jogo, faço uma rápida entrevista, mas é apenas para cumprir tabela. Meu mototaxista é também o tradutor. Não posso perguntar a nenhuma dessas garotas as verdadeiras perguntas que eu queria fazer.

A capital

Uma peruana que queira uma chance de verdade como jogadora profissional terá de jogar em Lima, onde os torcedores e os campos para mulheres são um pouco menos escassos. Ao lado da minha tradutora Jimena Talavera, encontro com a goleira da seleção nacional, Fiorella Valverde Salazar, para bater papo num Starbucks. Fiorella é uma alta e confiante garota de 25 anos com muita história do esporte.

“Minha família é uma família de jogadores”, ela explica. “Meu pai teve um time, o Sporting Chalá. Cresci perto do futebol e sempre joguei com meus parentes.” Mas embora ela tenha ido mais longe do que qualquer um em seu sonho no esporte, isso não a salvou do julgamento alheio.

Fiorella Valverde fala sobre sua carreira. “Minha família é de jogadores”. Foto: Keph Senett
“Minha família nunca me aborreceu, mas estranhos sim. Quero dizer, gente que não era minha amiga veio me incomodar por jogar bola. Diziam que ‘futebol é um esporte para homens. Você vai se machucar.’”

Não são apenas estranhos que veem contradição entre Fiorella e o seu esporte. Numa entrevista que ela concedeu a um jornal local, o repórter lhe pediu para explicar por que ela tinha as unhas curtas. “Deixei as unhas crescerem uma vez, mas porque era uma semana antes da minha festa de 15 anos. Quando fiz uma defesa e acertei a bola com as unhas… nunca mais!” Ser goleira pode ser bem duro para as mãos, com unhas compridas ou não. Fiorella me mostra uma cicatriz de vai do punho até o polegar: ela quebrou a mão durante um jogo, mas ficou 18 minutos em campo até sair para ser atendida.

Sua carreira no futebol vem sendo brilhante. Convocada para a seleção peruana sub-19 aos 15 anos, ela teve seu primeiro contato com a fama quando, na Copa Libertadores, enfrentou o poderoso Santos, liderado por ninguém menos que Marta. “Foi bem tenso”, lembra Fiorella. “O estádio estava cheio de torcedores do Santos e Marta estava lá, uma das melhores do mundo. A gente só tinha jogado em Lima, entende?” Fiorella defendeu três chutes de Marta com endereço certo. “Cara, se você visse a minha cara durante aquele jogo, era… era muita emoção, de verdade. Digo, eu fiquei feliz. Elas ganharam de 3 a 1 e mesmo assim saíram irritadas, para elas foi pouco, elas esperavam nos destruir. Ficaram bravas, discutindo entre elas sobre como o jogo não tinha sido bom, e lá estávamos nós, felizes e comemorando como se tivéssemos vencido.”

Jornais brasileiros publicaram um artigo sobre o jogo em que Fiorella e suas companheiras de defesa eram chamadas de “A grande muralha de Valverde”. Mas a reportagem não chegou à mídia peruana. De volta a Lima, Fiorella continua trabalhando duro em busca de uma carreira profissional, mas encontra barreiras para seu sucesso, inclusive dentro do mundo do futebol. “A seleção tem um nova técnica e ela quer apenas garotas jovens e magras. Ela diz que as mais velhas são dedicadas ao trabalho e à família, enquanto as mais jovem só têm o futebol.”

Pergunto a ela sobre o que a técnica considera “velha”. “Assim que você chega aos 25, eles querem te despachar. Houve um torneio no Equador e levaram somente garotas de 16 a 22 anos, nem sequer convocaram as mais velhas. Ficamos desapontadas porque nos entregamos muito à seleção e, pelo jeito, não nos querem mais.”

O preconceito de idade é só mais um numa longa lista de discriminações de gênero. Durante o período de treinos, as garotas recebem apenas 20 soles por semana para transporte até o campo, enquanto os homens recebem salário. E dinheiro não é a única diferença entre os sexos. “Depois do treino os homens recebem suco de frutas, pão com presunto e queijo, essas coisas”, me conta Fiorella. “As mulheres só ganham um Gatorade e uma barra de cereal. Algumas das garotas não têm nem dinheiro para sair e comprar alguma coisa.” Pergunto então a Fiorella por que ela insiste, apesar de tudo isso.

