O União São Bento resistiu à lama. Ilustração de Henrique Pulz sobre fotos de Pedro Castro

Estranha mania de ter fé na vida

Jogadores do União São Bento, time de Bento Rodrigues, distrito devastado pela lama da Samarco em Mariana (MG), perderam lar, empregos e até família, mas seguem fazendo do futebol um momento de congregação e alívio

POR DANIEL CAMARGOS
Fotos: Pedro Castro

Olateral-direito Marcelo José Felício, 31 anos, abaixa a cabeça, joga a bola para frente e dispara em direção à área adversária. Quando o zagueiro se aproxima ele toca para o centroavante Gilberto, posicionado na meia-lua. Recebe de volta e fica cara a cara com goleiro, mas a perna pesa. Marcelo chuta para fora e perde a chance de fazer o quarto gol do União São Bento ante o Juventude.

A partida amistosa está 3 a 1 e aos 13 minutos do segundo tempo os jogadores não disfarçam o cansaço. A fadiga é tanta no campo do Marianense, no bairro Santana, em Mariana, na região central de Minas Gerais, que os dois tempos são de apenas 30 minutos.

Exausto após o fim do jogo, Marcelo senta à beira do gramado, tira a camisa verde escura do União São Bento e revela a tatuagem na nuca: “Mãe Saudades Eterna”. A frase é cercada pelos desenhos de uma coroa e uma estrela, mais as datas de nascimento e morte de Maria das Graças da Silva, a Gracita, 64 anos, soterrada pela lama de rejeitos de minério de ferro da mineradora Samarco, no dia 5 de novembro do ano passado.

Nas partidas do União São Bento, Marcelo e seus companheiros de time, de infância e de vida buscam forças para seguir adiante. É domingo, 5 de junho de 2016, sete meses após o rompimento da barragem.

“Sinto falta dela todo dia. Lembro mais quando eu como as comidas que ela gostava. Salada de alface e tomate, frango frito, macarronada”, lista Marcelo, auxiliar de topografia em uma firma que presta serviços para a Samarco. Macarronada era o prato típico de domingo, que a mãe preparava e ele comia, faminto, após os jogos do São Bento, onde atua desde os 14 anos.

A mãe de Marcelo foi uma das 19 vítimas do maior desastre sócio-ambiental da história do Brasil. Uma série de falhas da Samarco, controlada pelas gigantes Vale e BHP Billiton, somada à fiscalização frouxa dos órgãos governamentais — conforme apontam os inquéritos da Polícia Federal e dos ministérios públicos federal e estadual — provocou o rompimento da barragem de Fundão. A lama encerrou a vida de duas crianças, quinze adultos, duas senhoras e um senhor, aniquilou o ecossistema do rio Doce e levou estragos até o oceano Atlântico, interrompendo o abastecimento de água de dezenas de cidades e provocando o caos na vida de pescadores, agricultores e índios Krenak, todos dependentes do rio.

São 12h27. O sol é abrasador em Mariana. Nas cidades mineiras cercadas de montanhas os dias de outono são quentes e secos. As noites e manhãs são frias. O campo do União São Bento não existe mais. Ficava na parte baixa do subdistrito de Bento Rodrigues, próximo ao curso d’água do Gualaxo do Norte. A lama de rejeitos de minério de ferro chegou a uma altura de até 15 metros, arrastou casas, soterrou a escola, a igreja, o posto de saúde e a história dos 600 habitantes do simpático lugarejo.

O campo do União São Bento Futebol Clube acabou, assim como o Bar da Sandra, onde os atletas bebiam cerveja e jogavam truco após as partidas, mas a alma do São Bento é imortal. As partidas da equipe são disputadas em local alugado pela Samarco e hoje ocorrem no campo do Marianense Futebol Clube, time tradicional de Mariana, fundado em 1912.

Um campo simples, sem arquibancadas, vestiários e nenhum tipo de conforto, mas propício ao amistoso entre São Bento e Juventude. O gramado exibe diferentes espécies de grama, que chegam a formar touceiras. Nada que atrapalhe as tabelas entre o centroavante Gilberto e o esperto Jardel, o craque do time.

Aos 19 anos, brincos de esfera brilhante nas duas orelhas, boné azul disposto de forma preguiçosa na cabeça e chuteiras amarelas na mão, Jardel de Souza chega para a partida. Desde que a barragem rompeu ele não trabalhou mais. Antes, atuava como ajudante de pedreiro. “Está ruim demais para conseguir emprego”, lamenta.

