Ilustração: Gonza Rodríguez

Miraildes, a maior Formiga a pisar nos gramados

Puntero Izquierdo foi a Manaus acompanhar a despedida da volante da Seleção Brasileira e traçou um perfil daquela que é considerada a mais completa jogadora de futebol feminino já nascida no País

POR JUVENAL DIAS*

Edição: Paulo Junior

- Você é um irresponsável! Como que você coloca uma menina num jogo tão importante, na Copa do Mundo? Ela é uma criança!
 
Assim reagiu Luiz Miguel Estevão, então diretor da CBF, quando a jovem Formiga foi a campo em 7 de junho de 1995, na derrota do Brasil para o Japão no Mundial daquele ano, disputado na Suécia. “Você está de brincadeira”, continuou, disparando para cima do técnico Ademar Fonseca Junior, o Dema.

- Anos atrás, o Luiz encontrou comigo num torneio de futebol feminino, veio e esticou a mão: “deixa eu te dar os parabéns e pedir desculpas para você”. Pelo quê? “Lembra quando chamei sua atenção depois do jogo contra o Japão e você falou que a Formiga seria uma das maiores jogadoras da história do Brasil?”.

Enfim, Dema tinha reconhecida a sua razão ao dar a chance à atleta. Razão confirmada ao longo de 39 anos de vida, 21 deles num currículo de seis Copas do Mundo, seis Jogos Olímpicos e 160 partidas pela seleção brasileira, a última em dezembro de 2016, na Amazônia, momento presenciado pelo Puntero Izquierdo.

O último ato

São 28 minutos do primeiro tempo e a bola está rolando para o segundo jogo do Torneio Internacional de Manaus. Uma vitória contra a Rússia coloca o Brasil na final. A Seleção Brasileira ganha por 1 a 0, gol de Bia, em bonita arrancada, mas vive um momento de pressão das adversárias com dois ataques seguidos. Escanteio pelo lado esquerdo do ataque brasileiro, Andressinha na bola. Com o pé direito, o cruzamento sai fechado, alcançando o centro da confusão. Duas brasileiras sobem para cabecear na risca da pequena área. Junto com elas, uma adversária e a goleira, que tenta sair socando com os punhos cerrados, mas que não acerta a bola em cheio. A redonda flutua viva, caindo já depois da marca de penalidade máxima. A meta desguarnecida. Um gol a essa altura traria mais tranquilidade para o restante da partida. Mas não há como posicionar o corpo para um chute frontal e o recurso possível é uma meia bicicleta. Obviamente que a grande maioria dos jogadores de futebol nem tentaria essa jogada, sob o risco do chute se perder na arquibancada, ou mesmo o tombo custar uma dor nas costas. Não à toa é uma das jogadas mais belas do futebol, e é também para poucos. E poucas.

Formiga é uma dessas que podem se credenciar a tentar — não tem medo de arriscar e, principalmente, tem qualidade para isso. Toca com a força e precisão ideais para alcançar o meio das traves. Em uma fração de segundo, a bola sobe o suficiente para encobrir a goleira. A jogada é formidável. Suspiros e gritos histéricos da torcida. O gol é certo, para coroar a carreira e saudar o público que foi à Arena da Amazônia. A zagueira corre inutilmente, quase se jogando, toda sem jeito. As brasileiras trabalharam séria e duramente para vivenciarem de perto esta glória. Mas a defensora que fechava a primeira trave tem a destreza de correr para o meio da meta, cobrir a saída atrapalhada da goleira russa e tirar a bola com o joelho direito. O último gol de Formiga pela seleção brasileira escapou pela linha de fundo.

Um raro choro no hino nacional, o último como jogadora da seleção. Foto: Lucas Figueiredo/CBF

O lance não faria falta nem para a partida, terminada em 4 a 0, nem para o torneio, vencido pelo Brasil em final diante da Itália por 5 a 3. A oitava edição do evento, pela primeira vez na capital amazonense, chamou a atenção não só por marcar a despedida de Formiga com a camisa nacional, mas também pela estreia de Emily Lima, primeira mulher a dirigir a equipe principal e que venceu os quatro primeiros jogos do novo ciclo.

