Libertadores 60 anos #5

Mirko Jozic havia dado ao futebol iugoslavo seu único título mundial, no sub-20. Em 1990, com seu país às vésperas da desintegração, chegou ao Chile para conduzir o Colo Colo à maior das glórias. A história de quando o único europeu a ganhar a Libertadores eliminou o Boca de Batistuta e do maestro Óscar Tabárez

Puntero Izquierdo
Sep 10, 2019 · 10 min read

por Maurício Brum

Davor Suker, Robert Prosinecki, Zvonimir Boban e Predrag Mijatovic são alguns dos nomes associados à última grande geração do futebol iugoslavo antes da desintegração do país. Mais tarde, quando as guerras dos Bálcãs enchessem a região de novas fronteiras (que também eram velhas), boa parte deles ainda faria história levando a recém-independente Croácia a um inesperado terceiro lugar na Copa do Mundo da França, em 1998, a primeira que o país disputava após se separar.

A relação dos craques do crepúsculo iugoslavo com a única Libertadores vencida pelo Chile parece pouco óbvia à primeira vista, mas, por trás do Colo Colo campeão da América e daqueles enormes jogadores, estavam as ideias e os projetos de um mesmo homem: o técnico Mirko Jozic. Em 1987, quando pisou na capital chilena para a disputa do Campeonato Mundial Sub-20, Mirko já treinava as categorias de base havia quinze longos anos, moldando muitos dos jogadores que faziam aquela uma das escolas mais temidas (ainda que pouco vitoriosas) do Leste Europeu.

Um jogador pouco iluminado antes de pendurar as chuteiras, ele havia começado a carreira no Hajduk Split, um dos grandes de sua Croácia natal, mas pouco a pouco foi minguando e se afundando nas divisões inferiores do futebol iugoslavo. Aposentou-se aos 27 anos após uma grave lesão no tornozelo, e decidiu seguir no esporte de outra forma: cursou educação física e iniciou uma carreira que se revelaria mais bem-sucedida no lado de fora do gramado.

À frente dos jovens da Iugoslávia, ele já havia triunfado no Campeonato Europeu Sub-19, em 1979. Agora, em Santiago, tentava mostrar que era possível vencer diante de todos os continentes, e assim fez com grande autoridade. Na primeira fase, sua equipe assinalou quatro gols por jogo, inclusive na estreia contra os anfitriões: em um Estádio Nacional lotado, o Chile caiu por 4x2, com direito a dois gols de Suker.

Historicamente, os balcânicos formavam uma equipe que sempre prometia muito e, quando chegava a hora, fraquejava. Em 1987, sob as ordens de Jozic, foi diferente: depois de derrotar a Roja, emendaram goleadas sobre Austrália e Togo para fechar o quadrangular. Nos mata-matas, superaram o Brasil e as duas Alemanhas — a Ocidental na finalíssima — para conquistar o único título mundial do futebol iugoslavo, em qualquer categoria.

O bom futebol apresentado conquistou os chilenos. Às vésperas da transição para a democracia e vivendo a euforia do crescimento econômico nos estertores do regime pinochetista, os grandes times locais pareciam dispostos a investir para finalmente romper a falta de glórias internacionais, que afetava clubes e também a seleção. Entre 1973 e 1987, pelas camisas de Colo Colo, Unión Española, Cobreloa e do próprio Chile, o país acumulava seis vice-campeonatos continentais: quatro na Libertadores, dois na Copa América. Título, nenhum.

Ao assinar contrato para treinar o Colo Colo pouco após o Mundial Sub-20, com seu espanhol carregado de um enigmático sotaque, Mirko Jozic não foi incumbido da gigantesca missão de interromper a série de frustrações. Seu trabalho era mais modesto: faria aquilo que conhecia tão bem — desenvolver jovens. Assumiu a base do Cacique, preparando os futuros jogadores que (esperava-se) ergueriam as taças que tanto fugiam aos chilenos.

Com o tempo, no entanto, ele também abraçaria a tarefa de empurrar os limites do possível. Alguns anos depois, seria pelas mãos de Mirko que o Colo Colo conquistaria a solitária Libertadores que repousa nas vitrines do país.

Mirko encerrou sua primeira passagem pelo Colo Colo ainda em 1988, dizendo ter saudades da família, mas deixou uma boa impressão e as portas abertas. Dois anos mais tarde, voltou — trazendo, justamente, a família a tiracolo. O Chile seria seu novo lar. Na virada das décadas, a Iugoslávia vivia o acirramento do nacionalismo sérvio sob Slobodan Milosevic e estava cada vez mais claro que tempos sombrios se avizinhavam — mais para algumas nacionalidades e etnias do que para outras, porém, ainda mais incertos do que aquilo que existia antes, em qualquer lado que se estivesse.

