Atlético Nacional x América de Cali se enfrentam em Miami pela Copa Libertadores de 1991.

Libertadores 60 anos #03

Este ano a Copa Libertadores completa 60 anos. São 60 edições do torneio mais importante do nosso continente. Em parceria com o Impedimento, o Puntero publicará uma seleção com dez dos maiores jogos na história do torneio. No nosso episódio #03: O narcofútbol que exilou o futebol colombiano

Puntero Izquierdo
Jul 22, 2019 · 11 min read

por Maurício Brum

Nos dias de ouro dos cartéis, pouco dourados para o resto da Colômbia, o país vivia mergulhado em uma violência extrema e enlouquecedora. Havia os cartéis e os quartéis, as guerrilhas revolucionárias e as milícias paramilitares que, prometendo segurança, apenas trocavam o sinal e aterrorizavam a população do mesmo modo. A Colômbia tinha a maior taxa de homicídios do mundo e suas grandes cidades ostentavam números comparáveis a zonas de guerra. No pico, em 1991, o país registrava 79 mortes violentas a cada cem mil habitantes (hoje são 25).

O futebol surgia como um anestésico em dias sombrios, mas vinha com um preço: exigia de todos uma esquizofrenia difícil de justificar — ao mesmo tempo em que ajudava a esquecer a violência que tornava a rotina tão massacrante, era financiado pelos grupos envolvidos na própria brutalidade. As coisas se confundiam a tal ponto que, em certo momento, nem mesmo o futebol restou: na Libertadores de 91, o temor pela violência dos cartéis provocou o exílio dos grandes clubes colombianos, obrigados a jogar a Copa Libertadores inteira fora de seu país.

“A cidade está se acabando, mas ninguém fala de outra coisa que não seja futebol”, praguejou o médico sanitarista Héctor Abad Gómez na manhã de 25 de agosto de 1987, mesmo dia em que acabaria assassinado, como recorda seu filho em A ausência que seremos. Ele procurava nas rádios alguma notícia sobre outro homicídio, o de seu amigo Luis Felipe Vélez, presidente do sindicato dos professores de Antioquia, também naquele mesmo dia. Mas o noticiário só queria falar sobre o campeonato em que o Atlético Nacional finalmente acabaria com a hegemonia do América de Cali, que por sua vez estava na iminência de estrear nas semifinais da Libertadores tentando chegar à terceira final consecutiva.

No fim da tarde, saindo do funeral de Vélez, Abad também foi morto. Nunca ficou claro quem ordenou sua morte e os suspeitos apresentaram versões conflitantes ao longo dos anos, mas a participação de grupos paramilitares — em conluio ou não com nomes fortes do tráfico — é dada como certa: eles também haviam matado Vélez. Héctor Abad integrava um comitê de direitos humanos em Medellín e queria ser prefeito.

Seu assassinato virou estatística, um entre milhares, e talvez fosse menos lembrado sem a literatura do filho. Mortes individuais eram o pano de fundo de todos os dias em uma década marcada por doloridas ações aparatosas em um país conflagrado: dois anos antes, a Suprema Corte da Colômbia havia sido invadida por um grupo guerrilheiro e, na catastrófica operação de “resgate” promovida pelo Exército, quase cem pessoas acabaram mortas ou desaparecidas — incluindo 11 dos 25 ministros. Dois anos depois da morte de Abad, em 1989, uma bomba instalada pelos sicários de Pablo Escobar explodiu um voo da Avianca perto de Bogotá, matando 110 pessoas sem encontrar o alvo verdadeiro — o candidato à presidência César Gaviria, que não chegou a embarcar, e acabaria eleito.

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Em meio à dor, o futebol

Depois que o Deportivo Cali se tornou o primeiro clube de seu país a decidir uma Libertadores, em 1978 — sem influência direta do tráfico, até onde se sabe — o futebol colombiano viu que era possível sonhar com a glória continental. O título não veio, o Cali empatou em casa e levou 4x0 do Boca na Bombonera, mas era um começo. E os cartéis perceberam que havia ali uma dupla oportunidade: usar os grandes clubes locais para lavar o dinheiro sujo das drogas enquanto conquistavam apoio popular ao financiar a grande paixão nacional. Utilizar o vasto influxo de dinheiro ilegal para angariar simpatias na população mais humilde era uma tática frequente — Pablo Escobar ajudava a financiar obras públicas, asfaltando ruas, pintando casas e anunciando projetos para acabar com as favelas.

Em 1982, ainda tido como um empresário de sucesso e querido entre os mais pobres, Escobar chegou a ser eleito para o Congresso colombiano. No início do ano seguinte, a revista Semana publicou um perfil seu com o título que também viraria a alcunha carinhosa pela qual muitos o conhecem até hoje: um Robin Hood paisa. Desconversando sobre sua fortuna, que mais tarde o colocaria como sétimo homem mais rico do mundo, o líder do cartel de Medellín atribuía o sucesso financeiro a outros negócios: “aos 16 anos eu era dono de um negócio de aluguel de bicicletas, me dediquei por alguns anos ao ‘chance’ (tipo de loteria) quando ele chegou a Medellín, depois me ocupei da compra e venda de automóveis e, finalmente, terminei negociando terras”. Em suma: Escobar tirava seus muitos dólares de uns “rolos por aí”.

