O meu, o seu, o nosso… Pacaembu

Puntero Izquierdo
Jan 31 · 18 min read
(imagens: Fábio Soares/Futebol de Campo)

No último aniversário de São Paulo, o 25 de janeiro que tem na final da Copa São Paulo de Futebol Junior uma de suas tradicionais atrações, o presente aos que vivem futebol na capital paulista foi se despedir do Pacaembu enquanto praça de esportes municipal.

Cômico, não fosse trágico, o derradeiro capítulo dessa história do mais democrático estádio de futebol da cidade calhou de ser um clássico gaúcho do futebol de novos, numa cancha dividida entre colorados e tricolores como há muito não podem mais compartilhar alvinegros, alviverdes e tricolores paulistanos.

Tudo para na manhã seguinte acordarmos rodeados pela velha cartilha modernizadora, aquela que, seis anos depois da Copa do Mundo, parece vir direto de uma esquete humorística, mas segue liderando a narrativa e vendendo ilusões a arquibaldos por aí. A partir desta semana, registra-se, aqui pelos últimos dias de janeiro de 2020, o Estádio do Pacaembu passa a ser gerido pro um consórcio privado. De preferência a R$45 o lanche.

O Puntero convidou quatro torcedores, representantes dos quatro maiores clubes paulistas, para contarem sua relação com aquele que sempre foi um dos melhores lugares da cidade, ainda que insistam em nos contar, numa planilha de excel ou numa projeção em 3D, que só lhe restou velho, obsoleto. Que ao menos quem vive o estádio trate de cuidar de sua memória — porque dos clubes, da gestão e do novo projeto daqui não se espera nem um chuveirinho desesperado nos acréscimos. Toquemos a bola.


As portas do Pacaembu

(imagem: site oficial do Corinthians)

Uma das coisas que mais me incomodam de viver em uma cidade grande são as portas trancadas. Cresci em uma família de quatro pessoas com apenas um banheiro em casa. Me acostumei às portas abertas, ainda que hoje, como grande parte dos paulistanos, minha mãe viva com a porta de casa trancada, mesmo sabendo que o prédio onde mora tem dois portões, zeladores e sistema de segurança.

Não sei dizer exatamente de onde vem esse incômodo. Eu nasci e cresci na cidade grande. Não é comum por aqui deixar a porta de casa aberta. Nem a do banheiro. Andamos para todo lado com um molho de chaves que não cabe no bolso. E naturalizamos assim: propriedade que é propriedade tem que estar bem trancada. Guardada. Segregada. Privada.

Paradoxalmente, nessa mesma cidade, o time de futebol para o qual escolhi torcer — e escolhi mesmo, depois de ser apresentado a todos os quatro grandes — enraizou na minha alma que ter propriedade não significa muito. Não é isso que ganha o jogo. Não é isso que faz uma torcida. Não é que não tivéssemos casa: o Corinthians inaugurou a Fazendinha lá atrás, em 1928. Mas cresceu mais que o Estádio Alfredo Schürig, e se acostumou a ocupar qualquer outro como se fosse seu.

Meus colegas de escola diziam que o Corinthians não tinha estádio. E o Corinthians respondia tomando conta do estádio deles. Foram muitas as invasões que vi e vivi, todas tributárias da ocupação do Rio de Janeiro em 1976. Numa época em que ainda havia estádios, com duas torcidas, ocupamos todos eles, em São Paulo e fora. Me impressionei aos 17 anos na segunda invasão do Maracanã, contra o Vasco, naquela final de 2000; e ajudei a transformar o Estádio Internacional de Yokohama um Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, em 2012 — nunca esquecerei do desespero dos stewards japoneses com a chuva de bobina na recepção ao time.

Nessa história de ocupação, o Pacaembu virou nossa casa principal. Foi lá, em 1990, que eu escolhi ser corinthiano. Não lembro o jogo, nem o placar. Lembro da arquibancada, da torcida e da bateria. Da festa. Naquele mesmo ano, graças ao primo da minha mãe que era médico do time, entrei de mascote em campo. Foi a primeira vez que vi lá de dentro como nós éramos. Como era entrar e estar em campo segurando a mão de um ídolo, um herói, o homem que defendia a nossa meta, rodeado por aquela horda de pessoas vinda de todos os lugares. Naquele dia, a porta trancada da mitologia se abriu para mim, e eu vi que meus heróis alvinegros, todos eles, eram gente. De carne e osso. E estavam tanto dentro quanto fora do campo.

