The Jetsons

Foi dada a largada para os meios de transportes do futuro.

Como criar sistemas de transporte democráticos e eficientes?

Nesse ano de 2017, o time do Hyperloop One esteve no "Visions for Europe" para apresentar as nove melhores rotas para a aplicação do sistema no continente europeu. Também estava lá a Ministra de Infraestrutura da Holanda, Melanie Schultz, afirmando que “nos próximos dez anos nós vamos ver mais mudanças na mobilidade do que nos últimos cem anos”. A perspectiva de ver o Hyperloop em ação na Europa é apenas uma das inúmeras propostas de mobilidade que comprovam que a ministra está coberta de razão.

Nunca tivemos tantos novos meios de transporte surgindo. Os últimos cem anos foram dos navios, carros, motocicletas e aviões. Mas agora, além do promissor Hyperloop One e seus tubos a vácuo, vimos também carros autônomos se tornando realidade, carros drones começando a decolar, promessas de voos de alta velocidade na órbita terrestre e, quem sabe, um dia o teletransporte realmente existirá.

Mas mesmo com todas essas promessas de meios de transporte que vão deixar até os Jetsons para trás, não podemos nos esquecer que a rede de transporte e o simples fato de se transportar é muito mais complexo, social e sistêmico. Para resolver problemas e criar soluções que vão realmente trazer avanços para a locomoção humana vamos precisar: evoluir os meios de transporte já existentes, criar sistemas conectados e sincronizados com as necessidades das pessoas e enfim propor inovações jamais vistas nesse setor, sem nos esquecermos das duas premissas anteriores.

Mais velozes, porém mais limpos

Enquanto engenheiros se debruçam em projetos para criar o “carro do futuro” não podemos nos esquecer que mesmo que veículos voadores surjam não vamos abandonar tão cedo os meios de transporte que usamos atualmente. Todo o processo de implementação de novos modais e as diferentes realidades sociais através do globo são grandes desafios que ainda precisam ser superados. Assim, até que todas essas novas propostas sci-fi sejam verdade teremos um longo caminho para melhorar os transportes que já temos.

Carros precisam ser mais limpos, mudança que deve ser pressionada principalmente pelo poder público, como já acontece na Europa. Engenheiros e Designers precisam pensar em veículos que utilizam design para trazer ainda mais eficiência e materiais que sejam duradouros e que não agridam o meio ambiente, considerando todo o ciclo de vida de um sistema circular. Já os indivíduos precisam, sempre que possível, adotar o uso de transportes limpos ou coletivos.

No caso de vôos, um dos meios mais poluentes e nocivos à atmosfera da Terra, as evoluções tecnológicas também não são suficientes para minimizar os seus impactos. Precisamos rever nossa relação com as viagens, aprendendo a nos locomover de forma mais consciente. Utilizar o avião como transporte para viagens de longa distância se torna cada vez mais acessível, mas ao mesmo tempo que essa praticidade nos dá asas para alcançar nossos destinos dos sonhos, nosso planeta sofre com os impactos ecológicos do transporte aéreo.

Mapa interativo com voos em tempo real

Se hoje você pega pelo menos um voo internacional de longa distância por ano, sua pegada de carbono já está comprometida e você automaticamente já está contribuindo enormemente para o aquecimento global de nosso planeta– não importando a quantidade de lixo que você recicla em sua casa ou a aderência a hábitos alimentares de baixo impacto ambiental. Com uma média de 102 mil vôos diários ao redor do mundo, o impacto dos aviões é maior do que o de outros veículos, já que os gases de efeito estufa são liberados em uma altitude que amplifica ainda mais seus efeitos nocivos. Além disso os vôos também produzem os mais variados tipos de lixo, vindos de embalagens de refeições e utensílios utilizados à bordo.

Sistemas conectados e eficientes

Permitir que todos tenham opções de transportes eficientes e que respondam a todos os diferentes padrões de vida das pessoas é complicado, mas é algo que precisa ser feito. Cidades precisam ser redesenhadas criando sistemas de transportes onde diferentes modais estejam em sincronia, funcionando como um sistema dinâmico, quase orgânico. Esses sistemas precisam considerar todas as pessoas, dos que moram na área central aos que vêm da periferia e cidades conglomeradas. As integrações precisam ser fáceis, rápidas e gerar uma experiência fluída. Não podemos nos esquecer também daqueles que não estão participando ativamente da malha de transportes, porém compartilham os espaços por onde ela está espalhada.

O espaço que os carros ocupam.

Investir e desenvolver ainda mais os sistemas de transporte público é vital para balancear a relação entre as pessoas e as cidades. O transporte e logística de cargas por carro não precisa e nem será completamente abolido. Mas levando em conta o incrível desaproveitamento de espaço dos automóveis, temos que privilegiar meios mais limpos e democráticos.

No Brasil, o investimento na indústria automobilística e a implementação da cultura do carro fez com que nossas grandes cidades se tornassem vítimas do trânsito. Nosso sistema ferroviário, que antes existiu, hoje só nos deixou estações fantasma — como mostra o projeto Estações Brasileiras. Em outros países a situação é ainda mais grave, como é o caso dos Estados Unidos, onde o número de automóveis é de 797 para cada 1000 habitantes. Mas também temos exemplos da otimização do transporte público, como o Japão, que, mesmo tendo uma grande frota de carros, possui um sistema ferroviário que liga todo o país, cruzando até mesmo o mar para conectar todas as ilhas do arquipélago.

Outra tática que certamente não está sendo expandida o suficiente é o uso da tecnologia ao seu máximo. Nossos veículos e sistemas de transporte ainda são completamente “analógicos”, utilizando pouco ou quase nada de toda a tecnologia que adquirimos nas últimas décadas. Utilizar o poder da Big Data e recursos de IoT (Internet of Things) é algo que precisa ser implementado e expandido dentro de um sistema interconectado capaz de gerar ordem dentro do caos.

Hoje, o uso da tecnologia parte do usuário para a rede de transporte, como quando usamos aplicativos como Maps e Waze, por exemplo. No entanto, por mais que o uso dessas soluções funcionem superficialmente, seu efeito positivo não é totalmente amplo e não está sendo utilizado ao seu máximo. Precisamos começar a seguir o caminho inverso, em que a tecnologia e a informação partam da rede de transporte e consecutivamente atinjam todos os usuários, orquestrando toda a malha de veículos de forma hegemônica.

Novas ideias nas ruas

Precisamos inovar sem nos esquecer das pessoas que precisam se locomover e da matéria-prima e alimentos que precisam ser transportados. Inovar sem nos esquecer das diferenças sociais que ainda enfrentamos, e o mais importante de tudo: prever todo o processo de desenvolvimento e implementação dessas ideias. Só poderão ser chamadas de inovação as soluções que considerem toda a relação com a sociedade através da otimização máxima da proposta com o menor impacto em sua ativação.

Criar novos veículos ou meios de se transportar jamais vistos pode atrair a mídia e investidores, mas só serão capazes de produzir impacto positivo sobre o futuro de nossa sociedade os sistemas capazes de reinventar o que já possuímos, promovendo transições de baixo impacto ao alcance de um grande número de pessoas.

Mateus Bagatini (Tokyo JP)
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