Sim, nós precisamos falar com os homens.

Por trás do estudo “Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero”, concebido pela Questto|Nó Research, ONU Mulheres e Papo de Homem

Qual o nível de machismo no Brasil?
Os homens se consideram machistas?
O machismo também é prejudicial aos homens?
Como a identidade masculina estereotípica é construída?
Quais as principais tensões vividas pelos homens brasileiros?
O que precisa ser desconstruído?
O que o feminismo tem a ver com isso?

Essas foram algumas perguntas que procuramos responder com o estudo “Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero”, um projeto concebido pela Questto|Nó Research em parceria com a ONU Mulheres e o portal Papo de Homem.

O principal objetivo desse trabalho é aproximar mulheres e, principalmente, os homens da discussão sobre equidade de gênero através de uma linguagem acessível, conteúdos reflexivos e dados representativos sobre o tema no Brasil.

Em uma primeira etapa, fizemos uma pesquisa qualitativa em três capitais brasileiras e registramos em vídeo grande parte das entrevistas. Em um segundo momento realizamos uma extensa pesquisa bibliográfica para desenhar cenários e levantar hipóteses que depois foram mensuradas numa abordagem quantitativa de âmbito nacional. O resultado final desse processo está dividido em quatro frentes: um documentário, dois relatórios de pesquisa (qualitativa e quantitativa) e um infográfico.

Atrair os homens para esse debate não é uma tarefa simples. Existe uma certa resistência, um certo receio em refletir, questionar ou repensar a masculinidade de uma forma mais ampla. Os homens, em geral, lutam bravamente para provarem a sua masculinidade, por isso abordar esse tema com naturalidade pode gerar desconfiança, dar indícios de que não estão sendo ou parecendo “homens de verdade”.

Alguns acreditam primeiramente na influência biológica e desconfiam do poder de ação da cultura na constituição dos estereótipos de gênero. Outros, pelo contrário, acreditam que a cultura determina exclusivamente a forma como homens e mulheres devem ser e se comportar na sociedade. Uma coisa parece certa, somos condicionados desde cedo a nos identificamos, nos comportarmos de acordo com um determinado estereótipo e existem expectativas que delimitam um tipo de masculinidade que é socialmente esperada. Uma receita antiga que prescreve a forma de como homens devem ser, agir, sentir e falar. É uma lista extensa, que é absorvida como verdade pela maioria e representa um modelo cultural que oferece privilégios, perpetua o machismo e ao mesmo tempo aprisiona, limita.

Heterossexual, fisicamente apto, corajoso, forte, no controle, ativo, sexualmente experiente, prontidão sexual, fala firme, saber se defender, não chorar, sexualmente impositivo, trabalhador, provedor, incansável, aguentar o tranco, competitivo e bem sucedido, são algumas das expectativas atreladas ao homem e ao universo masculino.

Mas o que isso tem a ver com machismo?

Esse modelo que valoriza o homem macho, forte e inflexível é construído em detrimento da mulher frágil, delicada e flexível, reforçando um sistema hierárquico de gênero onde o masculino está em posição superior ao feminino. Esse machismo está presente em todos os lugares, mas estamos tão acostumados com ele que dificilmente conseguimos enxergá-lo ou questioná-lo. Controlar quem as mulheres devem ser e como devem se comportar é uma das manifestações mais comuns desse machismo naturalizado.

Vimos também que existe outra forma de controle que pune os homens que apresentam comportamentos não identificados como pertencentes a esse universo masculino. Esse controle funciona como uma espécie de jogo de poder e acontece principalmente entre garotos que, para afirmarem a sua masculinidade, precisam rebaixar e feminilizar outros garotos. Palavras e expressões como: covarde, fracote, meninha, bicha, filho da mamãe, ditas como brincadeira ou não, funcionam como uma espécie de lembrete de que não estão se comportando de acordo com a receita de comportamento que orienta “homens de verdade”. Essa também é uma forma de reforçar os parâmetros do que é socialmente esperado, salientando os comportamentos e atitudes não desejados por eles.

O homem precisa reconhecer que muitas das suas ações e valores estão pautadas em um modelo antigo de crenças e atitudes. Ser forte e sensível ao mesmo tempo não é algo contraditório. É apenas mais uma maneira de ser. Ao entender que a pressão de outros é uma consequência da prisão da masculinidade e que atributos femininos e masculinos estão presentes em todos nós, qualquer homem tem a permissão de recriar sua própria receita do que é ser homem no mundo de hoje.

Acreditamos que questionar nossos modelos culturais de referência e entender que existem diferentes formas de ser e se comportar é o primeiro passo para desconstruirmos estereótipos nocivos. Novas crenças do que é ser homem serão concebidas ao longo das próximas décadas, em resposta aos questionamentos que o modelo de masculinidade dominante enfrenta e continuará enfrentando. Outras narrativas estão nascendo de forma orgânica, fruto das lutas por liberdades individuais, igualdade de gênero e prosperidade social.

Gabriel Rosemberg 
Gustavo Rosa Silva

Diretores de Pesquisa e Estratégia


+Assista o documentário na íntegra.
+Leia a pesquisa qualitativa.

Concepção e implementação: PapodeHomem e Questto|Nó Research
Uma iniciativa: ONU mulheres e PapodeHomem
Realização do documentário: Monstro Filmes e Questto|Nó Research
Produção executiva: PapodeHomem
Pesquisa qualitativa: Questto|Nó Research
Pesquisa quantitativa: Zooma
Viabilização: Grupo Boticário