A primeira chance surge aos 18 minutos, quando Jardel recebe um passe de Gilberto — um pivô clássico –, mas tenta driblar o goleiro e se enrosca com a bola. O repertório do camisa 21 é vasto. Passa o pé por cima da pelota, toca de letra, puxa para dentro e arrisca com as duas pernas. “Ele é bom de bola. Só que é mascarado demais”, afirma um dos dois técnicos do São Bento, Onézio Souza, 52 anos, que é pai de Jardel.

Onézio lembra com saudade do campo do São Bento bem próximo — cerca de 200 metros — da casa onde vivia. Recorda do gramado certinho, do alambrado e conta com orgulho que os adversários preferiam ir jogar em Bento (como todos se referem a Bento Rodrigues), por causa da qualidade da cancha. Além, é claro, de ser de graça. Ninguém precisava pagar aluguel para jogar. Era só levar a bola, reunir os jogadores e iniciar a partida.

O treinador trabalha como mecânico em uma empresa de ônibus que transporta funcionários para as mineradoras da região, Samarco e Vale. No dia do rompimento da barragem estava no trabalho, em Mariana — a sede do município fica distante 22 quilômetros de Bento Rodrigues –, quando soube da notícia. Subiu na moto e saiu em disparada. Quando chegou lá viu tudo coberto pela lama. “Pensei que todo mundo tinha morrido”. Minutos depois recebeu a notícia que a família havia escapado e estava na parte alta de Bento.
 No dia seguinte, de madrugada, embrenhou mato adentro até chegar ao local onde estava a família. O primeiro que viu foi o filho, Jardel. “Foi uma felicidade imensa saber que minha família e o pessoal tinha escapado. Eu só chorava”, recorda Onézio.

Torcedor fanático do Atlético-MG, Onézio tinha uma coleção de mais 70 camisas oficiais do Galo. Todas foram perdidas na lama. Questionado sobre o que salvaria se pudesse chegar antes da lama não titubeia sobre as camisas, mas diz que não deixaria para trás o cachorro, o Jason, que morreu soterrado.

Com doações, Onézio já recuperou quase toda a coleção. Algumas, aliás, de maneira especial. Em novembro, ao saber do drama do atleticano, o lateral-direito Marcos Rocha foi até Mariana e o presenteou com uma camisa autografada. A ação teve direito a reportagem de uma emissora de televisão de Belo Horizonte.

Onézio é o tipo de treinador que dá dura. Prega o tempo todo o toque de bola e fica uma fera quando algum jogador dá um chutão ou insiste em dribles desnecessários. Um adepto da escola de Pep Guardiola iniciada no Barcelona. O time catalão, aliás, inspira o escudo do São Bento. Para o treinador, que atuou com zagueiro “firme, sem firula”, o exemplo de jogador é o camisa 10 do time, José da Paixão, ou melhor: Dedeco. “Quem dera se todos jogassem igual o Dedeco”, conjectura.

Aos 44 anos, Dedeco é o mais velho em campo e titular absoluto. Não fica para trás dos novatos, tem um domínio de bola limpo e joga de cabeça em pé, distribuindo o jogo com consciência. Se o União São Bento tem o escudo e o estilo inspirado no Barcelona, provavelmente Iniesta imitou o estilo de jogo de Dedeco.

Pai de cinco filhos, ele trabalha como lavador de uma empresa terceirizada da Samarco e de outras mineradoras. Retira o pó abrasivo de minério de ferro dos caminhões, máquinas e carros das empresas. Faz sete meses que foi obrigado a morar em Mariana, em uma casa no bairro Colina, após o lar que construiu para a família ter sido soterrado. Não se adapta à rotina considerada por ele de “cidade grande”. Mariana tem quase 60 mil habitantes, 100 vezes a população de Bento Rodrigues. “Estou acostumado na roça. Aqui tem movimento demais. Toda hora é carro, ônibus, moto passando”, compara.

Dedeco sente falta da horta e do pomar, com pés de laranja, mexerica, amora e uva. “Mas sinto falta mesmo é da paz”, resume. Quase no fim do primeiro tempo ele recebe um lançamento forte. Domina com facilidade, faz duas embaixadinhas para acalmar a bola e rola para Rafael Douglas de Assis, o Russo, seu companheiro de meio-campo.