Mas, se as mulheres eram só alegria ao comemorar a taça ao lado da nova treinadora, Formiga encontrou espaço para se manter exigente. “Eu queria render um pouco mais, queria dar um pouco mais do que eu posso dentro de campo, mas acredito que o pouquinho que fiz ali pode deixar muitos satisfeitos. Minha maneira de jogar é aguerrida, é brigando, perturbando as adversárias, roubando a bola e colocando minhas companheiras na cara do gol. Claro que com título é bem melhor para encerrar a carreira do que com derrota, deixando dúvidas”, disse a jogadora ao Puntero. Antes de sua última partida, a camisa 8 também admitiu ter se emocionado ao ouvir o hino nacional.

“Sempre me segurei, mas como foi o último jogo, tive que soltar. Desde quando comecei na Seleção, na hora que toca o hino é uma emoção muito grande, pensar ali que está representando milhões de brasileiros, na busca de coisas melhores para a modalidade. São tantos pensamentos que vêm na minha cabeça nesse momento, mas a gente tem que ser forte para focar no jogo.”
Homenagens para Formiga em todos os cantos do torneio em Manaus. Foto: Juvenal Dias

Era nítido que Formiga não conseguia desenvolver seu jogo pleno. Uma pancada sofrida contra as costarriquenhas e depois contra as italianas no mesmo local, ambas na primeira fase, fizeram seu rendimento ficar comprometido. Teve que ser substituída no meio do segundo tempo do terceiro jogo para ser poupada para a decisão. Foi anunciada como dúvida para o treino antes da final, mas não só treinou aquele dia, inclusive ajudando a orientar as companheiras na saída de jogo, como disputou os 90 minutos da decisão, demonstrando todas as características que a consagraram: correndo de uma intermediária à outra, se apresentando na direita ou na esquerda para desafogar as zagueiras e laterais, dando carrinhos precisos para desviar ou retomar a bola.

Foi substituída nos acréscimos de sua 160ª partida com a seleção para ser ovacionada pelos mais de sete mil pagantes, por suas adversárias e por suas companheiras, que a abraçaram e carregaram até as reverências no banco de reservas de toda a comissão técnica, suplentes e arquibancada.

“Quando vi lá na placa o 8, me deu uma vontade muito grande de chorar. Parecia que eu estava começando, como minha primeira convocação, mesmo sendo a última vez.”

Todas por uma

A atacante Bia foi artilheira da competição com cinco gols, mas ressaltou sua atuação destacando não só a boa fase, como também o momento de dar adeus à companheira. “É maravilhoso uma atacante sempre estar fazendo gols. Só é um pouco triste pelo fato da Formiga estar se despedindo hoje. A gente não queria isso, queríamos que fosse uma brincadeira, mas sabemos que ela já deu tudo de si, fez seu papel muito bem feito. Esperamos fazer um bom trabalho sem ela em campo, porque dentro dos nossos corações ela sempre vai estar presente. Sabemos que é insubstituível”, exaltou a centroavante, referência no ataque sem a presença de Marta e Cristiane no torneio.

A família acompanhando os últimos passos de Formiga. Foto: Juvenal Dias

Para a torcida, Formiga era o ídolo máximo representado em campo. Marcelo Rodrigues, de 42 anos, empresário residente em Manaus, levou sua esposa Sinara e seus dois filhos para acompanharem de perto a jogadora. “O principal motivo da nossa vinda foi por conta da Formiga. Ela é muito ostensiva no jogo, se impõe. Essa é a diferença dela e é o que está faltando na seleção. Ela vai numa dividida e dificilmente perde. No meio de campo, faz diversas intervenções na bola, para poder levar o Brasil à frente. É muito presente em campo, a bola sempre passa por seus pés”, disse o torcedor. A jogadora, por sua vez, demonstrava entender sua representatividade junto aos fãs.

“A gente acaba percebendo o carinho dos torcedores. Lógico que hoje nossa maior referência é a Marta, sem dúvida, mas podem ter não só uma pessoa, e sim muitas inspirações. Ficamos maravilhadas com esse apoio porque, quando comecei, não víamos essa devoção e hoje percebemos que o povo brasileiro abraçou ao futebol feminino.”