A máscara começou a cair em outubro de 1983, quando o ministro da Justiça, Rodrigo Lara Bonilla, não apenas revelou o envolvimento de nomes notáveis com o crescente mercado de entorpecentes no país — também os relacionou aos investimentos no futebol. Segundo Lara, pelo menos seis clubes colombianos tinham fortes indícios de contar com dinheiro do tráfico em suas operações: Atlético Nacional, Independiente Medellín, América de Cali, Millonarios, Santa Fe e Deportivo Pereira. Marcado para morrer por revelar com todas as letras o que ainda era um falso-segredo, cuja realidade todos sabiam ou suspeitavam, mas ninguém ousava questionar, Rodrigo Lara seria assassinado seis meses mais tarde.

Pablo Escobar durante inauguração de um campo de futebol em Medellín.

A diferença que o dinheiro sujo fez no futebol era evidente. Nos anos 80, o campeonato foi dominado pelos três principais times ligados aos cartéis: Atlético Nacional, Millonarios e, sobretudo, América — que chegou a emendar cinco títulos consecutivos, um recorde — dividiram entre si todos os canecos entre 1981 e 1992. Os Diabos Vermelhos de Cali tinham atrás de si o cartel local, liderado pelos irmãos Rodríguez Orejuela, rivais ferrenhos de Pablo Escobar no mercado das drogas e na bola. Já Medellín era uma operação de duas cabeças: Escobar era, segundo seu filho (e ao contrário do que aparece na série Narcos), torcedor do Independiente Medellín, mas isso nunca o impediu de ser pragmático e sustentar também o Nacional, que logo se provou mais bem-sucedido na empreitada do narcofútbol.

“A entrada do dinheiro do tráfico no futebol nos permitiu trazer grandes jogadores estrangeiros. Também impediu que nossos melhores jogadores fossem embora”, recordou Francisco Maturana, técnico do Atlético Nacional entre 1987 e 1990, no documentário Os Dois Escobares (2010). “As pessoas viam a nossa situação e diziam que Pablo estava envolvido. Mas eles não conseguiam provar”.

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Em meio ao futebol, a dor

Em 1989, as paixões e os negócios da bola levaram a Colômbia a dois extremos nunca antes alcançados. Em maio, o Atlético Nacional se tornou o primeiro time começar perdendo uma final de Libertadores por dois gols de diferença e mesmo assim recuperar na partida de volta — em Bogotá (não Medellín), contra o Olimpia paraguaio. Devolveu o placar e contou com o heroísmo de René Higuita para vencer nos pênaltis. Os verdolagas tornaram-se o primeiro time de seu país a erguer a Copa Libertadores, sendo também os pioneiros em deixar a taça em uma nação banhada pelo Pacífico. No universo do tráfico, a conquista teve outro significado: após o América de Cali perder três finais consecutivas entre 1985 e 1987, provocando o riso e a pena do continente, o dinheiro de Pablo Escobar conseguiu o que os Rodríguez Orejuela jamais conquistariam.

Seis meses mais tarde, a tragédia. Em 15 de novembro, apenas doze dias antes de mandar derrubar o voo 203 da Avianca, o cartel de Medellín também se encarregou de um crime que provocou, pela única vez na história, a interrupção do Campeonato Colombiano sem que um campeão fosse apurado: o árbitro Álvaro Ortega foi assassinado após anular um gol do Independiente em uma partida diante do América. Ortega, que havia invalidado o tal gol em Cali, também acabou escalado para a repetição do jogo, em Medellín — foi quando os sicários de Escobar, em seu próprio território, aproveitaram para cobrar vingança.

“Se ele tivesse me comentado da ameaça de morte, eu não deixaria que fosse ao estádio. Tenho certeza que não permitiriam a realização da partida, porque automaticamente ligo para Juan José Bellini (presidente da Federação Colombiana) e notifico a decisão de voltar a Barranquilla, com proteção policial”, recordou, anos depois, o também árbitro Jesús Díaz, considerado o principal do país na época, que atuou como auxiliar naquela partida e decidiu encerrar a carreira após o ataque.

Ameaças não eram exatamente novidade no futebol de alto nível da Colômbia, tamanho o dinheiro envolvido, mas após Ortega elas começaram a ter consequências reais. Um dos heróis de 1989, campeão da América batendo um dos pênaltis pelo Nacional, também seria vitimado por isso: Andrés Escobar, assassinado dez dias após marcar o gol contra que precipitou a eliminação de seu país na Copa do Mundo dos Estados Unidos.