Russo, de 26 anos, é motorista de caminhão, mas com a paralisação das atividades da Samarco, as empreiteiras contratadas pela mineradora dispensaram os funcionários e ele perdeu o emprego. Após o rompimento da barragem chegou a trabalhar temporariamente como motorista transportando cascalho, contratado para as ações emergenciais da mineradora. Atualmente presta serviços para a Samarco construindo cercas. “Não é minha profissão, mas é o que tem para fazer”, resigna-se.

Russo marcou o segundo gol da partida, aos 20 minutos do primeiro tempo. A reportagem não viu o lance, pois estava entretida em uma conversa com o treinador Onézio sobre qual zagueiro jogou mais: Luizinho ou Caçapa. Onézio tende a defender Caçapa, no que é contestado pelo repórter.

Clayton Jacson de Souza é um zagueiro clássico, joga com a camisa 3 e pode ser comparado a Luizinho, porém a forma física não ajuda e ainda no primeiro tempo pede para ser substituído. “Ressaca. Tomei umas a mais ontem no aniversário de um colega”, explica. Russo, que contou ser polivalente para trabalhar, também é um curinga em campo e é deslocado para zaga.
 
Do lado de fora, depois de beber quase um litro de água, Clayton, 25 anos, conta que vivia com a esposa e as duas filhas, de cinco anos e de um ano e oito meses, em Bento Rodrigues. Trabalha na mineração da Samarco e quando soube do rompimento da barragem ficou apavorado. “Só fui ver minha família no dia seguinte”, recorda.

No segundo tempo ele retorna ao jogo e protagoniza uma belíssima jogada. Com a bola rente ao chão, dá um leve toquinho, levanta a pelota e aplica um chapéu perfeito no atacante do Juventude. Depois da jogada passa a bola e ainda debocha da vítima.

O companheiro de zaga de Clayton é Cristiano José Sales, de 33 anos, o capitão do time. Tiano, como é chamado por todos, trabalha na mesma empresa de ônibus do treinador Onézio. Cuida da logística, mas quando algum motorista falta ou folga ele transporta os funcionários das mineradoras.

Tiano é separado e lembra que o filho Lucas, de quatro anos, que mora com a mãe em Mariana, soube do rompimento da barragem pela televisão. “Ele viu um carro vermelho na lama e pensou que era meu carro. Falou com a mãe dele que eu tinha morrido”, recorda. “Liguei para ele, mas ele não acreditava que eu estivesse vivo. Só quando cheguei lá e abracei ele acreditou”, completa.

Bem articulado, Tiano toca em pontos que afligem os moradores de Bento Rodrigues que vivem em Mariana. O primeiro é o preconceito. “Nós aqui somos estrangeiros. As pessoas não tratam a gente como iguais e isso atinge muito”, revela. Segundo ele, os marianenses — moradores da sede do município — reclamam que “tudo agora é para o pessoal do Bento” e pior: atribuem a eles a culpa pelo fechamento da Samarco. São vítimas duas vezes: do rompimento da barragem e do preconceito.

A empresa é a principal fonte de arrecadação do município, que depende dos impostos advindos da exploração do minério de ferro. Sem a Samarco funcionar toda a rede de empregos indiretos também é afetada. O restaurante que fornece marmitas, os hotéis, as empreiteiras, enfim, o desemprego assola os marianenses e, assim, buscam-se culpados.

O capitão do São Bento quer que a nova Bento Rodrigues seja construída rapidamente para que a comunidade volte a se reunir e viver a vida que levava. Em maio, os moradores escolheram o local: um terreno pertencente à siderúrgica Arcelor Mittal, chamado Lavoura, recebeu o voto de 206 das 223 famílias. A área tem 100 hectares e fica distante 12 quilômetros do Centro de Mariana e a 10 de Bento Rodrigues.

Quem também está ansioso para a construção da nova Bento Rodrigues é o centroavante Gilberto Pereira, 33 anos, o Beto. “Dia de domingo é o dia que pesa mais. Jogávamos bola e depois reuníamos no Bar da Sandra. Jogar até jogamos, mas não é a mesma coisa. Não tem aquela coisa de comunidade”, explica o atacante, que perdeu o emprego como operador de perfuratriz e também atua improvisado, como Russo, fazendo cercas para a Samarco.