A projeção da meio-campista é atuar por mais dois ou três anos por clubes. Pouco depois do fechamento desta reportagem, no final de janeiro, ela foi anunciada como novo reforço do Paris Saint-Germain, onde estreou com gol nos 11 a 0 sobre Tours, em 19 de fevereiro, pela Copa da França. Na seleção, a ideia é a beira do campo, realizando cursos na CBF e buscando trabalhar não só na adulta, mas também na base. “O mesmo sonho que tive eu já começo a pensar nas outras que também lutam, têm dificuldade, enfrentam preconceito dentro de casa e nas ruas para um dia estar no meu lugar”, afirma Formiga.

Emily Lima ressaltou que as novas meninas terão de assumir a responsabilidade de substituir uma jogadora dessa qualidade e importância. O treinador italiano Antonio Cabrini disse que não vai ser fácil repor rapidamente alguém de tamanho nível. Para isso, Formiga deu a última resposta em sua entrevista coletiva final: “Hoje saio porque vejo meninas boas. Antigamente minha preocupação era sobre quem ficaria no meu lugar. Hoje tem Andressinha, Franciela, outras do sub-20 com muito talento”. E saiu de cena.

O futebol brasileiro ovacionando quem vestiu a camisa da seleção por mais vezes. Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Longa caminhada

Com 15 anos, a baiana Miraildes Maciel Mota era suplente do campeão estadual local em 1993, o Euroexport Bahia. De lá, o time foi disputar no Rio Grande do Sul a Taça Brasil, torneio promovido pela CBF visando a garimpar jogadoras para que o então técnico da seleção, Ademar Fonseca Junior, apelidado de Dema por suas comandadas, pudesse compor um time já pensando no Mundial da categoria que ocorreria dali a dois anos, na Suécia.

Formiga se destacou mesmo vindo do banco. “Ela entrou no decorrer de um jogo da competição. Eu olhei aquela menina e pensei: Poxa vida, que talento! Ela jogou os 20 minutos finais e eu realmente detectei um talento natural na jogadora. Foi quando a coloquei na minha lista, mas não a convoquei na primeira turma que fez parte da preparação do Sul-Americano, que classificava para a Copa do Mundo. Eu a convoquei numa segunda chamada, para treinamentos, e ela é adotada quase como uma mascote das atletas. Para definir esse grupo para o Mundial, estava muito claro que a Formiga estaria no elenco”, conta Dema.

Brasil campeão no Pan-2007, em casa: 5 a 0 sobre os EUA no Maracanã. Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Sua primeira aparição com a camisa da Seleção foi na derrota para o Japão por 2 a 1, na segunda partida da fase de grupos, no dia 7 de junho de 1995. “Logicamente teve a instrução tática do que ela iria realizar no jogo, mas o que me marcou bastante é que tivemos que trabalhar a questão emocional, já que era ainda uma menina, muito jovem. Eu falei para ela: Acredito muito no seu futebol, vai lá e faça disso uma brincadeira. E ela o fez”, recorda o treinador. O Brasil perdeu também o jogo seguinte e não se classificou para a próxima fase, mas a semente da Formiga estava plantada. Essa pequena participação, aliás, lhe garantiu um recorde alcançado ano passado, com o maior número de Copas do Mundo disputadas por um atleta, ao lado da japonesa Homare Sawa, ambas com as mesmas seis edições.

Aquela época, pouco após as críticas — depois retratadas — do diretor da CBF Luiz Miguel Estevão, rendeu também uma das principais amizades de Formiga, a atacante Nilda Ismael do Nascimento, a Nildinha. “Eu conheci a Formiga quando fui convocada para a Olimpíada de Atlanta e convivo com ela desde então. Eu tinha vinte e poucos anos. A Formiga era uma menina muito bacana, muito miudinha, muito formiguinha mesmo, e muito alegre”, recorda hoje, aos 44, a parceira que inclusive abriga Formiga quando de passagem pela cidade de São Paulo.

