Na berlinda da rivalidade

Sob o prisma da convergência entre futebol e política, as maiores torcidas de Belo Horizonte apropriaram-se de uma disputa política da América Latina para encenar suas rivalidades dentro das arquibancadas

Puntero Izquierdo
Jun 26 · 12 min read

por Diogo Henrique da Silva

A discussão sobre o esporte como manifestação política teve um episódio importante quando o apresentador da Globo, Tiago Leifert, se manifestou contra isso, em 2018. A posição de Leifert recebeu críticas de pessoas como Jamil Chade, que expôs as relações escusas entre CBF e o segmento político, e do ex-jogador, hoje comentarista, Walter Casagrande: “Hoje, eu não poderia ter feito o que fiz? A manifestação do Corinthians em prol da democracia, assim como os Panteras Negras na Olimpíada de 1968, contribuíram para um mundo melhor.” escreveu em sua coluna na revista GQ.

A forma como a imprensa esportiva enxerga o futebol pode ter vínculo com a maneira como as pessoas interpretam o esporte. “O futebol deve ser visto como um meio, não como um fim. O futebol não pode ficar preso à política do pão e circo. O bacana do esporte é quando através dele as pessoas passam a refletir e, nesse contexto, é fundamental que elas entendem o papel político. Elas não podem ser alienadas a ponto de achar que o futebol é o mundo à parte, porque não é.”, analisa o professor universitário e comentarista televisivo, Celso Unzelte

Reconhecendo a necessidade de manter viva a memória do futebol para que facilite a interpretação e a complexidade do espaço social que o esporte ocupa no país, Unzelte foi curador e um dos responsáveis da mostra “Clássico é clássico e vice-versa”, exposição que ficou em cartaz, no Museu do Futebol em São Paulo, de setembro do ano passado até fevereiro de 2019. O objetivo da exibição era retratar as maiores rivalidades do país. “Eu achei bem pertinente à exposição porque mostrou até aonde pode chegar uma rivalidade. A rivalidade transcende essa coisa do futebol, acaba indo para o lado político. Uma torcida sempre irá para o lado oposto da outra.”, concluiu.

Das várias peças expostas, uma desperta curiosidade, justamente, pela perspectiva política. Para representar o maior clássico de Minas Gerais, os organizadores optaram por utilizar a logomarca das principais organizadas de Atlético e Cruzeiro, que recorrem a personalidades políticas. Um segmento da Galoucura, do Atlético Mineiro, tem o René Barrientos como símbolo, enquanto o Che Guevara é empregado como emblema da Máfia Azul, do Cruzeiro. Mais especificamente, a Galoucura Contagem e o Comando Guerreiro do Eldorado, ambas localizadas em Contagem, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Coordenador da pós-graduação em antropologia social e professor adjunto do departamento de Ciências Sociais da UFSCar, Luiz Henrique de Toledo estuda tribos urbanas, entre elas as torcidas organizadas. Para ele, os símbolos, no aspecto esportivo, pertencem a um macrocosmo e são capturados pelas ações e sentimentos, e colocados à prova da significação todo o tempo. “São metaforizados e criativamente utilizados e nem sempre revelam relações simetrizadas do tipo nós contra os outros. Dizer, portanto, que remetem unilateralmente a uma qualidade (temor ou respeito) é perder toda a duração dessas relações que se desgastam, se renovam, mudam.”.

As rivalidades no futebol constróem-se por um processo de alteridade, atuam como um movimento de interdependência, em que se afirmam na tentativa de negação do outro. “Em muitos casos, as escolhas (dos signos) não consideram o peso político que possam ter. Esse caráter ‘não sério’ da produção da cultura imagética torcedora não pode ser deixado de lado nesses jogos retóricos e expressivos. Quando digo ‘não sério’, não estou de modo algum imbecilizando esses torcedores (ou chamando-os de ‘alienados’), mas tão somente dizendo que há aí um fluxo de experimentações criativas…”, completa o autor do livro “Torcidas organizadas de futebol”.

A rivalidade apropriou-se da história, que nem faz parte dos acontecimentos cronológicos de Minas Gerais e do Brasil, para fazer valer sua disputa. Em 1967, o líder revolucionário de esquerda, argentino, Ernesto Guevara foi assassinado a mando do ditador de direita, general boliviano, René Barrientos Ortuño. Mais de cinquenta anos depois da morte de Guevara, esses personagens são reverberados em BH encenando uma rivalidade futebolística.