O Corinthians e o Pacaembu abriram muitas outras portas na minha vida. A da alegria, tantas vezes, como no primeiro jogo da final da Copa do Brasil de 1995; a do abismo, naquele fatídico ano de 2007. A da frustração, contra o River, em 2006; a do visitante, em um estranhíssimo jogo com mando do maior rival, em 2012; a do título mais triste da minha vida, no dia da morte do Doutor, em 2011.

E não parou por aí. Abri ali a porta do luto, ao jogar as cinzas do meu pai atrás do banco de reservas, em 2009. Dia em que entrei sozinho em campo, depois de atravessar o túnel por onde tantas vezes vi sair o manto alvinegro, e cantei em silêncio a versão mais doída de nosso hino. Deixei meu pai onde ele sempre esteve, comigo, com o Corinthians e com a Fiel; e toda vez que olhei das arquibancadas depois disso me lembrei de contar um a mais em campo.

Também abri a porta da vida no Pacaembu, ao resgatar e adotar uma gatinha perdida na arquibancada em dia de derrota feia. Acuada junto a uma pilastra, observada pela multidão, temerosa até mesmo de receber um carinho. Tirei a Zica do Pacaembu e trouxe ela para casa, onde vivemos juntos esse tempo todo — até ela resolver ir morar em outra dimensão, no ano passado.

No Pacaembu vi um Ronaldo surgir, na década de 1990, e outro ressurgir, já no século XXI. Vi Marcelinho, Neto, Ezequiel, Zé Elias, Henrique, Marcelo, Giba. Wilson Mano. Rincón. Vampeta. Edílson. Tevez. Vi o Corinthians em todas as suas versões, caras e baratas, classudas e briguentas. Vivi a Fiel. E vi Riquelme e o poderoso Boca Juniors serem engolidos naquele 4 de julho em que o Corinthians reescreveu a história da América, em 2012.

Me lembro, nesse mesmo 2012, de um jogo em outubro em que o Corinthians celebrava os 35 anos do título paulista de 1977. Pouco antes do início do jogo, escutei os alto-falantes do estádio reproduzirem a histórica narração de Osmar Santos para o gol de Basílio. Gol que não foi marcado ali. Gol que aconteceu antes de mim. Conforme o som da torcida e a voz do locutor se tornavam mais intensos, os pêlos do meu corpo se arrepiavam, um a um, como se aquilo fosse ao vivo, como se estivéssemos todos vendo aquele gol. E de fato estávamos, pois fomos todos um, Corinthians, Basílio, torcida, meu pai, Pacaembu e eu. Por muitos anos.

Acho que, de todas as portas que o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho abriu para mim nesses quase 40 anos de corinthianismo, a maior delas foi essa: a da comunidade. De ser parte do todo e de ser todo por ser parte. No Pacaembu aprendi a celebrar, a gritar, a cantar, a chorar, a amar e a odiar pessoas que eu nunca mais veria, simplesmente porque cada uma delas, estando ali comigo, passava a fazer parte de mim. E se o Corinthians não joga mais lá quase nunca, se agora o estádio ao qual sempre pertenci não me pertence mais, não importa: eu estarei ali para sempre. Por que não há tempo, por mais longo, nem dinheiro, por mais tanto, que consiga fechar as portas da memória viva de uma torcida fiel.

Usem as cores que quiserem, o Pacaembu sempre estará colorido em preto e branco.


O Pacaembu e o batuque

(imagem: site oficial do Palmeiras)

O Pacaembu já tocou uma música para mim. Os finais de tarde naquele bairro são de uma beleza estupenda, mesmo quando nosso time tem o Maikon Leite em uma de suas jornadas mais — vamos colocar assim — desconectadas com o entorno. Então ser o último a ir embora tem um pouco de ver a tarde cair ao fundo do Tobogã e outro pouquinho de terapia perpétua, posto que, quando criança, morria de medo de ficar preso em um estádio vazio e não entendia o motivo de meu tio ou avô demorarem tanto para tomar o caminho do portão principal. Observo o trabalho de quem recolhe cabos, procuro tufos de grama que denunciam alguma dividida recente, observo a beleza colorida do Municipal e quase na hora do grito “o Pelé, foi aqui que o Pelé mudou o mundo!”, vem, veio, do concreto pintado de amarelo, um batuque, coisa de Timbalada, um formigueiro de plástico na contenção rítmica.