Daquela primeira Copa, Formiga seguiu na seleção com uma vaga quase que permanente, além de passar por vários grandes clubes do cenário nacional. Já defendeu o São Paulo em boa parte dos anos 90, o Santos no ano de 2002, o Palmeiras no começo de 2011. Esteve em times que marcaram época, como o Saad em 2007 e o São José de 2011 a 2015. Dentre as principais conquistas por clubes estão a Copa do Mundo de 2014; o tricampeonato da Copa Libertadores em 2011, 2013 e 2014, inclusive marcando gols nas semifinais da primeira e da última conquista, respectivamente contra Santos e Cerro Porteño; três Copas do Brasil seguidas, de 2011 a 2013; e duas Taças Brasil, de 1997 e 2001.

Pelo São José, a Libertadores rendeu uma ida ao Japão, com título mundial sobre o Arsenal. Foto: Divulgação/São José

Lá fora, jogou a temporada de 2004/05 pelo Malmo, da Suécia, e no ano seguinte foi contratada para atuar nos Estados Unidos, no New Jersey Wildcats, quando teve uma de suas melhores temporadas em termos de artilharia, jogando 12 partidas e marcando 13 gols. Isso lhe garantiu um novo contrato no ano seguinte, no recém-fundado Jersey Sky Blues, clube em que jogou pouco e não conseguiu repetir o destaque do ano anterior. Voltou para o Brasil para terminar 2007 e jogar 2008 por clubes do interior de São Paulo, Saad e Botucatu. Depois disso, voltou aos gramados norte-americanos, no FC Gold Pride e também pelo Chicago Red Stars. Permaneceu apenas uma temporada em cada. Ao receber a reportagem do Puntero Izquierdo, Formiga contou como foi o período no qual disputou campeonatos fora do país.

“A Suécia foi importante, foi o primeiro contato atuando lá fora, aprendi a maneira de elas jogarem duro realmente. Não tem essa de ficar no chão, se remoendo, chorando, tem que levantar rápido. A disciplina tática delas é monstruosa. Sem contar que foi o primeiro contato com uma cultura diferente, já abriu minha cabeça para muitas coisas como saber respeitar a decisão dos treinadores, porque muitas vezes aqui no Brasil, não digo só no feminino, mas no masculino também, às vezes você sai insatisfeita da partida que o treinador te tirou, mas talvez esteja pecando em alguma coisa. Nos Estados Unidos, joguei vários anos. Muitos falam que elas são ‘robotizadas’, mas não. São obedientes taticamente, elas respeitam aquilo que o treinador passa, elas têm paciência de que uma hora a bola vai chegar. Quando a gente sai e retorna, voltamos com essas informações que fazem melhorar nosso futebol”.
A última taça e o abraço de Andressinha, símbolo da nova geração. Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Enquanto isso, alcançou marcas e colocações em torneios significativos na seleção. Superou o capitão Cafu e é a brasileira que mais vezes vestiu a camisa verde e amarela, com incríveis 160 partidas e 23 gols marcados, dois deles em Copas do Mundo, um nas quartas-de-final da histórica campanha de 2007 e o outro na estreia de 2015. Com esse fardamento, se tornou duas vezes medalhista olímpica, as pratas em Atenas-2004 e Pequim-2008. Foi vice-campeã da Copa do Mundo de 2007, disputada na China, e que teve a Alemanha como vencedora. Teve três ouros em Jogos Pan-americanos (Santo Domingo-2003, Rio de Janeiro-2007 e Toronto-2015), além de uma prata (Guadalajara-2011). Ainda esteve presente em cinco dos seis títulos sul-americanos. Para completar a lista, teve uma indicação entre as dez melhores jogadoras do ano em meados dos anos 2000 e foi a primeira mulher a ganhar o tradicional troféu Bola de Prata, em 2016, pelo conjunto da obra realizada.

“Não, eu não esperava tudo isso. Se eu chegar para você e falar que eu coloquei na minha mente que iria ficar tantos anos na seleção… com certeza não pensei, e até porque eu nem imaginava chegar à seleção”.

Classe, força e coletividade

Quem é a Formiga jogadora, afinal? Para responder a esta questão, procuramos especialistas em futebol feminino e companheiras de bola, unânimes em destacar características como visão de jogo, polivalência e combatividade na maior Formiga a pisar nos gramados.