O Guerrilheiro Heroico conquistou as arquibancadas

A origem do antagonismo entre essas torcidas organizadas se iniciou em 1989, quando três amigos cruzeirenses do bairro Eldorado, em Contagem, decidiram constituir um grupo, que se tornaria um dos pilares da Máfia Azul, principal organizada do Cruzeiro.

Ainda adolescente, Léo Moita, produtor de vídeo e integrante ativo da torcida, disseminou para outros companheiros de arquibancada seu desejo de criar um coletivo de torcedores na região onde morava. “A princípio, a gente tinha uma relação com a turma da pichação, o que era comum para aquela época, e fundamos um ‘bonde’. A partir desse instante, decidimos acompanhar a Máfia e com isso tornou-se necessário a formulação de um nome.” A alcunha teve influência da Torcida Jovem do Flamengo, que passou a camuflar os uniformes produzidos pela agremiação, e dividiram-se em pelotões, revelando uma inspiração militar. Não por acaso, o slogan era “Exército Rubro-Negro”.

Ao verificar a ideia que circulava no Rio de Janeiro, a turma se inspirou na concepção bélica e decidiu batizar com o termo comando.“A gente optou por utilizar o conceito de comando. E, então, ficou o nome de Comando Guerreiro do Eldorado. Na pichação era empregada a sigla CGE Naquele período, tinha até atleticanos que pichavam a nossa identidade”. Para Moita, no início dos anos 1990, a torcida do Cruzeiro muda de patamar, tanto na questão numérica como no comportamento. “Naquela conjuntura a torcida do Cruzeiro ainda era mais calada.Com a chegada da nossa galera, a visão do comportamento no estádio é alterada. Implementamos uma conduta mais povão, de ser uma ideia mais para frente, de preocupação com o canto, com a torcida, e também de dominação. Nossas ações foram de vital importância para a consolidação da CGE”. O desempenho em campo, com títulos, impulsionou um vertiginoso crescimento da torcida.

Em 1992, o Cruzeiro sagrou-se bicampeão da Supercopa Sul-Americana, em cima do Racing, da Argentina. No ano anterior, o clube tinha batido o River Plate. Nessas circunstâncias, o Comando Guerreiro do Eldorado tentava emplacar um ícone definidor da torcida. Antes do Che Guevara, chegaram a utilizar a figura da Morte e, também, o personagem de videogame Sonic.

“Veio a ideia de usar como símbolo um guerreiro latino. Lá no Rio, o pessoal usava Mao-Tsé, Saddam Hussein, Aiatolá Khomeini. Começamos a usar o Che, fizemos uma bandeira e virou um sucesso na arquibancada.”, conta Moita.

Embora tivesse caído no gosto da maioria dos cruzeirenses, uma parte da torcida não gostava porque achava dispensável a associação com personalidades externas ao clube, e outra por não aceitar a ideologia que o Che Guevara representava.

Representante da crítica ao sistema capitalista, a figura de Che Guevara carrega poderoso valor ideológico. Partidos, coletivos e organizações identificam-se com as bandeiras defendidas pelo revolucionário argentino. Diego Armando Maradona, é notório, o tem tatuado no corpo. Outras torcidas, como a do Besiktas da Turquia, a Independente do São Paulo e a Jovem Fla, também se apropriaram da imagem do argentino. Apesar do aspecto político, a foto icônica tirada por Alberto Korda passou de símbolo rebelde para ícone pop. O Comando Guerreiro do Eldorado está prestes a completar 30 anos de existência, e os integrantes que fazem parte da história da entidade têm o conhecimento da expressão do símbolo que usam.

“A turma desenvolveu a torcida já com a noção do significado. Influenciou no empoderamento de cada membro ao explicitar que ele não precisa ser um submisso, no sentido de aceitar ordens sem questionar. Isso é um ideal interno de torcida e nem tanto no plano político.”, diz o líder da torcida.

Por ser composta por variadas pessoas, os mais distintos pontos de vista são encontrados. “A torcida é um micro da sociedade, nada é unânime. Não dá para colocar todo mundo em prol de uma ideologia política. Até porque a pauta é o Cruzeiro.”, argumenta Moita. Em ocasiões de pleitos eleitorais, a torcida age de maneira independente. No ano de 2014, por exemplo, a CGE não seguiu a orientação da Máfia Azul de apoiar o Aécio Neves e preferiu se posicionar a favor da ex-presidenta Dilma Rousseff.