“Futebol para mim é uma necessidade. É como respirar, é o que me faz viver e manter a calma, me dá liberdade, vamos dizer.”

As esperanças dela para o futuro da carreira como jogadora são assustadoramente modestas. “Espero que, com o próximo campeonato , se ganharmos, possamos mudar o nome e deixar de ser o Fuerza Cristal para Sporting Cristal, que é o time de verdade”, ela diz.

Alguns dias depois pego um táxi até o distrito de San Luis para ver o Fuerza Cristal jogar. É um time forte, rápido e brilhante, que vence seu rival com facilidade e dá show para uma multidão de… 30 pessoas. Depois, chamo duas jogadoras e conversamos em cadeiras no fundo do campo. Adriana Lucar é uma atacante de 23 anos que acabou de jogar; sua companheira Kiara Ortega, 22, viu o jogo do banco porque estava suspensa. “Levei um cartão amarelo”, ela diz. Pergunto por quê. “Acho que acertei alguém”, ela brinca, e as duas riem. Fiorella, descubro, não pôde ir ao jogo porque estava trabalhando. Não leva muito tempo para sua frustração com a técnica da seleção ganhar uma explicação concreta.

“Você não pode pedir a uma mulher de 25, 26, 27 anos que venha treinar às três da tarde. Você trabalha a uma hora dessas.”

Adriana tenta fazer cara de quem não se importa, mas seu rosto conta outra história. “Podemos treinar, se quiserem, às 6 da manhã. Ou às 8 da noite, mas a técnica não quer isso.” Não é só a agenda de treinos que fica no caminho dessas duas jogadoras. Torneios geralmente envolvem viagens, mas as jogadoras não recebem salaries ou prêmios. “Você não pode misturar as coisas, jogar e trabalhar, porque você não tem como dizer ao chefe: ‘Ei, preciso de dez dias de folga porque meu time precisa de mim”, Kiara explica.

Crianças jogam futebol em Cuzco. Foto: Keph Senett

A decisão de focar em jovens jogadoras em vez de desenvolver um time em longo prazo significa que sempre há gente nova a fim de entrar em campo e jogar de graça. “As novatas não entendem e perguntam ‘Por que você não vem com a gente para o Equador para jogar?’. Bem, eu tenho um emprego agora”, prossegue Adriana. “Elas não entendem porque o futebol é a vida delas agora, mas em dois ou três anos elas vão perceber que não têm nada. O futebol não nos dá nada.”

Pergunto se elas esperam se preparar para a Copa do Mundo. “É o nosso sonho. Mas você sabe, temos 22, 23 anos, e vamos ter que esperar quatro anos pelas próximas eliminatórias”, Kiara responde. “Mas o que vai acontecer se eles não se importarem conosco nesses quatro anos?”

Adriana tem uma resposta bem mais pragmática. “Espero que no ano que vem eu receba… alguma coisa. Se não, não vou estar bem. Tenho um emprego agora. Não é fácil chegar ao trabalho e pensar que tenho que correr, não posso dormir. Isso leva tempo. É uma coisa extra que você está fazendo, e é justo que seja pago por isso. Se não me pagarem o que eu quero — e nem é muito — não vou jogar. E nem é que eu vou chorar, eu realmente já não me importo mais.”

Enquanto conversamos, um funcionário do clube anda pelo campo distribuindo uma revista colorida. Adriana pega um exemplar. “Este é o clube de verdade”, ela diz. “Nós usamos o uniforme, mas não é oficial.” A revista de 12 páginas tem estatísticas, fotos e reportagens sobre os jogadores do Sporting Cristal, e até mesmo um pôster na página central. Na última página, junto com os anúncios, há uma foto posada do Fuerza Cristal. “Yeah”, diz Kiara, “não somos oficialmente do clube.” O Fuerza Cristal terminou o campeonato de 2014 como campeão, mas ainda não está autorizado a usar o nome oficial de Sporting Cristal.

Também de Lima, o JC Sport Girls disputa o mesmo campeonato, mas causa uma impressão inicial diferente. Quando Jimena e eu chegamos ao campo de treinos, as jogadoras estão sentadas em um círculo lendo a Bíblia, o que me faz pensar se o JC se refere a Jesus Cristo. Estou meio certa.