A ex-jogadora Juliana Cabral, de 35 anos, atuava como zagueira e foi capitã da seleção de 2001 a 2004. Uma das principais lembranças vem da decisão do Pan de Santo Domingo, contra a equipe do Canadá: “A Formiga foi a jogadora que deu o passe para a Cristiane fazer o golden goal. Se eu fechar meus olhos, me lembro como se fosse hoje. A Formiga fazendo aquele passe com tamanha classe e categoria que parece que ela pega aquela bola e joga com a mão, para cair do jeito que caiu nas costas da defesa canadense. Foi uma jogada linda, sabe como jogada de futebol de salão que você enfia o pé por baixo e levanta essa bola? A impressão que eu tenho é essa, tamanha sutileza: não é que ela bate na bola, ela levanta a bola com o pé direito. Para mim, a Formiga foi a melhor jogadora com quem eu joguei, a jogadora mais completa”.

'A mais completa': repertório de Formiga sempre impressionou as companheiras. Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Aline Pellegrino, 34, foi a defensora que liderou a equipe entre 2004 e 2013 e se tornou capitã depois da Juliana. Após anos atuando ao lado da companheira, também se rende ao futebol de Formiga. “Ela bate tanto com a perna esquerda e com a direita, tira a bola e faz lançamento de 65 metros nos dois lados, com as duas pernas, tem um poder gigante de marcação, de antecipação, de roubar a bola. O fato é: a Formiga se adaptaria e se adapta a qualquer situação tática. Onde ela estiver ela vai jogar bem, porque ela tem característica para tudo isso. Ela pode ser uma volante mais avançada, uma meia chegando, como aconteceu em 2007, que ela chegava bastante, ela pode ser o cão de guarda para marcar para caramba, mas tem qualidade para sair jogando como primeiro volante. É uma jogadora completa, você pode colocar onde você quiser, pode colocar na zaga, no ataque, na lateral, ela irá render”.

Para a jornalista Lu Castro, especializada em futebol feminino e responsável pelo Futebol para Meninas, o que chama atenção em Formiga é uma aparente obsessão em superar os próprios limites. “Que conste: é preciso guardar o DNA da Formiga. Isto é o que todos os envolvidos com a modalidade dizem a respeito daquela que considero nossa maior atleta do futebol feminino”, diz Lu Castro. “E não é à toa. Além de uma visão de jogo espetacular, a disciplina física da Formiga é algo realmente fora do comum. É a atleta que se dedica aos treinos mesmo que esteja lesionada, o que denota uma certa necessidade de superar os próprios limites. Dentro de campo, Formiga é coletiva no sentido mais amplo da palavra. Ela não se atém às funções de sua posição, entendendo que aonde quer que precisem de apoio, lá ela estará. Como história, trajetória e dedicação, Formiga é, até o momento, insuperável. Se nunca ganhou uma bola de ouro ou foi devidamente homenageada pelas entidades gestoras do futebol brasileiro e mundial, é, de longe, a atleta do futebol feminino mais admirada e bem quista por toda sua simplicidade, humildade, alegria e longevidade”, completa.

O também jornalista Rafael Alves, criador da página Planeta Futebol Feminino, diz não lembrar de ver, algum dia, Formiga ser substituída de uma partida por cansaço físico. “Deve ter acontecido, mas eu sinceramente não lembro. A Formiga não aparece tanto para o público, mas é ela quem carrega o piano. E faz isso de forma espetacular. Combativa o tempo inteiro, com qualidade para sair jogando, fundamental na recomposição defensiva, tem esse senso coletivo que talvez seja a grande marca dela. Na Seleção que conquistou a prata poucos falam dela, mas tanto em 2007 no Mundial quanto nos Jogos de 2008, o sucesso daquela seleção passou por ela também”, afirma.

