Libertadores 60 anos #10

El sueño del Pibe (sin el Pibe): como Diego Maradona ajudou o Argentinos Juniors a ser campeão da América, deixando pelo caminho o maior dos vencedores

Puntero Izquierdo
Jan 9 · 12 min read

por Maurício Brum

Vejo Vidallé, pulando, gritando sua defesa. Bateu De Ávila, o arqueiro, que foi pela quinta vez consecutiva à sua direita e ficou com o pênalti, rechaçou a bola, tocou a vitória, acariciou-a… então, enganou-se o árbitro, o chileno Hernán Silva. Faltava o quinto penal do Argentinos Juniors. Um gesto confuso, alguns invadem o campo, um par de jogadores do Argentinos celebram por antecipação. Pensei que Silva mandava fazer uma nova cobrança por infração de Vidallé. Adiantou-se? Pode ser. Todos os goleiros dão um passo à frente antes do chute. Mas o erro de Silva era matemático, as contas não fechavam. Tinha o Argentinos como ganhador e a realidade indicava que estavam empatados em quatro a quatro e que faltava o último pênalti, o que Videla devia bater…

É exaltando uma defesa de Vidallé que a crônica de Natalio Gorín, em El Gráfico, começa para contar o final — ou a final. Da Copa Libertadores da América de 1985, vencida por aquela que talvez tenha sido a maior surpresa da história da competição. Porque depois houve um Vélez Sarsfield e, ainda, um Once Caldas juntando-se à lista de campeões, mas ambos tinham um passado de títulos e alguma abrangência nacional quando deram a volta olímpica. O Argentinos Juniors não só era um cuadro de barrio, mas um cujas taças escasseavam e a torcida era miúda — e, de quebra, pulou à frente de gigantes de seu país, como River Plate e San Lorenzo, que ainda não haviam tocado a Copa. Os Millonarios o fariam no ano seguinte. Os Cuervos teriam que esperar quase trinta anos mais.

Ainda hoje, é certo, o Argentinos Juniors é o campeão menos acostumado à Libertadores: de todos os times que já a ergueram, é aquele que menos vezes a disputou — um título e, em sessenta edições, apenas três participações. E a de 1985 foi, precisamente, a primeira do trio. O Semillero del Mundo, como gosta de se anunciar, era um time famoso por suas categorias de base, nem tanto por seu sucesso entre os profissionais. Mas seria graças a uma de suas revelações, a mais famosa, que o Argentinos Juniors chocaria o continente.

O dinheiro obtido com um certo Diego Armando Maradona permitiu ao humilde Bicho Colorado dinamitar gigantes e se tornar, ele também, um campeão da América — deixando pelo caminho, perdido em uma esquina da história da qual até hoje não soube sair, o maior de todos os vencedores. Para levantar a Copa, o Argentinos Juniors precisou primeiro superar o Independiente, que defendia o título. E que, após parar nas mãos de Vidallé no último jogo antes da finalíssima (pois Vidallé foi herói também antes da defesa narrada por Natalio Gorín), nunca mais se aproximou de outra decisão de Libertadores.

O mesmo Independiente que, duas décadas mais cedo, havia começado sua trajetória vencedora ao eliminar o Santos de Pelé, agora caía para o time construído com o dinheiro de Maradona.

* * *

De uma hora para a outra, o futebol argentino foi tomado de assalto pelos gols de Maradona. Naquele tempo, eram dois campeonatos por ano, o Nacional e o Metropolitano, e entre 1978 e 1980 não teve para mais ninguém: dos seis torneios jogados naquelas três temporadas, cinco viram Diego fechar na ponta da tabela de goleadores. Foi um furacão que varreu o país e o próprio Argentinos Juniors, que em 74 anos de história antes disso só havia feito um artilheiro na primeira divisão.