O vento, sem o obstáculo das pessoas, brincou com os copos de plástico, muitos, consumidos naquela tarde de calor. Os degraus tão grossos do impecável Paca serviram de passarela para uma procissão de copinhos tamborilantes e, em dada hora, o barulho se impunha como sinfonia: era impossível não encontrar lirismo naquilo, mesmo estando na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro. A cidade gosta mesmo do Pacaembu, o vento brinca com o concreto, o pôr-do-sol se insinua diferente para ele e o equipamento municipal, que guarda em seu estômago o indispensável Museu do Futebol e na sua nuca o nome de um deplorável Paulo Machado de Carvalho, é, afinal, um bom lugar para se estar. Na minha vida em São Paulo, um dos melhores e mais acolhedores.

Mais de uma vez, em jogos menos concorridos após bater minha bola na várzea, pude assistir deitado, usando a sacola de chuteiras como travesseiro. É preciso reafirmar o tamanho absurdo de seus degraus, sua grande marca, a generosidade deles e o retrato de um projeto que não foi feito para a instalação de cadeiras individuais. Em casa, ao jogar futebol de botão com o estrelão no chão (crianças, cuidem das costas), pegava uma almofada do sofá e colocava atrás de um dos gols. Era o Tobogã. Um corpo estranho, uma bandeja vulgar, feia se observada sem contexto, mas um grande mirante, uma espécie de camarote dentro do qual se tinha a visão espetacular do Pacaembu de frente, lindo como a baía de Guanabara observada de um barco que se aproxima. O Tobogã é o tempero de imperfeição que a gente gosta porque faz sentido.

Sem ele, afinal, não haveria final de brasileiro lá em 1994 com as torcidas de Palmeiras e Corinthians juntas. Lá estava, com 10 anos, e juro que meu tio, entre os de verde, vestia uma camisa preta do Manchester United — camisa importada na época era pra ser usada em ocasião especial. No ano seguinte, 1995, do Tobogã foram cuspidos os paus e pedras que mataram e feriram e mudaram o futebol paulista para sempre. Queria estar naquele dia, mas fui salvo por um dia no Playcenter, imposição que recebi a contragosto, pois preferia o jogo. É um tanto cruel que tenha sido este o palco do desastre, que pareceu uma arapuca e que coincidiu com um desejo político impopular que precisava ganhar legitimidade pública. Era o campo municipal, mais fácil largar lá paus e pedras (e promover uma final entre rivais) do que em uma casa privada como o Morumbi ou o Palestra Itália.

Então tem um corte seco do Pacaembu da minha infância (“O Tom Jobim morreu???” ouvido no Tobogã em um Palmeiras x Guarani) para o Pacaembu que eu vi por último tamborilando copinhos. Ambos cuidaram de mim, mas muita coisa mudou. Os seus últimos anos como guia cimentado de emoções pago pelo município e não pelo Cinemark teve, afinal, Santos e Corinthians dando volta olímpica de Libertadores em suas dependências. Vai mudar um tanto mais. Se a definição perfeita do Pacaembu para um palmeirense diz que é como visitar a casa da avó, solene, generosa, confortável, antiga nos detalhes, impecável e parecida nos cheiros com a sua própria casa, agora chegou a vez da avó mudar de porteiro, ou de fogão, ou de cama de hóspedes, enquanto a gente de verde ainda se adapta à mudança de um casebre com quintal amigo e jardim suspenso para um apartamento intimidador espetaculoso com varanda gourmet.

Um estádio é um estádio. Sempre no topo da lista de lugares que repetimos o trajeto por mais vezes e por um período mais longo da vida. Como se não desse tempo para entender que saudade do avô não é só uma foto 3x4 na carteira, parece que é simples o desquite com o mundo que era dele e virou nossa herança. O Pacaembu de Leônidas, Julinho, Coutinho, Rivelino, que eu vi ser de Evair, Marcelinho Carioca, França, Giovanni, importa como termômetro civilizatório do quanto somos capazes de manter os elos entre as épocas da cidade fortes e sem lacerações. São Paulo é legal enquanto temos esta perspectiva. Sem ela, perdemos para Bucareste, Dubai ou qualquer outra cidade sem Pelé nem concha acústica que virou Tobogã. Quando o equipamento é sucateado e depois doado (na conta de padaria “anos de concessão x valor pago”, a iniciativa privada ganhou de presente o Pacaembu) para grupos cuja atuação não coincide com o zelo por estes elos, é claro que a garganta seca. Não é pela cerveja, que esta já não tomamos há mais de 20 anos. Nem pelo nosso rolê em si, que já virou um programa cheio de proibições. É mais pelo efeito colateral de insensibilidade que, num segundo momento, pode aniquilar de vez um lugar que não precisa de grandes reparos e só quer fazer seu batuque quando ninguém estiver vendo.


