O estádio Olímpico, casa do Rampla Juniors. (Imagem: Eduardo Souza Cunha)

En el barrio de la Villa del Cerro…

A nostálgica história de pertencimento que sobrevive no segundo clássico mais antigo do futebol uruguaio

Puntero Izquierdo
Aug 15, 2019 · 13 min read

por Eduardo Souza Cunha

Para compreender o significado do clássico que envolve Rampla Juniors e Cerro é preciso olhar para o espaço que os times ocupam. Ou dividem. “Não se entende a rivalidade entre Rampla e Cerro se não entendermos a formação história da Villa del Cerro”, alerta o historiador Francis Santana, pesquisador da UdelaR (Universidad de la Republica).

O bairro se encontra a Oeste do centro da capital uruguaia, no outro lado da Baía de Montevidéu. No início do século XX, ali se formaram unidades de produção da indústria da carne, a principal atividade econômica do Uruguai. Com o passar dos anos, grandes frigoríficos se instalaram na região. “Toda a economia do bairro girou em torno desses frigoríficos. Alguns irão empregar de 10.000 a 12.000 pessoas. Assim, o Cerro se tornou um bairro operário com esse caráter específico”, explica Rodolfo Proibi, professor de História, também da UdelaR.

Essa economia pujante atraiu uma grande população de imigrantes, sobretudo espanhóis, gregos, armênios, turcos e lituanos. Além do trabalho nos frigoríficos, eles também se dedicavam ao comércio. Com a abundância na oferta de empregos e uma rede de serviços bem completa, por muito tempo a Villa del Cerro teve um cotidiano independente do resto de Montevidéu. Isso rendeu uma identidade própria ao bairro, um forte sentimento de pertencimento que persiste até hoje entre os seus habitantes.

Picapiedras e Villeros

Cerro e Rampla são os representantes do bairro no universo do futebol.

Fundado em 1914 na região da Ciudad Vieja, próximo ao porto de Montevidéu, o Rampla Juniors peregrinou até cruzar a Baía de Montevidéu em barco, única forma possível à época, e fixar-se na Villa em 1919, já com sua típica vestimenta listrada em verde e vermelho. Em 30 de dezembro de 1923 inaugurou o próprio campo, batizado inicialmente de Parque Nelson e depois de Estádio Olímpico. Para construir o estádio localizado às margens do Rio da Prata, o clube teve que lapidar o terreno pedregoso. Fruto desse esforço nasceu o apelido que é a marca do clube: Picapiedras.

Quase um ano depois da inauguração da cancha do Rampla, o rival teve sua gênesis. Parte dos habitantes — com um forte sentimento bairrista — não aceitava torcer para um clube que teve sua origem no outro lado da Baía. Aliás, esse ainda é um dos principais argumentos dos Villeros, como são conhecidos os torcedores do Cerro, na hora de reivindicar uma ligação mais profunda com o bairro. Eles alegam que o próprio escudo do Rampla, com a fortaleza no alto da montanha que empresta o nome ao lugar, é uma representação da visão que se tem alguém que observa a Villa del Cerro desde Montevidéu, do outro lado da Baía, e não representa a vista de quem vive no bairro.

Decidiram, então, retomar os esforços que começaram em 1900 para a criação de um clube local. Assim surgiu o Club Atlético Cerro, e na assembleia inaugural optaram pelo uniforme baseado em listras verticais alvi-celestes.

O sucesso esportivo dos dois clubes está diretamente vinculado ao ciclo econômico da indústria da carne. O Rampla Juniors se tornou campeão uruguaio em 1927, quando o futebol no país ainda estava em seu período amador. Ao lado do Nacional, os Picapiedras se orgulham de ser o clube que forneceu jogadores para os títulos mundiais da seleção celeste: os torneios olímpicos (1924 e 1928) e as duas Copas do Mundo (1930 e 1950).

Os times da época dourada: Cerro vice em 1960 e o Rampla campeão uruguaio em 1927.

Já as grandes campanhas do Cerro ficaram concentradas na década de 1960, quando foi, por quatro vezes, terceiro colocado no torneio nacional (1965, 1966, 1967 e 1968). Mas a principal campanha se deu em 1960, quando o Cerro liderou o campeonato uruguaio e por cinco minutos não bateu campeão. No final da última rodada, o Peñarol perdia por 0 a 2 contra o Racing, mas conseguiu a virada para 3 a 2, igualou a pontuação do Cerro e forçou uma partida desempate. No estádio Centenario lotado, a primeira equipe campeã da Libertadores venceu o quadro cerrense por 3 a 1.