Maradona, que nem 18 anos tinha na época da Copa do Mundo sediada e vencida pela Argentina, anunciava um futebol tão monumental que até adeptos conquistou: queriam que César Luis Menotti, o técnico da Seleção, já o colocasse no time de 78. Menotti preferiu esperar, mas, um ano mais tarde, sendo também o treinador do selecionado argentino juvenil, contou com os gols e dribles de Maradona para vencer o Mundial da categoria.

Houve algo, porém, que o Bicho e El Diez não foram capazes de fazer juntos naqueles anos de explosiva magia do novo e maior craque que começava a deleitar os argentinos: sair campeões. Maradona precisou sair do Argentinos para erguer uma taça, e o Argentinos precisou da venda de Maradona para montar um time capaz de fazê-lo.

O título de Diego veio antes: em 1981, após empilhar artilharias de vermelho, foi para o Azul y Oro de seus amores que venceu o Metropolitano com o Boca Juniors, encantando uma parte ainda maior do país enquanto levava outra ao desespero. Em 10 de abril daquele ano, em seu primeiro Superclássico, marcou um golaço memorável em um 3x0 sobre o River Plate na Bombonera.

O Bicho não contava mais com seus gols, mas sonhava com a venda futura, que viria no ano seguinte: após a Copa do Mundo de 1982, na Espanha, o Barcelona decidiu que o craque argentino era bom demais para voltar para casa. A seleção Albiceleste acabou sendo presa fácil para o Brasil, e Maradona chegou a se enfurecer e sair expulso de campo, mas ainda assim era um craque grande demais para se deixar passar. O Barça quis comprá-lo, o Argentinos aceitou vendê-lo, e o Boca não mandava em nada: o clube da Paternal tinha direito a dois terços do valor, cerca de 6 milhões de dólares — 16 milhões em valores atualizados, que chegavam ainda mais longe no mercado mais “acessível” dos anos 80.

Era como o Argentinos Juniors começaria a montar, em uma mescla de medalhões consagrados e da manutenção de suas próprias revelações, o time que finalmente daria uma volta olímpica nacional e, contra todos os prognósticos, levaria também a Libertadores.

* * *

O primeiro passo seria contratar Ángel Labruna, um daqueles nomes que transcendem gerações no futebol argentino — jogador do River Plate entre 1939 e 1960, tendo vivido parte do período clássico em que a equipe ganhou o apelido de La Máquina, ele acumulou nove títulos com a camisa Millonaria. Já como treinador, tornou-se também um dos mais cotados comandantes do país: em 1975, Labruna voltou a Núñez para tentar tirar o River de uma seca que já se estendia havia dezoito anos, desde o tempo em que ele ainda calçava chuteiras — e não só cumpriu o combinado como venceu seis campeonatos em cinco anos.

Mas seu período vitorioso foi encerrado abruptamente quando os dirigentes decidiram dar seu trabalho a outro velho ídolo do clube: Alfredo Di Stéfano. Ofereceram-lhe uma queda “para cima”, um cargo de manager que, embora o mantivesse no River, o distanciava da lida diária na beira do campo, o que verdadeiramente interessava Angelito Labruna. “Ao sair do River, pensei que acabava o mundo, até quis me dar um tiro. Andei como louco toda uma noite sem poder dormir. Saí dando voltas por qualquer lado com o carro, não queria voltar para casa”, contou. Em parte, pesou para a sua saída o ressurgimento do Boca em nível local… auxiliado por Diego Maradona.

Labruna, que não se deu um tiro, primeiro foi ao Talleres de Córdoba, último clube que havia comandado antes da feliz estadia no River. No início de 1983, chegou ao novo-rico Argentinos Juniors para tomar as rédeas de um processo que, sonhavam todos, culminaria em títulos. Eram tempos de fartura para um clube que tanto dependia da base e, agora, passava a acreditar em reforços de fora. Naquele mesmo ano, trouxeram o goleiro Ubaldo Fillol, campeão mundial pela Argentina em 78, que havia brigado com os dirigentes do River e foi rapidamente se juntar ao mestre Labruna. Entre 1983 e 1984 também desembarcariam em La Paternal jogadores como José Luis Pavoni, outro ex-River, Jorge Olguín, ex-Independiente e ídolo do San Lorenzo nos anos 70, e o grande Emilio Commisso, multicampeão (é claro) pelo River do mesmíssimo Labruna.