O meu, o seu, o nosso, que já não é mais

(imagem: site oficial do São Paulo)

Um gol de cobertura, o abraço do rival, uma meia ensopada. Uma pizza de dez reais na saída do jogo, uma cerveja na praça antes de entrar, e o sol caindo entre os prédios ao fundo, na paisagem mais bonita que o futebol e a cidade de São Paulo podem proporcionar. O pior banheiro feminino da história dos estádios (ou quase isso), a fila quilométrica pra entrar, a boa e velha (e fria) pipoca pra acompanhar. O locutor anuncia o grito que aconchega, é quase um abraço pra te recepcionar: o meu, o seu, o nosso PAAA CAAAA EMBUUUU.

Não há um só paulistano apaixonado por futebol que não tenha esse estádio no lugar mais doce da sua memória afetiva. Seja no cimento do tobogã ou nas cadeiras coloridas que preenchem esse templo futebolístico, lá dentro todo mundo já se sentiu em casa, ainda que ele, oficialmente, não fosse a casa de ninguém.

Como são-paulina nascida nos anos 1990 (ok, 1989), não posso dizer que minhas melhores memórias futebolísticas foram vividas no Pacaembu. Mas foi nas arquibancadas dele que aprendi e vivi a essência do futebol. E que colecionei talvez algumas das melhores histórias que vou contar para meus netos.

Abro um parênteses aqui: como menina que cresceu no interior de São Paulo (em Sorocaba, a 100km da capital), tenho poucas vivências de estádio na infância. A primeira aconteceu quando eu já era pré-adolescente, após insistir muito para o meu pai me levar a um jogo no Morumbi. Minha frequência na arquibancada aumentou muito quando me mudei pra capital na juventude, e foi aí que tanto o Morumbi, quanto o Pacaembu passaram a ser parte da minha rotina. Fecha parênteses.

Eu não sei exatamente quando foi a primeira vez que entrei no Pacaembu. Talvez tenha sido visitando o Museu do Futebol em 2009. Mas o primeiro jogo que eu me lembro de ter ido lá é uma das histórias mais inusitadas da minha vida. Hoje, eu rio dela. No dia, quis me matar por causa dela.

Explico: eu tive a brilhante ideia de ir a um Majestoso no Pacaembu em 2010. Só que na torcida do Corinthians. Não, não era torcida única — ainda. Eram os tempos em que os clubes deixavam 5% dos ingressos para a torcida adversária. E o mando era corintiano. Eu morava perto do Pacaembu e sempre quis ir a jogos lá. Aí, na ingenuidade do meu amor por futebol, topei ir junto com uma amiga, o pai dela e outro amigo (todos corintianos) ao clássico no dia 22 de agosto de 2010. “Prefiro ver no estádio do que ver na TV”, pensei. Mal sabia eu o que me esperava.

Fui a pé, encontrei todos eles já perto da praça, entramos. Ali conheci a fila quilométrica da laranja, meu primeiro contato com o Pacaembu. A Gaviões da Fiel estava à minha direita. Distribuíram balões alvinegros, foi uma festa só até mesmo antes de começar o jogo. O São Paulo já vivia um tabu relativamente grande no Majestoso, eram nove jogos sem conseguir vencer o rival. O cenário era todo favorável para eles, que ainda disputavam a liderança com o Fluminense naquele ano.

E a minha “empolgação” em conhecer o Pacaembu duraria exatos 21 minutos. Foi quando Elias abriu o placar para o Corinthians, e eu ainda tive que fingir felicidade abraçando os corintianos ao redor. O pior ainda estava por vir. Aos 44, ainda do primeiro tempo, veio o segundo — Elias de novo. Os abraços da minha amiga, do pai dela e do meu amigo foram ainda mais efusivos. Por fora, eu sorria. Por dentro, me contorcia. Queria me teletransportar para o outro lado do estádio, onde estava a torcida do São Paulo. Ainda seria uma derrota, mas ao menos eu estaria “entre os meus”. No segundo tempo, veio o terceiro aos 25 minutos com Jucilei e, a essa altura, eu já estava com a maior dor de cabeça que já tive em toda a minha existência. Vocês não têm ideia de como uma derrota por 3 a 0 no clássico pode doer mais quando se está ao lado do rival sorrindo sem poder soltar um mísero palavrão de desabafo. Ali aprendi minha maior lição do futebol: nunca, sob nenhuma hipótese, jamais, pense em ir a um clássico na torcida do rival. Ainda mais sozinho. Ainda mais com amigos TORCEDORES do rival. Se houvesse definição no dicionário para a expressão “ideia de jerico”, usariam essa minha história como exemplo.