“No começo, tinha a ver como o homem que bancava o time, Jesús Canessa”, conta María Inés Ticona Acuña. Conhecida pelas amigas como Inés, ela é uma das fundadoras do clube e, aos 31 anos, está quase aposentada. Ela deixou sua posição como zagueira para colaborar não só como técnica, mas como uma espécie de mentora, embora se intitule como “professora”.

Inés se tornou jogadora relativamente tarde, depois de aprender aos 17 anos que havia uma primeira divisão de futebol feminino no país. Talentosa e determinada, foi convocada para a primeira seleção peruana sub-19, onde teve a chance de atuar no exterior. Embora amasse o jogo, ela percebeu uma certa falta de disciplina entre as atletas, um problema que ela enxerga como agravante para a má reputação do esporte no país — algo que ela acha que poderia resolver. “Ser professora e técnica é uma responsabilidade a mais. Não basta fazer com que elas joguem bem, mas que elas conduzam bem a própria vida. Elas são profissionais. Não podem ter aspirações somente de jogar futebol, mas de ter uma carreira e prosseguir em seus estudos, talvez tudo isso ao mesmo tempo. Se elas realmente amam o futebol, precisam se disciplinar e focar.”

Uma das garotas beneficiada pelos “ensinamentos” de Inés é Amparo Chuquival Lizana, uma meio-campista de 22 anos que defende o JC Sport Girls e eventualmente a seleção peruana. Ela conhece bem os riscos e leva seus esforços a sério. “Acho que, para qualquer menina que começa a jogar bola na rua — e isso acontece com a maioria de nós — sonha em ouvir ‘Ei, você foi chamada para defender o seu país’… Isso é, uau, de todas as garotas você foi escolhida para representar o seu país, ir lá e mostrar que o Peru também tem mulheres que jogam como a gente.” Mas ela admite que paga o preço do sucesso. “Quer dizer, quem não sofre discriminação?”, ela questiona.

Amparo e María Inés: “Eles dizem que futebol não é para mulheres”. Foto: Keph Senett
“Ser uma mulher que joga futebol… ‘Ei, você é machona’, as pessoas que não conhecem muitas vezes te insultam.”

Inés concorda. “Eles dizem que o futebol não é para mulheres.” Amparo acrescenta: “Acho que se você perguntar a cada uma de nós, todas passamos por isso, mas, graças a Deus, aos poucos as coisas estão melhorando.” “Além disso, estamos mostrando que podemos jogar bem, até melhor do que os caras. Definitivamente melhor do que eles”, completa Inés.

Há uma famosa frase do ex-jogador e técnico escocês Bill Shankly que diz: “O futebol não é apenas uma questão de vida ou morte, ele é mais importante que isso”. Pergunto a Inés e Amparo o que elas pensam sobre essa declaração. “Mais importante que a vida? Não. Deixe-me te contar uma coisa”, diz Inés. “Antes de me encontrar com Deus, o futebol era meu refúgio. Naquela época não me dava bem com minha família, então só tinha o futebol. Quando eu conheci Deus, as prioridades mudaram. Agora é Deus, família e futebol, nessa ordem”.

“Podemos ser jogadoras fantásticas, mas, se não formos boas pessoas reais e não amarmos Deus e todos os outros, bem, não somos nada”, diz Amparo. “Eu acho que essa sensação é a coisa mais incrível que você pode ter quando está num clube de futebol.”

A autora

Keph Senett é uma escritora e ativista canadense cujas paixões por viagens e futebol já a levaram a jogar o “jogo bonito” em quatro continentes. Desde fevereiro de 2014, já esteve em Manchester, onde participou de um jogo organizado pela ONG Pride House em apoio ao movimento LGBT na Rússia; em Moscou, para disputar o Russian Open Games, competição esportiva da comunidade LGBT; no México e no Peru, onde entrevistou mulheres jogadoras. Ela passa seu tempo livre pensando em como ser selecionada para um time de mulheres na Ásia, Austrália ou Antártida. A reportagem foi publicada originalmente, em inglês, no site do Contributoria.

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