8M — Como articular um movimento das mulheres, se não sabemos o que são mulheres?

As movimentações para o Dia Internacional das Mulheres em 8 de Março já começaram por todo país. Mas a organização do movimento parece muito confusa em assimilar conceitos básicos.

Ariana Amara
Feb 28, 2018 · 7 min read
Foto Paulo Pinto/Agencia PT

Dia 8 de Março está se aproximando, e com ele, o calor dos debates feministas sobre a situação da mulher na sociedade atual. A cada ano, o dia 8 vai se tornando mais importante para uma tomada de consciência coletiva e é motivo para reacender assuntos ainda irresolvidos, como os números epidêmicos de feminicídio, estupro e violência sexual no Brasil, que apontam como um dos maiores da América Latina.

Mas algo mudou, ou está mudando, dentro da militância feminista ao longo dos anos. Entre as mudanças que vêm ocorrendo, uma delas é conceitual: a mera definição do que significa ser uma mulher vem causando atrito dentro do próprio movimento de mulheres.

O porquê da definição de mulher ser um assunto polêmico e as consequências que essa falta de conceito pode causar no seio de um movimento ativista são os objetivos a serem explicitados no presente texto.


O que é uma mulher?

O anti-feminismo contido na afirmação de que "mulher" é um sentimento individual passa despercebido pela análise de várias feministas brasileiras da atualidade, apesar do extenso esforço das teóricas e ativistas dos 60/70 em argumentar que as bases da opressão feminina têm origens na materialidade dos nossos corpos de fêmeas, que foram punidos, desvalorizados e tidos como mercadorias desde os primórdios das sociedades patriarcais.

A dificuldade de se delimitar o conceito de "mulher" e a confusão (várias vezes intencional) de se misturar sexo e gênero, produzem efeitos catastróficos na construção de um movimento que pretende acabar com o domínio patriarcal na sociedade: como podemos organizar uma militância se não sabemos nem ao menos definir quem somos? É ataque conhecido dos grupos dominantes acabar com a capacidade dos oprimidos em se auto-definir e auto-organizar. Mas assim como acontece com a luta anti-racista, é impossível desafiar o patriarcado sem definir quem ele foi criado para oprimir. E o patriarcado, assim como o racismo, não limita sua influência apenas ao campo das ideias, ele limita a vida física de pessoas reais, que são sistematicamente empurradas para a situação de opressão por terem nascido do sexo feminino ou de descendentes africanos ou indígenas. Opressões estruturais são tudo, menos escolha.

A compreensão de que a violência masculina praticada contra as mulheres na sociedade é uma questão política e cultural parece estar sendo lentamente assimilada por veículos da mídia progressistas ditos de "esquerda". É relativamente fácil provar quando homens nos interrompem, nos silenciam e nos deslegitimizam, e os números de mortes de mulheres por crimes de ódio (os eufemizados "crimes passionais"), os números de denúncias de estupro e violência doméstica não deixam espaço para relativizações: homens são ensinados pela cultura e pela sociedade desde a mais tenra idade de que os corpos femininos são menos valiosos, disponíveis e abertos a julgamento. E quando falo em "homens", não trato de indivíduos e suas subjetividades, e sim de uma conjunto de pessoas que, enquanto classe nasce e vive do lado certo da linha da opressão sexual.

Mas quais as consequências de se afrouxar o conceito de "mulher"?

Ao tratar o sistema de gênero como uma questão de identidade, o que estamos dizendo de verdade é que a situação de opressão e controle que as mulheres enfrentam no mundo (gravidez forçada, casamento infantil, estupro epidêmico, feminicídio) é uma escolha que nós fazemos quando decidimos nos "identificar" como mulheres. Quem se identifica com a opressão que sofre? É como sugerir que judeus preferiam ser perseguidos, ou africanos escravizados preferiam o regime de escravidão.

A ideia de que gênero é uma identidade vai de encontro às grandes obras do pensamento feminista, desde às russas, às feministas indianas, passando pelo extenso texto de Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, que expõe de forma transparente como a opressão das mulheres na sociedade se dá na criação de uma narrativa de gênero que desumaniza as fêmeas desde o nascimento.