Não dá pra negar que meu primeiro encontro com o Pacaembu foi extremamente traumático — e devo admitir que nos jogos mais memoráveis do São Paulo nesse estádio, eu não estava nele. Aquela fatídica vitória de virada sobre o mesmo Corinthians em agosto de 2012, da quebra de tabu, do Luis Fabiano parado na esquina? Então, eu não estava nela. Aquela vitória em cima do Palmeiras com gol do Kardec no último minuto no Brasileiro de 2014? Eu também não estava. Mas na derrota para o Santos em outubro de 2016 por um a zero embaixo de chuva quando brigávamos contra o rebaixamento, é claro que eu estava.

Foram 90 minutos melancólicos, que só não foram mais deprimentes porque a arquibancada, meus amigos, só ela pode salvar os piores jogos. Na companhia dos “órfãos de Edcarlos” (sim, é o melhor nome possível para um grupo de whatsapp de torcedores do São Paulo), a chuva maltratava nossos corpos, e aquele time maltratava nossa alma. Tanto que, em determinado momento do segundo tempo, meu amigo de tão desolado que estava — e de tão inútil que se sentia torcendo pra um time que não merecia sob uma chuva constante e ingrata -, resolveu torcer de uma maneira mais eficiente, por assim dizer. Tirou o tênis, as meias, e eliminou delas a água acumulada. Ele se apoiava no amigo do lado, torcia as meias no meio da arquibancada, e a nós só restava rir da cena mais inusitada que o Pacaembu me fez presenciar.

Mas nem só de tristezas viveu minha história com o São Paulo no estádio mais charmoso da cidade. No último ano, vivi ali minhas maiores alegrias como são-paulina — só que não eram os jogadores de sempre em campo. Eram as jogadoras. O Pacaembu virou a casa do time feminino do São Paulo em 2019 e, logo no primeiro jogo delas que vi lá, presenciei um dos gols mais bonitos que ficarão na história dessa retomada do futebol feminino tricolor. Era São Paulo x Palmeiras, pelo Campeonato Paulista, o primeiro Choque-Rainha da temporada. O primeiro tempo foi movimentado e se encaminhava para terminar empatado, quando Ary Borges do meio do campo fez o que todo são-paulino sonhava em ver em um jogo contra o Palmeiras: um gol magnífico por cobertura. A vitória por 2 a 1 sobre o rival, com a torcida abraçando o futebol feminino e eu, dos gramados, trabalhando, exalando seriedade por fora com a felicidade transbordando por dentro. O que eu poderia pedir mais, Pacaembu?

Poderia pedir mais uma vitória contra o Palmeiras em plena semifinal de Brasileiro? Poderia pedir uma goleada contra o Cruzeiro no jogo que valia o título nacional? Ou então mais um golaço da Ary de cobertura, dessa vez contra o Santos e com passe de Cristiane? Poderia pedir uma torcida vibrando e cantando pelo futebol feminino? Tudo isso, você me deu.

Então, se eu pudesse te pedir só mais uma coisa, Pacaembu, eu diria: fica. Vai ter gol. Vai ter pipoca. Vai ter fila quilométrica, cerveja na praça e pizza a 10 reais na saída. Fica do jeitinho que você é: o meu, o seu, o nosso. Pra sempre.


Pacaembu: dor e glória para uma geração de santistas

(imagem: site oficial do Santos)

Meninos, eu vi e agora me presto a narrar uma história de redenção vivida por torcedores do Santos. Ela é dedicada ao estimado Pacaembu, consagrado como a casa paulistana do clube, e divide-se em dois capítulos, um de dor e outro de glória. O primeiro, vivi apenas como aficcionado do Alvinegro, e o segundo, também como jornalista esportivo. Os dois se passaram no estádio municipal, que agora passará a ser administrado pela iniciativa privada. Eles transcorreram em datas separadas por 5.666 dias no calendário gregoriano — 15 anos, seis meses e cinco dias.