Para o técnico croata, afastar-se do terror significou reerguer uma cordilheira no horizonte. Não mais para o seu antigo trabalho na base, que agora cabia a um ainda desconhecido técnico argentino, um certo José Pekerman. Em 1990, aos pés dos Andes, Jozic chegou para preencher o vazio deixado por Arturo Salah, treinador que havia comandado o clube nos cinco anos anteriores e conquistado a média de um título por temporada — três Copas do Chile e dois Campeonatos Chilenos. Salah saiu do Colo Colo apenas para assumir a seleção, deixando a sensação de um trabalho bem feito, mas inacabado.

Seguia faltando a Libertadores.

E poucos, no início, quiseram dar o braço a torcer ao novo comandante europeu. Salah tinha a história e o cartel de conquistas. “Mais tarde também gostamos do Mirko, mas no início não, fundamentalmente porque queríamos seguir com Arturo”, recorda o capitão Raúl Ormeño em uma entrevista registrada no livro Caciques: el largo camino de Colo-Colo para ganar la Copa Libertadores 1991, de Axel Pickett. “Nas primeiras semanas, no primeiro mês, eu não entendia nada do que Mirko queria”, dizia Ormeño, veteraníssimo de mil batalhas com a camisa Alba, defendendo o clube desde 1976.

Jozic driblou a dificuldade linguística e a desconfiança do elenco montando uma comissão técnica repleta de nomes que conheciam bem o clube, com os quais havia tido contato em sua passagem anterior. Também instituiu um regime de treinamentos pesado, buscando o condicionamento que julgava necessário para dar o salto além: na pré-temporada, os jogadores do Cacique estavam obrigados a subir correndo os cerros que rodeiam Santiago. Queria um time rápido, que jogasse explorando os “rombos” do campo, impondo um ritmo que deixasse os adversários desnorteados.

“O treinamento era tremendamente competitivo. Pode perguntar como eram as subidas dos cerros nas pré-temporadas. Havia ainda um estímulo extra, pois ninguém queria ir na rabeira comendo a terra que os outros levantavam, porque não eram lugares atapetados ou gramados, era pura terra morro acima”, conta outro jogador daquele time, Jaime Pizarro, no livro de Pickett.

Pegando a equipe de onde Salah havia deixado, Mirko Jozic não teve problemas para fazer o que, naquela altura e com aquele time, parecia o mínimo: ganhar mais um Campeonato Chileno. A maior parte do crédito foi dada a Salah, que havia comandado a equipe até setembro de 1990. Mirko parecia um bom timoneiro de algo já consolidado. Ele só entraria na história para valer se fizesse o que ninguém havia conseguido.

Quanto dura uma espera por ganhar a Libertadores? No caso do Colo Colo, a longa noite entre a sua primeira final copeira e o sonhado título coincidiu com a duração da ditadura de Pinochet (não por culpa do regime militar, amigado de alguns dirigentes do Cacique, a ponto de o general ser homenageado pelo clube na época): os Albos decidiram a Copa em 1973, perdendo a final contra o Independiente três meses antes do golpe que colocou Pinochet no poder, e só vieram a vencê-la em 1991, quase um ano e meio após o general entregar o governo. Pior: viveram esses dezoito anos jogando a maioria das Libertadores do período, mas sempre mirando a Copa de longe.

“Foi a frustração de toda a minha vida, porque joguei dez ou onze Libertadores e em todas sonhava em ser campeão da América. E justamente quando era capitão do time, fiquei de fora”, lamenta Raúl Ormeño, no depoimento registrado em Caciques. Na pré-temporada de 1991, aquela em que a Copa finalmente desembarcaria no Monumental David Arellano, o capitão fraturou o rosto em um amistoso. Depois, quando estava voltando, sofreu uma lesão muscular. Fez de tudo para voltar quando as fases decisivas da Libertadores chegassem, sem sucesso.

Mas a sucessão de contusões e a perda de lugar no time não afastaram Ormeño da beira do campo, nem o impediram de, na noite de 22 de maio de 1991, entrar no gramado para participar da batalha campal armada pelo Boca Juniors ao fim da partida de volta das semifinais da Libertadores. Os xeneizes viviam, então, ansiosos por recuperar o sabor das jornadas internacionais. Tinham alguns jogos memoráveis nos anos recentes, mas a Copa continuava fugidia. Agora, não podiam acreditar que, após sair vencendo a ida e segurar o empate na volta até o intervalo, tivessem sido envolvidos pelo turbilhão de Mirko.