Consequências nas vidas e nas competições. Sem um campeão definido em seu torneio local, o futebol colombiano não mandou representantes à Libertadores de 1990. Ou quase: como o Atlético Nacional tinha o título a defender, estava em um não-lugar, sua vaga não era “da Colômbia”, e sim do atual campeão. A Conmebol autorizou a sua entrada e manteve os privilégios da época — quem detinha a taça começava direto nas oitavas-de-final. Mas os ventos já haviam virado e agora as denúncias dos times visitantes não eram mais varridas para baixo do tapete: nas quartas, após levar 2x0 em Medellín e ser eliminado, o Vasco da Gama protestou junto aos organizadores. Alegava que o cartel havia ameaçado seus jogadores e o árbitro, e cobrou a remarcação da partida.

Em decisão inédita, a Conmebol aceitou o pedido do Vasco e anulou a partida em Medellín.

A Conmebol fez, então, algo raríssimo em sua história: aceitou a reclamação, anulou o jogo original e exigiu que ele fosse disputado novamente, em campo neutro. Na prática, uma definição em partida única, já que a ida no Brasil havia acabado sem gols. O duelo começou do zero em Santiago do Chile, mas o Nacional também vencia por ter bola: ganhou outra vez. No entanto, a denúncia do Vasco e os episódios recentes contribuíram para o futebol colombiano receber uma proibição de jogar em casa no que restava daquela Libertadores e em toda a edição seguinte. Sem o mando, o Nacional até fez jogo duro nas semifinais, um repeteco da finalíssima de um ano antes contra o Olimpia, mas desta vez foi ele quem perdeu nos pênaltis.

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Exílio e epílogo

Em 31 de março de 1991, sete anos antes de os primeiros mexicanos pisarem na Libertadores, vinte e sete anos antes de Alejandro Domínguez achar de bom tom marcar a final continental em Madrid, a Copa saiu da América do Sul — e Latina — pela primeira vez. Naquela tarde, os dois melhores times da Colômbia, as duas grandes bandeiras dos cartéis, entraram para um dos mais vazios clássicos da história da Libertadores… em Miami. Foi o primeiro de cinco jogos que os dois mandariam ao longo de uma semana no Orange Bowl, fechando o returno da fase de grupos daquela Copa. Em uma falha tão sui generis de Higuita, o América marcou o único gol do jogo com Antony de Ávila.

O banimento de jogos na Colômbia havia feito os dois abrirem aquela Libertadores em um jogo direto na Venezuela, em San Cristóbal, mas na época dos grupos “binacionais” calhou de Nacional e América dividirem chave com os próprios venezuelanos — Táchira e Marítimo. Para não serem visitantes quando tinham mando, os colombianos concordaram em levar os jogos seguintes aos Estados Unidos, pois a Conmebol sempre tentou fazer do limão uma verde limonada de dólares e já tentou embarcar na onda de curiosidade pelo soccer que a proximidade do Mundial de 94 vinha causando por lá.

O jogo, realizado em Miami, entre os times colombianos.

Os colombianos passaram de fase, mesmo sem causar um estrondoso sucesso de público em Miami, e seguiram alternando partidas nos Estados Unidos e na Venezuela. Nas quartas-de-final, quando voltaram a se enfrentar, o América “mandou” a ida no Orange Bowl, e foi “recebido” pelo Nacional em San Cristóbal para o jogo decisivo. Dessa vez, os verdolagas venceram, avançando para mais um duelo semifinal contra o Olimpia, no que já era uma rivalidade internacional daqueles tempos — ali, seriam superados como no ano anterior. Os gigantes de Medellín e Cali seguiriam muito fortes até metade daquela década, e os dois voltariam a atingir a final continental, respectivamente, em 1995 e 1996, embora sem título.

Mas, fora de campo, sua sorte seria muito distinta. Encurralado pelas autoridades, Pablo Escobar havia sido morto dois anos antes do vice-campeonato do Nacional contra o Grêmio, começando a desestruturar seu poderoso cartel. Já a organização criminosa de Cali, embora agonizasse, ainda era considerada viva na época em que o América chegou a um novo vice contra o River Plate. Isso significou que, naquele mesmo 1996, quando os Estados Unidos criaram a Lista Clinton, um documento com as organizações relacionadas ao narcotráfico pelo mundo, o América de Cali foi o único grande clube do futebol colombiano incluído — iniciando um tortuoso caminho que dificultou a obtenção de patrocínios, a negociação com jogadores e até mesmo a abertura de contas em bancos.

Cada vez mais inviabilizado financeiramente, o América de Cali definhou nas décadas seguintes e foi parar na segunda divisão colombiana pela primeira vez na história. Ele só saiu da lista proibida em 2013 e não vence um título há onze anos. O Atlético Nacional, por outro lado, escapou — e pôde seguir em frente para iniciar um novo ciclo de conquistas sem suspeitas de dinheiro sujo por trás. Em 2016, bem longe de Escobar, venceu uma nova Libertadores diante de seu povo — desta vez, em Medellín.

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