Mas em tempos em que a sociedade não tem espaço para tolerância a rotulação pode ser problemática. “Aconteceu recentemente de duas ou três pessoas pararem de usar nossas camisas em virtude da escolha política.”, relata o líder da torcida. Para ele, o papel da torcida transcende o campo futebolístico e atinge o plano social. “Somos mais que uma torcida, muitas vezes temos o peso e papel de associação comunitária. Participamos da vida pública e do setor privado da cidade, graças às ações sociais que realizamos.” explica Léo Moita.

“Nós, como uma turma organizada, vendíamos muitas roupas para toda a torcida do Cruzeiro. Portanto, o símbolo foi espalhado rapidamente e com isso veio o respeito. Uma ideia periférica atingiu o coração dos cruzeirenses. Prova do êxito da nossa criatividade foi quando a torcida rival passou adotar de referência o causador da morte do Che.”, orgulha-se.

Barrientos, uma identificação que não atinge a política

Se um lado identificou-se com o personagem político argentino, o outro enxergou a possibilidade de confrontação e de imposição adotando, precisamente, o seu algoz.

A Galoucura Contagem, fundada em 1996, viu a chance de expandir o conceito de torcida aproveitando a imagem do René Barrientos. Kim, presidente da torcida e membro desde 1999, não considera que a rivalidade fique circunscrita aos limites da discussão política.

“O fato de a gente ter escolhido o Barrientos para nos representar, nada tem a ver com a política. As pessoas que estavam na liderança da 13ª Brigada, a ramificação da Galoucura aqui de Contagem, são pessoas de esquerda”.

A intenção ao escolher o militar boliviano foi uma tentativa de inovar e se distinguir do que já estava estabelecido nas outras organizadas, o que revela a única proposta de competir com o adversário pelo aspecto da rivalidade e não de princípios. Em resposta à Máfia Azul, a coordenação começou a pesquisar para ver quem tinha tirado a vida do Che Guevara e chegou ao nome do René Barrientos.

A marca não ficou apenas nas faixas, bandeiras e uniformes. Ex-integrante da Galoucura e atual membro da G.D.R. Alvinegra, Garra Determinação e Respeito, MC Teco compôs algumas músicas que enaltecem o ditador da Bolívia em função de ter sido o responsável pelo assassinato de Che Guevara. Em uma de suas canções, o cantor aponta o ato do general boliviano e o associa a torcida: “Eu te apresento quem matou o Che Guevara/ Esse cara é 22, só fez loucura, René Barrientos 100% Galoucura”.

A imagem é utilizada meramente por conta da disputa com o rival. Kim acha que contextos devem ser entendidos, e a criação de rótulos acaba depreciando o objetivo de certos intuitos. Segundo ele, em se tratando de movimentos de torcida, a causa sempre é o futebol. Em clássico contra o Cruzeiro realizado no Mineirão, em setembro do ano passado, em jogo válido pelo segundo turno do Campeonato Brasileiro, a Galoucura foi responsabilizada por um grito homofóbico entoado por parte da torcida atleticana no estádio: “Ô cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar viado”.

“Fomos chamados três vezes no Ministério Público. Dos dez diretores da torcida, todos são de esquerda. O pessoal, torcedores comuns, começou a cantar ali e colocaram como se a gente tivesse incentivado. E se você fosse condicionar a questão do René Barrientos ao canto, por ele ter sido de direita e militar igual ao Bolsonaro, era para termos apoiado.”, conta Kim.

A origem da torcida e de parcela dos componentes pode ter determinado a forma de percepção sobre o mundo. O presidente da Galoucura Contagem atribui que a trajetória de vida humilde pode ter despertado uma sensibilidade maior perante o social.

“Como a gente veio de baixo e acompanha a situação de desigualdade, nós sempre torcemos para que o governo veja a condição dos mais necessitados e dos menos favorecidos e nós fazemos a nossa parte com diversas ações sociais”.

A Galoucura Contagem passou a ter destaque devido à ideologia das pessoas que estavam envolvidas no movimento. “Muitas regionais colocam a ‘quebrada’ na frente da torcida. Aqui, nós colocamos a Galoucura em primeiro lugar, para depois olharmos para a Galoucura Contagem.”, assegura Kim. A hierarquia é respeitada por conta da lógica empregada: a Galoucura existe por causa do Atlético Mineiro e a Galoucura Contagem só subsiste por conta da Galoucura.