Integrante do podcast Dibradoras, a jornalista Roberta Nina destaca o milagre da multiplicação de Formiga no campo de jogo, além do seu papel no fortalecimento da modalidade no Brasil. “Não é uma jogadora violenta, enfrenta as adversárias com lealdade, interceptando jogadas no meio de campo e roubando a bola sem cometer faltas. Seus lançamentos para o ataque têm classe e até se arrisca um pouco na pequena área, tentando marcar gols. Quando as adversárias partiam em contra-ataque [na seleção], ela é quem acompanhava a jogada até o final na maioria das vezes e até nos salvava em cima da linha. Ou seja, ela ocupava todos os espaços dentro de campo, se multiplicava”, diz Roberta. “Espero que a CBF reconheça o feito de Formiga e promova uma despedida digna de craque, como ela merece. Um encontro de todas as gerações que jogaram com a atleta em um jogo festivo para que ela possa, de fato, se despedir dos gramados com reconhecimento e aplausos. É o mínimo que a entidade que pouco faz pelo futebol delas possa oferecer para essa guerreira que conquistou marcas jamais alcançadas por outros atletas”, reivindica.

Volante do Rio Preto, Jéssica de Lima destaca que Formiga é uma mescla entre duas eras do futebol. “Ela é a mistura do jogo clássico com o jogo da atualidade, sabe a hora de jogar ‘feio’ e a hora de jogar ‘bonito’. Taticamente quase perfeita, sabe a hora de jogar à frente da linha da bola, e quando deve apenas dar a opção para uma transição defensiva perfeita. Ataca e defende com a mesma volúpia. O mais interessante e espetacular é como ela consegue manter a qualidade técnica, tática e física em alto nível”, diz a jogadora.

Simone Jatobá atua no Metz, da França, e avalia que Formiga vai emprestar qualidade ao futebol do país, com sua chegada ao PSG. E também questiona o fato de ela nunca ter concorrido à melhor jogadora do mundo. “Às vezes, a Formiga é invisível em uma partida, comparada àquela menina que marca os gols, mas taticamente, a doação para a equipe se vê nos passes e nas bolas que rouba. É uma pena que a Formiga nunca tenha concorrido como melhor jogadora. Eu acho que os critérios deveriam ser mais aguçados pois para uma melhor jogadora não basta somente fazer gol, e para mim a Formiga é uma jogadora completa”, aponta.

Companheiras exaltam Formiga em sua despedida da Seleção. Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Formiga por ela mesma

Mas, diante dos elogios, o que Formiga mais vê no próprio futebol? ”Quando estamos com a bola, atacando, já procuro saber as opções que tenho caso a bola chegue no meu pé. Procuro estudar onde vou colocar a bola antes dela chegar, para quem vou dar o passe, e já tento orientar minhas companheiras também. Essa concentração comecei a ter muito rápido, cedo, com o seu Zé Duarte (técnico falecido em 2004 que comandou a Seleção no período pós-Dema e antes de Renê Simões), que foi uma das pessoas responsáveis por trabalhar minha deficiência com a perna esquerda. Terminava o treino, eu ficava batendo bola na parede com o pé esquerdo, exaustivamente. Falava para ele que iria conseguir e ele também acreditava nesse feito, por isso que tenho essa facilidade de bater com as duas pernas na bola”.

Líder sem precisar ser capitã e versátil como poucas, Formiga é dona de uma genética privilegiada e um condicionamento invejável. Nunca teve uma lesão que a afastou por muito tempo dos gramados. Mesmo assim, como qualquer atleta de alto rendimento, teve seus problemas com entorses e pancadas. Romeu Castro, ex-gestor da seleção feminina na época dos treinadores Ademar e Zé Duarte e presidente do Saad enquanto a jogadora atuava pela equipe, conta melhor essa história de departamento médico: “Era uma atleta que não admitia ficar fora de jogo de maneira alguma. Queria tirar a Formiga do sério era levá-la para a fisioterapia e dizer que ela perderia uma partida. Ela levava pancada para caramba, era uma jogadora leve e ágil. Algumas vezes nós combinávamos com a supervisora para levar para a fisioterapia, mas quando via, a Formiga fugia do departamento médico para ir treinar e falava que estava liberada. Ela não queria ficar doente de jeito algum. Ela chegava para o seu Zé Duarte e dizia que estava boa. Ela tem um poder de recuperação impressionante, a genética ajuda”, lembra o hoje vice-presidente da Federação de Futebol do Mato Grosso do Sul.

A atleta confirma: “Eu fujo. Minha dor melhorou, supondo que era 70 e foi para 30, já estou no campo e quero treinar, não tenho paciência para ficar de fora”.