A partir da década de 1970, o bairro passou por transformações. A indústria da carne no país se reestruturou, abandonou o modelo de grandes plantas e priorizou as unidades menores, localizadas no interior do país e não mais próximas ao porto. Os grandes frigoríficos internacionais, como o Swift, fecharam as portas. Isso afetou profundamente a economia local. Desde então, o bairro segue habitado majoritariamente por uma classe trabalhadora, mas que se viu obrigada a buscar empregos no centro da capital. De um universo praticamente autônomo, Cerro se transformou em um “bairro dormitório”, dinâmica que persiste até hoje.

O bairro operário dividido em dois

As sedes dos dois clubes estão na mesma rua na calle Grecia, separados apenas por um quarteirão. Andando por ali, nota-se a polarização entre os dois rivais nas fachadas dos imóveis, pintados em azul celeste ou em rubro-verde.

Na calle Grecia também fica a sede da Federación Autónoma de Obreros de la Industria de la Carne y Afines, a seção local do Sindicato de Vendedores de Diarios y Revistas e o Ateneo del Cerro, centro social mantido pela Federación Anarquista Uruguaya.

O vínculo de Cerro e Rampla com a imigração consta na história dos próprios torcedores. Joaquín Doldán, escritor e radialista que comanda o programa Tierra de Nadie na Radio Nacional, revela que seu amor pelo Cerro foi herdado do pai, imigrante galego. “Quando meu pai chegou à Villa e viu um time jogando de azul e branco, as mesmas cores da Galícia, se identificou na hora.”

Joaquín depois se mudou para a Espanha, onde viveu por vinte anos, e retornou para Montevidéu neste ano. “Apesar da distância, sempre carreguei a paixão pelo quadro cerrense e pelo bairro. Nos meus escritos, sempre busco ambientar as narrativas da Villa.”

A tradição familiar também está presente na relação do ator e humorista Marcel Keoroglian com o Rampla Juniors. Seu personagem, Montelongo, aparece na TV todos os dias comentando as notícias em um tom de piada.

Descendente de imigrantes armênios, Marcel contou que os familiares abraçaram os Picapiedras assim que desembarcaram em Montevidéu. Donos de estabelecimentos comerciais, o pai e o tio se dedicavam inteiramente ao clube, e não foram poucas as vezes que tiraram dinheiro do próprio bolso para apoiar a agremiação. Sobre essa dedicação, Marcel revela uma anedota: “Um dia estava voltando para casa de madrugada, por volta das quatro ou cinco horas da manhã. Quando cheguei, vi a luz acesa no escritório do meu pai e a fumaça do cigarro saindo pelas frestas da janela. Fui até lá para ver o que acontecia com ele. A resposta foi lacônica: ‘Rampla, meu filho, isso é Rampla.’ Ele era apenas um sócio, mas mesmo assim as dificuldades financeiras do time faziam ele varar a noite.”

Se os sucessos de Cerro e Rampla ficaram amarrados durante o auge da indústria da carne na Villa del Cerro, a derrocada econômica do bairro também acompanhou a crise vivida pelos dois clubes. “Como os centros fabris estavam ao redor do bairro, dentro dele havia um grande número de comércios pujantes. Os donos desses comércios torciam para um ou para outro e colaboravam financeiramente. Quando a Villa se tornou um bairro dormitório, muitos desses comércios fecharam as portas e, assim, Cerro e Rampla perderam o apoio financeiro”, explica Francis Santana.

Desde então, ambos passaram a ocupar uma posição coadjuvante no futebol local, incapazes de fazer frente aos dois gigantes (Peñarol e Nacional). A exceção feita foram as boas campanhas recentes do Cerro, classificado para disputar os torneios continentais. Mesmo assim, jamais conseguiu chegar perto de repetir a façanha de 1960. O cenário do Rampla é pior, sempre preocupado com a parte de baixo da tabela. No campeonato deste ano está fazendo as contas para fugir do rebaixamento.

Porém, o momento das duas agremiações não se explica apenas pela conjuntura do bairro, mas também pelo futebol uruguaio. “O Uruguai é o país onde há o maior contraste entre o futebol local e seleção”, afirma o jornalista esportivo Sebastián Chittadini, autor dos livros Segunda vuelta obdulista e Que vuelva la celeste de antes, originados a partir do seu projeto de resgaste, com pitadas de humor, da história do futebol uruguaio.

“Enquanto a seleção é formada por jogadores que estão na elite do futebol mundial, temos um campeonato nacional praticamente só na capital com equipes que não conseguem se sustentar. Há uma excessiva centralização em torno de Peñarol e Nacional. As duas equipes concentram praticamente 80% da torcida do país. Tem jogos em que o mandante não consegue nem vender 200 ingressos. Então é inviável para os clubes, que vivem endividados”, complementa.