Commisso, depois, marcaria todos os gols que o Bicho fez no tempo normal das finais continentais de 1985: o 1x0 em casa e a abertura do placar no 1x1 da terceira partida (o segundo jogo foi 1x0 para o América). Somados a essas contratações de peso, seguiam vindo as revelações de um clube orgulhoso de sua cantera. O início da década viu o Argentinos subir ao time principal, e logo colocar de forma cativa entre os titulares, jogadores do naipe de Claudio Borghi e Sergio “Checho” Batista, outros nomes fundamentais da campanha que conquistaria o país e o continente na metade dos anos 80.

O próprio Ángel Labruna, porém, não chegou a colher os frutos do modelo que ajudou a implementar no clube, e que se manteve pelos anos seguintes: em setembro de 1983, foi surpreendido pela morte, uma parada cardíaca enquanto se recuperava de uma cirurgia. Tinha 64 anos e caiu, agonizante, nos braços do próprio Fillol, que havia ido à clínica render visita ao treinador que tanto respeitava.

A morte de Labruna deu lugar a Roberto Saporiti, que seria campeão argentino em 1984, e depois saiu abrindo espaço para José Yudica, que seria o campeão da América. Mas ela não só fez com que técnicos se sucedessem uns aos outros sem realmente mudar o sistema herdado do Angelito: também abriu margem para um personagem indispensável das conquistas iminentes chegar ao clube. Após o trauma de testemunhar a morte de Labruna, o grande responsável por trazê-lo à Paternal, Fillol decidiu mudar de ares e aceitou uma proposta do Flamengo.

O novo goleiro do Argentinos Juniors seria, a partir de 1984, um sujeito que acumulava grandes camisas na carreira embora sem se firmar em nenhuma delas: jogou em Boca, Huracán, Gimnasia e Estudiantes de La Plata, sem jamais ser campeão antes de chegar ao clube que, por sua vez, ainda buscava seu primeiro título. Enrique Vidallé já tinha 32 anos quando chegou para iniciar as escalações mais clássicas do Bicho.

* * *

O time campeão.

O Argentinos Juniors conquistaria o título máximo de seu país em 1984, no Metropolitano, e repetiria a dose em 1985, no Torneio Nacional. O momento maior de Vidallé, contudo, viria nas jornadas copeiras. Suas mãos interromperiam as cobranças do América de Cali na conquista continental, e nele seriam depositadas todas as esperanças quando, no Mundial, o Argentinos outra vez foi espantoso, sustentando a igualdade com a Juventus de Michel Platini nos 120 minutos e levando novamente a definição para as penalidades — embora, dessa vez, a taça acabasse indo para Turim.

Nada disso seria possível sem, antes, a outra defesa, aquela que encerrou o domínio de sete Copas do Independiente: em 10 de outubro de 1985, o Rojo e o Bicho Colorado entraram no gramado de Avellaneda com o time da casa em flagrante vantagem sobre seus animados concorrentes. O Independiente, que já havia empatado com o Argentinos Juniors fora de casa, na abertura do triangular semifinal, e vinha igualado com o adversário em pontos, agora só precisava fazer resultado na Doble Visera para jogar mais uma decisão. Também tinha saldo melhor graças aos jogos contra o outro integrante da chave, o Blooming boliviano, o que lhe garantia a vantagem em um eventual desempate.