Embora a finalidade da torcida seja apoiar o Atlético Mineiro, há uma preocupação com as entidades organizadoras do futebol. Em 2012, o Atlético Mineiro foi multado pela CBF em razão de a torcida ter produzido um mosaico com a sigla da confederação de cabeça para abaixo com ascores do Fluminense, junto a uma faixa com o dizer “o apito é tricolor carioca”. “A política interfere no jeito com que o torcedor aprecia seu time. Tem hora que sufocam a liberdade de expressão.”, opina Kim.

Medidas desestimuladoras e coercitivas fazem com que o torcedor se afaste dos estádios. “Você vê agora, por exemplo, a covardia que a Conmebol está fazendo com o preço dos ingressos para a Copa América. Muitas pessoas sonhavam em ver o Messi, o Cavani, mas devido ao preço absurdo não conseguirão acompanhar seus ídolos.”, indigna-se o presidente da torcida. Os bilhetes mais baratos custam 120 reais, a inteira.

Bolívia e Argentina na cidade onde a história virou rivalidade

Cidade-sede da Copa América, Belo Horizonte receberá o total de cinco jogos da competição. Pela primeira fase, a capital mineira recebeu na mesma semana as seleções da Argentina e da Bolívia. No dia 19 de junho, o atual vice-campeão do torneio empatou em 1 a 1 com o Paraguai para um público de 38 mil pessoas.

Para matar a saudade de assistir a sua seleção natal no campo, Darío Reares dirigiu-se ao Mineirão acompanhado da filha e do genro. O psicólogo tem mais tempo vivendo no Brasil do que na terra em que nasceu. Dos 47 anos que tem, trinta e dois foram passados em solo brasileiro. Sabendo do peso do futebol na sociedade, o torcedor do São Lorenzo tem a convicção de que futebol e política se convergem.

“A gente percebe essa relação primordialmente nos anos 1970, quando a Argentina recebeu a Copa do Mundo e a ditadura aproveitou a oportunidade para mostrar autoritarismo.”

Identificado com o Cruzeiro, mas simpatizante do Atlético Mineiro pelo fato de a filha ser torcedora, Darío desconhecia a associação da organizada com as figuras políticas. “Eu aborreço qualquer ligação entre o corte do indivíduo e seu entorno. Eu sou Che Guevara até o final da minha vida e lamento a combinação, principalmente, do lado da torcida do Atlético.”.

No dia 22, foi a vez da Bolívia encarar a Venezuela. A partida terminou com o placar de 3 a 1 para os venezuelanos. Com o estádio vazio, menor público da Copa América até então, com apenas 4.640 pagantes, os bolivianos presentes assistiram a eliminação de sua seleção.

O resultado não entristeceu Samuel Rosa, natural de La Paz. Há sete anos morando em Belo Horizonte, o torcedor estava satisfeito por ter tido a chance de ver os jogadores da Bolívia de perto, mesmo com a derrota. “Sempre tento ver os jogos da Bolívia. E hoje pudemos ver a volta de Marcelo Moreno, ídolo da torcida do Cruzeiro, ao Mineirão.” Para ele faz sentido a relação da política com o futebol. “Se não fosse a política, os clubes não conseguiriam sobreviver.”

Na estreia da Copa América, contra o Brasil, o comportamento da torcida boliviana chamou a atenção de Rosa.

“Teve muitos torcedores bolivianos, no Morumbi, que fizeram manifestação política durante o jogo já por conta das próximas eleições. Eu acho errado, para mim eles tinham era que ter se preocupado com o jogo.”

Ao descobrir a configuração da rivalidade entre as torcidas organizadas, o boliviano foi categórico ao dizer que não colocaria uma camisa por conta do viés político. “Se a razão fosse por conta do clube, certamente eu usaria. Mas se a intencionalidade for outra, eu não me sentiria à vontade.”

Radicados no Brasil, Dario e Samuel fazem parte de um contingente de imigrantes que aproveitam o futebol para fidelizar e manter os laços cívicos. Eles não sabem quando poderão presenciar in loco uma disputa de suas seleções novamente e viram na Copa América uma ocasião para revigorar o patriotismo. Conforto para tolerar a distância, o esporte atravessa a sociedade incorporando valores que são ressignificados em distintos contextos, deixando de lado o teor, meramente, do entretenimento.


Durante a Copa América, Puntero Izquierdo e Ludopédio publicam uma série de reportagens sobre a história e a atualidade da competição.

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