Marcel, orgulhoso de sua luminária do Rampla. (Imagem: Eduardo Souza Cunha)

A precária vida financeira é confirmada pelos torcedores. “Se você buscar algum item do Rampla para comprar, vai descobrir a dificuldade para encontrar. Não é só por ter poucos torcedores, pois até nós temos dificuldade para achar. Muitas vezes o clube não tem dinheiro nem sequer para mandar confeccionar cachecóis e outras peças. Essa luminária que eu tenho do Rampla, por exemplo, fui eu que mandei fazer”, revela Marcel.

"Eles não comem uma salada que tenha alface e tomate juntos!"

Como não podem mais sonhar com os títulos nacionais, o clássico entre Cerro e Rampla ganhou contornos de um campeonato próprio. Perguntado se prefere ganhar do Cerro e ser rebaixado, ou seguir na primeira divisão e perder do rival, Marcel não titubeia: “Ganhar do Cerro, é claro. Quando ganhamos deles, o sorriso permanece no rosto durante toda a semana. Se perdemos, não há nada para nos alegrarmos nos dias seguintes”.

Joaquín reconhece a importância que permeia o jogo: “Sinceramente, eu vibro mais quando Cerro ganha do Peñarol do que do Rampla, mas a maior parte da torcida, principalmente quem vive no bairro da Villa, discorda de mim. Inclusive tenho amigos que não suportam ver as cores verde e vermelho juntas. Para você ter uma ideia, eles sequer comem uma salada que tenha alface e tomate juntos!”

Devido à complicada situação do Uruguai, não é estranho que os torcedores revisitem o passado. Pelo lado do estádio Luis Tróccoli, casa do Cerro, o vice-campeonato de 1960 é visto com orgulho. Nas redondezas do estádio Olímpico, casamata do Rampla, é possível ler a frase “el tercer más grande”, uma referência a era de ouro da primeira metade do século XX.

Isso não é uma exclusividade dessas duas torcidas, mas um reflexo da cultura futebolista uruguaia. “Os países que têm o futebol como um elemento importante para sua formação cultural sentem o esporte à sua maneira. Entre as características que marcam a maneira de vivenciar o futebol no Uruguai, está o apego ao passado, o olhar para trás. O uruguaio, não só no futebol, é muito nostálgico”, analisa Sebastián Chittadini.

A paixão guardada nas lembranças e a carga afetiva que carregam são capazes de gerar uma força descomunal. É o caso de Kegan Keoroglian, tio de Marcel. Kegan tem 93 anos e está com a mobilidade debilitada (anda em cadeira de rodas) e sofre com problemas de memória. Já não se recorda muito do que viveu e, algumas vezes, troca o nome do filho. Porém, ele segue com as lembranças intactas sobre o Rampla. “Se você pergunta a ele as cores do Peñarol ou do Nacional, ele não consegue se lembrar. Mas se você pergunta as cores do Rampla, ele responde de primeira: rojiverde”. Kegan veste as cores que não esquece e vai ao estádio do time do coração com frequência exemplar, geralmente acompanhado pelo filho Eduardo, e também por Marcel.

Kegan acompanhando o Rampla no estádio Olímpico.

Mais do que o apego ao passado, Cerro e Rampla representam uma identidade importante na vida de seus torcedores. Não à toa que esse é um dos fios que unem Kegan ao presente. As duas agremiações, ao reforçarem os laços com seu entorno, representam um dos elementos mais fortes sobre o que é ser um morador do bairro. Frente a um mundo globalizado, no qual o torcedor é tão alijado do dia a dia dos clubes e dos estádios devido aos preços abusivos nos ingressos, o que torna o fato de torcer para o time da sua cidade ou da Europa quase a mesma coisa — já que só consegue acompanhar o futebol pela televisão — as equipes da Villa seguem na contramão do futebol moderno.

Em um tempo onde há um abismo cada vez maior entre torcida e clube, Cerro e Rampla mostram que o futebol é muito mais do que um espetáculo milionário.

El Clásico

Depois de conhecer as equipes e fazer o reconhecimento do bairro, o Puntero foi para a 135º edição do Clásico de la Villa.

Na véspera do jogo era possível sentir o clima incomum. As rodas de conversas nas ruas falavam sobre a partida, além das provocações entre os torcedores albicelestes e rojiverdes. As duas sedes dos clubes estavam fechadas, com foco total na partida. Nas ruas próximas ao estádio, a revista da polícia foi rigorosa mesmo com um público pequeno. O histórico de brigas entre as duas torcidas é grande e os clássicos no Uruguai são sempre com as duas parcialidades.