Independiente 1 x 2 Argentinos Juniors

Sim: a lenda tratou de aumentar a vantagem do Independiente, e hoje muitos contam em La Paternal que o time de Avellaneda jogava pelo empate. Na verdade, a vantagem era por um duplo empate: o Rojo não tinha como ser finalista se acabasse igualado naquele dia, já que os dois permaneceriam com a mesma pontuação, forçando um novo jogo. Mas o saldo melhor dava ao clube sete vezes campeão da América a oportunidade de jogar por outra igualdade na partida extra, se ela fosse necessária.

Não foi. O Argentinos Juniors começou aquela jornada como a natureza desabalada e, quando o peso da história fez o Independiente tentar buscar as coisas, apareceu Vidallé. Na racionalidade das análises, não era tão improvável que o Bicho fizesse frente aos gigantes que defendiam o título da Libertadores: tratava-se de um time campeão argentino nos dois semestres imediatamente anteriores. O Independiente seguia favorito, por supuesto — tinha a tradição e conhecia os atalhos, e não se sustentava apenas no passado: era o atual campeão da América e do mundo, tendo batido na última final continental um Grêmio que defendia o título e, em Tóquio, superado o Liverpool. Mas talvez a distância não fosse tão grande quanto se tentou vender depois.

Para chegar lá, afinal, o Argentinos havia tido que passar pelo grupo mais difícil da Libertadores: venceu um quadrangular compartilhado com o compatriota Ferro Carril Oeste, que também vivia seus melhores dias da vida (vencedor do outro título nacional de 1984), e com os brasileiros Fluminense e Vasco da Gama. E definitivamente não pareceu tão grande naquele início avassalador do quadro de La Paternal na última rodada do triangula, quando Mario Hernán Videla fez 1x0 aos 20, de pênalti, e José Castro dobrou a vantagem aos 24, insistindo em um rebote sem ângulo. Só que Percudani descontou dois minutos depois, e a fúria dos locais voltou a assustar, em um duelo nervoso que se estenderia por todo o resto da noite.

Faltando um minuto, o 1x2 ainda no placar de Avellaneda, o juiz vê pênalti em uma bola que atinge a mão da defesa, em um dos tantos chutes desesperados do Independiente. E a rota da classificação, na Doble Visera, deixa de ser o encontro do humilde Argentinos com o rei de todas as Copas, e passa a ser um duelo pessoal entre Claudio Marangoni e Quique Vidallé. O Rojo para reafirmar sua história. O Argentinos ou, mais exatamente, Vidallé, tentando o seu lugar nela. Quando chega a hora fatal, Marangoni bate mal e Vidallé, que chega a se adiantar, apenas encaixa a bola. E imediatamente recebe um carrinho violento. Como escreve Joza Novalis no Futebol Portenho:

“Como prêmio, ele recebeu várias coisas. Primeiro uma entrada criminosa de Marangoni, quando ainda estava deitado com a redonda. Nos tempos antigos da Libertadores, entradas como essa tinha um claro objetivo: permitir que o arqueiro, lesionado, soltasse a bola para que o próprio batedor ou outro atacante chegasse antes da zaga para guardá-la no arco. Se o árbitro marcaria ou não a infração era coisa para se discutir depois, embaixo de pressão, ameaças e até porradas de fato”.

Vidallé não soltou a bola e não deu ao Independiente sequer a oportunidade da especulação. O Argentinos Juniors venceu em Avellaneda, cortou em sete a contagem de títulos do maior vencedor da Libertadores, que permanece sem novas taças desde então, e avançou para a conquista impossível. O experimento da riqueza em La Paternal seguiria até o ano seguinte, quando as taças voltaram a escassear. Ainda deu tempo de vencer uma Copa Interamericana em 1986, contra o improvável Defence Force de Trinidad e Tobago (campeão da Concacaf), antes de entrar em um silêncio de conquistas que se estenderia por outro quarto de século, até um novo título argentino em 2010.

Não é todo dia, afinal, que se revela um Maradona ao mundo e se tira proveito disso. Pois Diego nunca chegou a vencer uma Libertadores, mas não se pode dizer que não tenha ajudado uma equipe a chegar lá.

* * *

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