Para chegar ao Boca treinado pelo maestro uruguaio Óscar Washington Tabárez, campeão da Libertadores apenas quatro anos antes pelo Peñarol, o Colo Colo havia feito uma campanha impecável: invicto em um grupo contra Deportes Concepción, LDU de Quito e Barcelona de Guayaquil, seguiu avançando pelos mata-matas após um jogo duro contra o Universitario de Lima e um baile sobre o Nacional de Montevidéu, que incluiu 4x0 em Santiago. Só que o Boca acumulava vitórias que haviam decepcionado algumas das maiores torcidas do continente: atingiu aquelas semifinais após eliminar o rival River Plate e os brasileiros Corinthians e Flamengo.

Contra os de azul y oro, foi a primeira e única vez que o Cacique se viu em desvantagem ao longo de toda aquela campanha, incluindo a futura final: levou 1x0 na Bombonera, gol de pênalti. Um certo Gabriel Batistuta havia sofrido a penalidade, num lance que deveria ter sido invalidado: estava em flagrante impedimento antes de sofrer a falta. A arbitragem deixou passar e o Boca chegou ao Monumental com a vantagem na mala, uma folga que se manteve até o jogo entrar no segundo tempo em Santiago, e então virou poeira em instantes.

Aos 19 e aos 21 do segundo tempo, dois gols-relâmpago surgidos em lances semelhantes — avanço rápido pela direita, bola atravessada na área e gol — fizeram a vantagem do Boca implodir. Os “rombos” apregoados por Mirko apareciam, e o Cacique sabia aproveitá-los, para desespero de seus oponentes. Nem o gol de desconto de Diego Latorre, aos 29, fez muita diferença: o Boca podia ter melhores individualidades, mas o Colo Colo era mais time pela soma das suas partes. Aos 37, Rubén Martínez, que já havia marcado um, apareceu novamente para fazer um golaço de cavadinha por cima de Navarro Montoya, desatando a loucura em Santiago e o inferno dentro de campo: sem alternativas na bola, os argentinos recorreram à violência.

Tudo começou com uma agressão a um câmera da TV chilena, redundando em uma batalha campal que envolveu Carabineros, cachorros policiais e os dois times, além de repórteres e membros das comissões técnicas. Ao fim e ao cabo, dez minutos de paralisação, apenas um vermelho para cada lado, e quando o jogo voltou o Boca já não buscou mais. Mirko Jozic e seus Caciques avançaram à final contra o Olimpia, jogo que tinha sabor de vingança após uma marmelada dos paraguaios que tirou os Albos da Copa dois anos antes, e lá venceram sem problemas: 0x0 em Assunção, 3x0 no Monumental.

Ainda hoje, Mirko é o único técnico europeu a erguer a Libertadores. Saindo definitivamente da sombra de Arturo Salah, conduziu o Colo Colo ao período mais vitorioso da sua história: antes de deixar o clube para dirigir a Seleção Chilena, como seu antecessor, o croata ganhou mais dois campeonatos nacionais, no próprio 1991 e em 1993 e, além da Libertadores, também somou estrelas internacionais com a conquista da Recopa e da Copa Interamericana. Só faltou o Mundial: curiosamente, calhou de Jozic enfrentar o único clube iugoslavo a ser campeão da Europa, um Estrela Vermelha que contava com muitos craques que ele próprio havia ajudado a moldar na seleção de seu país às vésperas da desintegração.

Mas Tóquio não fez falta para tornar Mirko e seus comandados uma esquadra pioneira e, até aqui, irrepetível no futebol do Chile. Cada vez que um novo time de trás dos Andes parece capaz de reinar sobre o continente, os jornais chilenos vão atrás do velho treinador — hoje, aos 79 anos, de volta à sua terra natal — em busca de uma opinião. A última foi La U de Jorge Sampaoli, campeã da Sul-Americana em 2011 e que sonhou em fazer algo mais no ano seguinte. Para ser comparada àquele Colo Colo, resmungava Mirko Jozic ao diário La Tercera, “antes têm que ganhar a Libertadores”. Algo que aquela Universidad de Chile, no fim das contas, não foi capaz de fazer.

De qualquer forma, Mirko não tem dúvidas. Mesmo que um dia outro chileno volte a tocar a Copa, seu time segue inigualável: “o primeiro sempre será o primeiro”.

* * *

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