Olha o bolso, seu Zé

“Muitas vezes ela é a dona do batuque. Quando estava perto da Formiga, eu adorava quando ela imitava o Mussum, ela era sensacional. Quando eu comecei, ela já era, apesar de jovem, uma jogadora exemplo dentro do futebol, uma referência. Ela brincava muito com o seu Zé Duarte, por exemplo. Brincava de tirar as coisas do bolso do seu Zé e não falava nada. Ele respondia: Ah, bateram minha carteira”, recorda Juliana Cabral, hoje comentarista. O ex-diretor Romeu Castro também menciona a história da carteira do técnico Zé Duarte em seu depoimento sobre a Formiga: “Ele tinha um carinho paternal por ela. Ele levava uma bolsinha com um dinheiro, já que ele vinha de Campinas, era dinheiro do pedágio. Mas deixava um extra para comprar um doce para a Formiga”. Doce? Ninguém melhor que a própria para explicar a história.

Tímida? Quieta? Não para as parceiras da bola. Foto: Fifa

“Na verdade, nunca gostei de doce, nunca fui louca por doce. Mas o seu Zé Duarte tinha uma bolsinha que era onde colocava os trocados que ele sempre pagava pedágio saindo de Indaiatuba e indo para Campinas. O Sérgio, que era preparador de goleiras, o levava e trazia todo santo dia. A Kátia Cilene e eu começamos a bolar de pegar essa bolsinha dele para esconder. Sempre ele falava: “Quem achar, ganha um doce”. Eu chegava com a bolsa e dizia: “Aqui está, seu Zé”. Ele não sabia que era eu que tinha pegado. Então ele vinha com o doce, mas eu dava para a Kátia. A gente brincava com ele, colocava a mão no bolso e pegava essa carteirinha dele. Aí deixou de dar doce porque descobriu a verdade”.

Formiga mora em Salvador com sua mãe, mas quando viaja para São Paulo fica hospedada na casa da atacante e amiga antiga, Nildinha. Ambas têm projetos em vista, pensam em montar uma escola de futebol, uma franquia com o nome da Formiga — para tanto, estão procurando uma residência próxima à casa da atacante. E até por conta de treinamentos a baiana prefere ficar na cidade paulista. “Ela é muito aplicada, muito determinada para treinar todo dia. Até hoje ela é assim. Tem dia que ela me chama para treinar de manhã, eu estou morta de preguiça, mas ela chama: ‘Vamos mulher, vamos treinar’, mesmo eu querendo parar de jogar, ela gosta muito de treinar, acho que é por isso que está arrebentando até agora, porque gosta de trabalhar”, confessa Nildinha, que serviu à seleção nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 até Atenas 2004 e era companheira de quarto da meio-campista. Elas também atuaram juntas no Saad, no América-RN e no Santa Isabel.

Além de puxar a companheira para o treinamento, Formiga ajuda nos afazeres domésticos, principalmente na hora de cozinhar: “Ela cozinha bem para caramba! Minha filha, eu e amigos mais próximos, que sempre estão por aqui, adoramos o feijão que ela faz, com o tempero baiano, é muito bom. Ela também faz frango com batatas, outro dia ela fez tacos. Nós adoramos que ela faz essas comidas por aqui”, revela a atacante. Ao ser questionada sobre suas habilidades culinárias, Formiga respondeu: “Imagina, não sei cozinhar perfeitamente, eu faço um feijão. Quando vou na casa dela, sempre pedem para eu fazer e eu faço, sei que elas gostam. Para comer sozinha, a ‘gororoba’ é boa, mas para fazer para os outros é um pouco mais difícil, tem que se dedicar para sair melhor. Melhor mesmo é dominar a bola. Mais fácil que a faca e o garfo.

Outra vertente que a amiga revela é o lado musical que Formiga tem: “Gosta de roda de samba, de cantar, de dançar, desce até na boquinha da garrafa se deixar. É baiana, dança bem. Ela que puxa as músicas. Ela gosta de todos os tipos, mas prefere as mais antigas, samba de raiz, Zeca Pagodinho, Revelação, Fundo de Quintal. Gosta de sertanejo também, Bruno e Marrone, Zezé de Camargo e Luciano, até ‘Boate Azul’. Ela comprou um cavaquinho, já tem uns anos, para aprender a tocar, que ela acha lindo. Mas o cavaquinho ficou na mala guardado, nunca aprendeu nada. O negócio dela é a bola”.