Mas a teoria queer chegou nos anos 80/90 em peso na academia e na opinião progressista, taxando todo pensamento feminista desenvolvido até então como retrógado, dispensando a análise materialista para aplicar uma filosofia idealista do mundo. Essas ideias, fortemente endossadas por Judith Butler, invadiram os espaços de militância feminista e antagonizaram as mulheres que ainda insistiam pelo direito de auto-organização independente de homens. Essas ideias (baseadas num pós-modernismo que em muito se diferencia da análise de Marx) partem de um pressuposto individualista, em que a percepção e auto-percepção do sujeito teriam qualidades de alterar a realidade, ignorando as estruturas sociais moldadas há cerca de 2 mil anos e que não se alteram apenas com a "força da vontade" de um indivíduo.

A teoria queer fez um bom trabalho ao se misturar com o feminismo. O que chamamos hoje de "terceira onda feminista" nada mais é do que uma releitura do feminismo com os conceitos liberais de "empoderamento individual", ignorando novamente, todas as consequências que se seguem dessa nova abordagem na luta contra a opressão baseada no sexo.

Uma vez que "mulher" passa a ter um significado variável (as vezes é quem "se sente" mulher, outras, quem "aparece como mulher"), os objetivos da luta anti-patriarcal se dissipam: perdemos a capacidade de nos definir enquanto uma classe. E ao desqualificar as realidades biológicas dos sexos e seu sistema de hierarquia, perdemos o foco da opressões específicas que as fêmeas enfrentam ao redor do mundo. Como falar sobre controle reprodutivo e necessidade de aborto seguro se a biologia do corpo feminino é irrelevante? Como falar sobre mutilação genital, violência obstétrica, prostituição e casamento infantil — opressões que são direcionadas às fêmeas humanas — se nossos conceitos variam? A teoria queer não reconhece as mulheres enquanto uma classe, porque de acordo com a mesma, as classes são fluídas e nós pertencemos à elas nos baseando apenas em "auto-identificação". Essa análise e posicionamento político apenas atrasam a luta feminista.

Quem se beneficia da falta de consenso entre os diversos movimentos feministas em relação à definição de "mulher"?

A primeira é a clássica tática de dividir para conquistar. Um movimento feminista dividido é um movimento feminista vulnerável, e uma vez que não conseguimos entrar em consenso com o básico de nosso movimento (quem somos e o que queremos), são poucas as chances de que nossas demandas sejam ouvidas. É de fato muito interessante para classe dominante masculina que nós mulheres continuemos a brigar entre si, assim teremos menos tempo de brigar com eles e cobrar em conjunto pela responsabilidade que os homens têm em perpetuar estruturas patriarcais.

A segunda forma em que os homens se beneficiam da nossa falta de definição em nosso movimento é a mais perigosa e insidiosa delas: eles podem usar do feminismo para avançarem as próprias pautas e perpetuarem seus interesses. E agora, podem inclusive, fazer isso na esteira do argumento da "identidade de gênero", incluídos na mesma categoria de "mulher" que qualquer outra fêmea humana. Isso significa que, em muitos países que estão usando a legislação de identidade de gênero, os espaços exclusivos para mulheres estão sendo perseguidos. Piscinas públicas, vestiários, abrigos para mulheres violentadas, banheiros públicos, reuniões feministas e até os esportes femininos estão sendo pressionados a aceitar quem quer que se "identifique como mulher", ou serem automaticamente rotulados de "exclusionários". Quem não acredita que os homens são capazes de tirar proveito dessa ideologia para invadir e predar mulheres nesses espaços, eu trago exemplos aqui, aqui, aqui, e aqui.

A necessidade de espaços exclusivos e centralidade na definição de nosso ativismo e nossa própria existência sempre foi uma luta difícil que o feminismo teve que travar. Desde as sufragistas e abolicionistas que percebemos a importância de um espaço seguro para que possamos pautar a nossa opressão sem medo de represálias, mas essa concepção parece estar se fragilizando com o tempo e com o avanço das pautas de identidade, mais e mais mulheres se perdem na confusão dos conceitos e acabam defendendo o que não acreditam.

É urgente que tomemos de volta o poder de nos definir. O ativismo feminista precisa de coesão e principalmente de coerência com os conceitos básicos, caso contrário, a derrota de nossos objetivos será inevitável.


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