Manifesto desde a zona da degola

Puntero Izquierdo
Mar 23, 2015 · 4 min read

POR PUNTERO IZQUIERDO

Andávamos com as mãos nos bolsos, acochambrados no destino, gastando as tardes com campeonato português na televisão. Amaldiçoávamos o descenso por ele caminhar ao nosso encontro a passos lentos.

Buscávamos velhas canchas mortas, mas dávamos de cara com portões cadeados. Sentávamos em poltronas confortáveis mirando o centro do gramado, os olhos fixos, cheirando aromas de hot dog e pipoca gourmet. Não havia mosaico que nos despertasse. Veio a ola e não nos levantamos. Não tínhamos bobinas para atirar durante o recebimiento.

Um cusco invadiu um gramado no altiplano. Não fizemos mais que erguer uma pestana. Enxergamos um alento na volta olímpica do Globito, mas nos dispersamos ouvindo uma discussão sobre os números de Neymar. Em uma madrugada Valderrama nos telefonou, mas o celular estava no silencioso. Demos de ombro a casos e casualidades.

Tínhamos um escanteio a favor para empatar a partida no último minuto, mas nosso armador cobrou curto. No apito final, não restou ânimo para as cenas lamentáveis dos derrotados. Deixamos a cancha com o uniforme impecável, sem uma mancha de barro.

Porque na rinha da vida já me bastava um empate.

Andávamos sem mel nem porongo, en pampa y la via. Acostumados à zona da degola, sabedores do nosso potencial para a intermedia. Torcedores da Portuguesa protestando na porta do STJD. Pontepretanos lamentando o título perdido. Apostador do Show do Milhão que errou a frase da bandeira nacional. Padre dos balões. Ferreyra escorregando no instante em que marcaria o gol do título. Escarlatas sofrendo un zurdazo fatal no último minuto.

¿Por qué siempre a nosotros, Señor?

Ruminávamos uma volta olímpica de visita em um tempo esquecido. Castigávamos o calçamento contornando o Olímpico, os Eucaliptos, o Brinco de Ouro da Princesa, estádios derrotados pela especulação imobiliária. Trazíamos no bolso do casaco um ingresso antigo do Nicolau Alayon. Guardávamos em casa, no quarto dos fundos, uma flâmula do Galícia e uma foto de Vicente Arenari. Aos domingos, recitávamos de cor a escalação do Criciúma de 1992, em tom solene antes do almoço. Os médicos desengavam as famílias. Esse não se recupera mais.

Andávamos por aí, sombrero en mano, mendigando um pouco da nossa ração diária de futebol de verdade.

Andábamos sin buscarnos, pero sabiendo que andábamos para encontrarnos.

Acendemos um sinalizador para iluminar o caminho e não nos importamos com a presença policial. Um steward nos mandou sentar. Seguimos em pé. O zagueiro adversário tentou afastar a bola, mas ela veio se acomodar junto às nossas meias já arriadas. Tínhamos o flanco aberto aos 40 do segundo tempo. Decidimos correr.

***

Puntero Izquierdo é uma revista digital de grandes reportagens, entrevistas e ensaios sobre futebol e outros temas atinentes às canchas. Sobre o futebol das arquibancadas e dos potreiros. Sobre o futebol dos personagens esquecidos e das histórias não contadas. Sobre o jogo, de vez em quando.

Puntero Izquierdo é o encontro entre o futebol e outros campos. É o reencontro entre nós, que andávamos sem nos buscar, mas sabendo que andávamos para nos reencontrar.

O projeto é um HERDEIRO do Impedimento, aquele site sobre futebol sul-americano que militou nas canchas virtuais entre 2005 e 2014, encerrou a carreira na Sociedad Deportiva Aucas e hoje é proprietário de uma churrascaria no interior paulista. Quando o árbitro ergueu a placa dos acréscimos anunciando que o fim do Impedimento estava próximo, avisamos que o MOVIMENTO seguiria vivo de alguma forma. É o que parece estar acontecendo.

No Puntero Izquierdo, sem as amarras da atualização diária, queremos nos dedicar a conteúdo de qualidade, priorizando a grande reportagem, escanteada em um jornalismo cada vez mais opinativo e FUGAZ. A revista terá a melhor periodicidade possível: será atualizada quando tivermos boas histórias para publicar.

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