Craque atemporal

Agora, é inevitável que todo o mundo do futebol feminino faça um balanço da carreira de Formiga e projete o time brasileiro sem sua mais antiga jogadora. Jonas Urias, técnico que trabalha na Associação Desportiva Centro Olímpico, é um dos que se rende ao legado de Formiga.

“Sabemos que o futebol sofre mudanças ao longo do tempo. Conceitos e características do jogo sofreram mutações, hora por novas leituras táticas, outras por jogadores acima da média. Sendo assim, a Formiga é craque do passado, presente e futuro. Clássica. Com gestos técnicos perfeitos. Vasto e refinado repertório de fundamentos. Quando abre sua ‘caixa de ferramentas’, ela seleciona o instrumento ideal para todas as situações que o jogo a impõe. Desde a natural ambidestria para passes, chutes e lançamentos. Aos desarmes irritantemente (para os adversários) precisos. Seria uma daquelas lendas, que através da pura técnica, até hoje são ovacionados. Moderna. Quanto mais tático ficou o jogo, mais ela se destacou. Sua adaptação à velocidade e intensidade das ações foi chocante. No meio campo, sua leitura, interpretação e solução das jogadas, são geniais! Ela parece levitar no gramado. Parece já saber aonde vai a bola. Sempre um, dois, até três passos à frente das adversárias. Características que a transformaram em uma ‘camisa 8’ lendária. Líder. Não foram com palavras e lindos discursos que Formiga tornou-se líder. Sua atitude em campo, capaz de inspirar até as mais frias adversárias, fez dela um exemplo que transcende gerações. Formiga não estava à frente do seu tempo. Estava à frente de todos os tempos”.

Nosso repórter atrás dos últimos momentos de Formiga com a amarelinha: a imagem final. Foto: Juvenal Dias

Todos os entrevistados, fossem ex-jogadoras, atuais companheiras de Seleção, técnico, dirigente ou torcedores, foram unânimes em afirmar o quanto a Formiga irá fazer falta para a Seleção. É a história do ídolo que deixa o gramado vencido pelo tempo: “Infelizmente chegou meu momento, assim como chega para todas. Não vou ficar aqui até 50 ou 60 anos, eu sei que chegou a hora, porque o corpo reclama. Fico, por um lado, tranquila, pois creio que dei meu melhor aqui dentro e por dar continuidade ao meu trabalho lá fora. Ruim seria se eu não continuasse acompanhando o desenvolvimento do futebol feminino, da seleção. Por outro lado, bate realmente uma tristeza, o coração fica partido, você não quer sair daquilo que fez por tantos anos. Vai fazer falta, mas é questão de se preparar antes para tomar essa decisão, e foi o que fiz. Ter tempo de se dedicar a outras coisas que já tenho como sonho, tenho desejo de fazer cursos, de trabalhar esse lado fora de campo, pensando em quando eu realmente parar de jogar, preciso ter esse tempo”, pondera a jogadora.

“Não desistam de lutar pelos seus sonhos. Acreditar que vai chegar lá, principalmente essas meninas novas que estão vindo agora. Que acreditem realmente nesse seu talento, apostem e vão à luta”. Depois do recado final, Miraildes Maciel Mota, sai de cena na camisa que melhor vestiu, porém deixa claro que sua batalha para melhorar o esporte deve continuar. Não mais com as chuteiras e o toque refinado na bola, mas com palavras e ações à beira dos gramados daqui por diante. De uma forma ou de outra, mantendo seu trabalho de Formiga.

Batucada no vestiário do PSG — Formiga, ao fundo, se diverte ao lado da atacante Cristiane. Foto: PSG

*Juvenal Dias, 29 anos, é jornalista formado pela Universidade Mackenzie e atuou durante seis anos e meio no diário Lance. Atualmente mantém uma coluna no site Surto Olímpico. Reportagem selecionada na chamada pública realizada pelo Puntero Izquierdo em 2016, com triagem de um júri de jornalistas convidados e decisão final dos leitores que financiam o projeto.