Beto tomou um copo de Coca-Cola antes do jogo e no intervalo aproveitou para fumar. Esguio, é o típico pivô, que tabela com os meias e pontas e não desperdiça as oportunidades. O terceiro gol foi dele, ao cabecear uma bola dividida com o goleiro Breno.

O adversário no amistoso, o Juventude, chegou desfalcado, e o time foi enxertado pelos reservas do São Bento, o que atrasou o início da partida, marcada para as 10h e iniciada às 11h10. “O pessoal deve ter invernado na cachaça e não apareceu”, explicou o técnico do Juventude Adilson Antônio Domingues, 40 anos, mas que todos chamam de Burrinho. “Posso te chamar de Burrinho?”, questiona o repórter. “Fazer o quê? Todo mundo me chama assim”, resigna-se.

Adilson, ou Burrinho, foi obrigado a jogar quase todo o tempo, o que deixou o time do Juventude sem orientação. Algumas vezes Onézio dava uns conselhos aos atletas adversários. O técnico também trocou de lado o goleiro titular, Breno Augusto Henrique, 19 anos. Jogou o primeiro tempo pelo São Bento e o segundo defendendo a meta do Juventude.

Breno está desempregado desde que a barragem rompeu. Trabalhava como auxiliar de serviços gerais e ainda não conseguiu um emprego. O goleiro deseja a volta das atividades da Samarco, pois acredita que assim novas oportunidades de emprego surgirão. “Como ela (a mineradora) vai conseguir pagar todo mundo se não está produzindo?”, pergunta. O goleiro mostrou que tem muita disposição. Quando a bola foi chutada para fora do campo não hesitou em pular o portão e fazer as vezes de gandula.

O lateral-esquerdo Ravane Augusto da Silva, 23 anos, também está desempregado. Ele ainda não conseguiu trabalho como pintor de parede e sobrevive com a esposa e com a filha, de um ano, graças à indenização mensal de um salário mínimo paga pela Samarco com acréscimo de 20% por dependente, valor pago para todas as famílias de Bento Rodrigues. “A vida aqui é meio perturbada. O custo de vida é caro, só consigo dormir tarde da noite por causa do barulho dos carros”, reclama Ravane, que também aguarda ansioso pelo início da construção da nova Bento.

A vida, porém, não é só tristeza e lamentações. Mesmo vítimas de um desastre, sem emprego, vivendo fora de casa e, pior, sem o senso de comunidade que cultivavam, os jogadores mantêm o sorriso. No Skina bar, em frente ao campo do Marianense, a alegria toma conta do ambiente, enquanto bebem cerveja, jogam truco e comentam os lances da partida.

O distrito de Bento Rodrigues foi fundado no século 18 pelo bandeirante português que dá nome ao local. Já o União São Bento existe desde maio de 1950 e no início da década de 2000 ficou alguns anos com as atividades paralisadas. “Este mês (julho) completa três anos que as atividades voltaram”, detalha o presidente do União São Bento Futebol Clube, Anderson Januário, 28 anos, que divide o comando técnico com Onézio, mas que atuou como árbitro no confronto contra o Juventude.

O objetivo atual do São Bento é se estruturar para chegar a disputar a Liga Esportiva de Mariana (Lema), o campeonato municipal formado por dez times. Anderson, ou Tião, como é conhecido, reclama da quantidade de gols perdidos e diz que essa é uma tradição do São Bento. “Todo jogo criamos um monte de oportunidades, mas não marcamos o gol”, reclama.

A cerveja começa a fazer efeito e o ambiente fica descontraído. Do lado de fora, um Fuscão preto estacionado em frente ao bar confere um ar bucólico ao início da tarde de domingo. A música alta de Jorge e Mateus se mistura à conversa. O 5 de novembro — dia do rompimento da barragem — é deixado de lado. Os jogadores preferem lembrar de outra data: 28 de fevereiro. Nesse dia, o União São Bento disputou a preliminar do jogo Cruzeiro x América pelo Campeonato Mineiro, contra o time de Paracatu de Baixo (outro distrito de Mariana devastado pela lama). Venceu por 2 a 1. Nos celulares de cada um estão imagens e vídeos da viagem até o Mineirão, do estádio, do vestiário e das cenas alegres depois de um período de muita tristeza.

O capitão Cristiano mostra orgulhoso um vídeo do time rezando abraçado no vestiário do Gigante da Pampulha. Enquanto segura o celular é possível ler no antebraço esquerdo dele a tatuagem: “Deus é pai”.