A linda e particular vista no estádio do Rampla Juniors. (Imagem: Eduardo Souza Cunha)

Quando se entra no Olímpico, o que salta aos olhos é a belíssima vista do horizonte, que contemplar toda a Baía de Montevidéu, principalmente o porto da capital. É preciso agradecer aos Picapiedras originais a brilhante ideia de construir um estádio com a arquibancada apenas em três setores, deixando livre o lado que dá para a margem do Rio da Prata.

O clima de tensão impedia que os torcedores enxergassem algo além das quatro linhas. Marcel deixava evidente o nervosismo, interrompido apenas para atender de forma sempre simpática os pedidos para uma foto com o “Montelongo”, seu personagem na televisão.

Do lado do Rampla, os semblantes eram de preocupação. A decepção ficou por conta da ausência do recém-contratado Carlos Núñez, jogador com passagem pelo Racing argentino. Ele não pôde jogar pois a liberação não chegou a tempo. Do outro lado, a expectativa era inversamente proporcional. A mais nova contratação do Cerro era um velho conhecido e estava pronta para reestrear. Mareen Franco jogou pelo Rampla e foi o herói da vitória no clássico disputado em maio de 2017, quando fez o gol do 2 a 1 que deu a vitória aos Picapiedras.

Mas passou de herói a algoz quando virou a casaca e passou a vestir a camiseta do Cerro com igual sucesso. Decidiu os dois clássicos seguintes: em dezembro do mesmo ano e em maio de 2018, autor dos três gols do Cerro nas duas vitórias (por 1 a 0 e por 2 a 0, respectivamente).

Quando a bola rolou, a expectativa por um jogo pobre tecnicamente se cumpriu. O predomínio da bola aérea, as muitas faltas e as constantes discussões deram a tônica do Clásico de la Villa. A chance de gol mais clara no primeiro do tempo foi uma cabeçada do zagueiro do Cerro contra o próprio gol. O time visitante apostou suas fichas na mística do algoz e na técnica de Franco, o camisa 10 de longa trajetória no futebol uruguaio.

E foi num cruzamento não interceptado que a bola entrou. Maureen Franco comemorou como se tivesse tocado na bola, passou em frente à torcida do Rampla beijando o escudo do rival. E Franco se mostrou mesmo decidido a tomar o protagonismo: fez cera sempre que pôde, estatelado no chão com diversas simulações de contusão. Atrasou o jogo, irritou jogadores e torcedores rivais. O jogo psicológico depende sempre do lado em que você está.

Em uma dessas, os jogadores do Rampla tentaram levantá-lo a força para fora do campo. A confusão generalizada terminou com duas expulsões para cada lado. Se o nível técnico já era baixo, com oito jogadores em cada time a partida se tornou algo que exigia apenas qualidades físicas. E assim o Cerro se tornou vitorioso no 135º Clásico de la Villa: agora a equipe albiceleste tem uma vantagem de cinco vitórias sobre seu mais íntimo rival. São 48 triunfos contra 43 derrotas, além de 44 empates. Um clássico equilibrado.

Torcida do Rampla acompanha o clássico. (Imagem: Eduardo Souza Cunha)

Com o resultado final da partida, Marcel disse à reportagem: “Sabe o que é o pior? Hoje eu tenho que trabalhar o dia todo para preparar as piadas que vão ao ar na televisão e na rádio amanhã. Você acha que tenho alguma vontade para escrever piadas agora?”

Mas independentemente do sentimento que cada torcedor leva para casa após o clássico, o que permanece é justamente essa paixão que não aceita ficar restrita a um papel passivo. O que deu para ver naquele domingo no estádio Olímpico da Villa del Cerro foi o futebol que não relega seus torcedores ao papel de simples espectadores.

Ser Rampla ou ser Cerro é ir além

A saída dos jogadores do estádio tem como itinerário obrigatório a passagem pela parte mais alta da arquibancada, de onde os torcedores acompanharam a derrota. E não foram poucos os que se aproximaram para ofertar algumas palavras de consolo aos atletas.

Se o ato de torcer significa possuir identificação com a equipe, isso passa também, necessariamente, pela empatia em enxergar seu lugar no clube escolhido. O torcedor precisa sentir que faz parte da vida, do dia a dia, que possui voz ativa. E essa é justamente a maior vitória dos torcedores de Rampla e Cerro: a certeza de que guardam lugar no clube que amam.

Apesar dos anos de sofrimento acumulado, com as decepções quase certas nos placares, os clubes da Villa del Cerro permanecem e permanecerão vivos nos torcedores que seguirão presentes. Porque naquelas arquibancadas, qualquer ausência é sentida.


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