Essa história não é uma estória, embora possa ter ares fabulares. Foi como uma epopeia afetiva para uma geração de santistas em particular, a dos “Meninos da Fila”. A expressão, adaptada daquela que exalta a força da base do clube (“Meninos da Vila”), designa os torcedores nascidos após a era Pelé. Essa turma, da qual faço parte, palmilhou a via crúcis dos mais longos anos de jejum de títulos do Peixe desde 1955. Formamos uma legião que orgulha-se de ter criado a casca dura dos tempos de escassez.

Pacaembu da dor

A noite daquele domingo de fim de primavera prometia a alegria maior. Havia o Messias a profetizar a boa nova: Os anos de tormento estavam para acabar! Afinal, havia Giovanni, o camisa 10, o ungido, e éramos ali todos suas testemunhas. A indicação era de um gran finale, o enredo não parecia vocacionado a degenerar. Não depois do que se vira nos dois domingos anteriores no mesmo Pacaembu. Contra o Guarani, uma vitória sofrida por 2 a 0, com os gols de Marcelo Passos e Giovanni saindo nos minutos finais e levando o Santos às semifinais do Campeonato Brasileiro com a melhor campanha entre os classificados. Sete dias depois, em uma das páginas mais espetaculares da história do clube, a goleada por 5 a 2 no Fluminense.

O time, que precisava vencer por três gols de diferença para avançar, contrariava os prognósticos predominantes e chegava à final do Brasileiro pela primeira vez em 12 anos. E com atuação memorável do… Messias.

No dia 17 de dezembro de 1995, diante do Botafogo, o Santos precisava de uma vitória simples para sagrar-se campeão brasileiro. Àquela altura, o Pacaembu já havia sido o palco de cinco importantes títulos do clube, todos entre os anos 50 e 60 (os Paulistas de 56, 62 e 67 e os Torneios Rio-São Paulo de 59 e 66). O estádio estava apinhado para a glória.

Mas a dor foi senhora. O empate por 1 a 1, com erros grosseiros da arbitragem comandada por Márcio Rezende de Freitas, deixou uma cicatriz nos santistas. Para os Meninos da Fila, em especial, ver traída a expectativa da glória inédita por conta de um gol impedido do atacante Túlio e atuação de gala do goleiro rival Wágner soou como confirmação de uma má sina. Para os mais jovens, só restava balbuciar como a Hiena Harry dos desenhos da Hanna Barbera que entretiveram nossa infância: “Oh céus! Oh vida! Oh azar!”

Mal imaginávamos o esplendor que o futuro nos reservava. E ele teria o seu ápice ali, no mesmo Paulo Machado de Carvalho da desilusão.

Pacaembu da glória

No dia 22 de junho de 2011, os Meninos da Fila éramos homens e mulheres feitas. Já tínhamos comemorado dois títulos brasileiros e quatro estaduais. Um dos Paulistas, inclusive, conquistado no próprio Pacaembu no ano anterior, em final contra o Santo André. Apesar do período de saciedade que jamais havíamos experimentado, havia ainda no íntimo um ressaibo de 95. Faltava uma taça grandiosa na casa paulistana para dar cabo daquele sentimento persistente. Assim, no jogo daquela noite de quarta-feira, contra o Peñarol, chegara a oportunidade de dar um passa-moleque no passado.

Era a final da Libertadores, competição vencida pelo Santos duas vezes, ambas nos tempos de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pelé. Já haviam se passado 48 anos do bicampeonato, obtido em 1963 diante do Boca Juniors. Os torcedores mais novos tínhamos ficado perto de festejar a taça internacional em 2003, quando a equipe de Diego e Robinho chegou à final e perdeu do mesmo Boca Juniors, no Morumbi. Estava nos pés de outro Menino da Vila as esperanças dos Meninos da Fila diante dos uruguaios: Neymar.

Na campanha até a decisão, o Santos já tinha mandado o jogo das quartas, contra o Once Caldas (COL), e das semifinais, diante do Cerro Porteño (PAR), no Pacaembu. Como no malfadado Brasileiro de 95, o estádio era a casa santista na reta final. Mas o rumo, felizmente, foi distinto. Com gols de Neymar e Danilo, o Santos venceu o Peñarol por 2 a 1 e voltou ao topo continental. Foi a noite em que o Pacaembu cumpriu um ciclo na vida santista. Para os Meninos da Fila, nós existenciais foram ali desatados.

As memórias ficam mais ricas e humanas se comportam dores e glórias. A relação entre Santos e Pacaembu forma uma história completa, sintetizada nesses dois capítulos dicotômicos.


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