Uma Queviu
Apr 6, 2017 · 8 min read

Traduzido de: https://broadly.vice.com/en_us/article/the-racist-and-sexist-history-of-keeping-birth-control-side-effects-secret?utm_source=dmfb

Em setembro, JAMA Psychiatry publicou um estudo dinamarquês que encontrou uma correlação entre o uso de anticoncepcional e o diagnóstico de depressão clínica. O estudo acompanhou o uso de anticoncepcionais e a prescrição de antidepressivos ao longo de seis anos com mais de um milhão de mulheres. Foi descoberto que as mulheres que faziam uso de anticoncepcionais — seja a pílula, DIU hormonal ou anel vaginal — eram significativamente mais propensas a serem medicadas com antidepressivos.

Desde que a informação apareceu, muitas mulheres dizem se sentir vingadas já que finalmente a ciência está corroborando sua própria experiência de vida. “Eu usei a pílula por dez anos”, diz Holly Grigg-Spall, autora de Sweetening the Pill (Adoçando a Pílula). “Um tipo particular, Yasmin, teve enormes efeitos colaterais — efeitos psicológicos, depressão, ansiedade, ataques de pânico. Não fiz a conexão entre o que estava acontecendo comigo e a pílula por dois anos”.

O estudo encontrou uma correlação particularmente forte entre as adolescentes que usam métodos contraceptivos hormonais e a depressão: houve um aumento de 80 por cento no risco dessas adolescentes começarem a tomar antidepressivos depois de usar contraceptivos hormonais. Essa estatística é particularmente preocupante, especialmente porque muitas meninas adolescentes são medicadas com a pílula antes mesmo de serem sexualmente ativas — às vezes para tratar a acne ou sintomas menstruais graves, e às vezes apenas como uma medida preventiva geral. “Era visto como uma coisa essencial a fazer”, diz Grigg-Spall, “Era mais um rito de passagem”.

Embora possa ser o primeiro estudo do tipo a lançar luz sobre a relação entre o controle de natalidade hormonal e depressão, não é o primeiro a encontrar uma ligação entre o controle de natalidade hormonal e mudança de humor. E é apenas o mais recente de uma longa linha de batalhas entre mulheres e seus médicos sobre controle de natalidade.

No início do século XX, a contracepção era ilegal na maioria dos estados (EUA), e 26 deles proibiam as mulheres solteiras de ter acesso à contracepção até os anos 60. As mulheres estavam frequentemente à mercê de seu útero, suportando gravidez não planejada após gravidez não planejada. Uma solução comum foi a histerectomia. “Nós fazíamos logo após o parto, seis, sete semanas após o parto”, disse o Dr. Richard Hauskenecht no documentário da PBS, American Experience: The Pill. “Ao fazer uma histerectomia vaginal em alguém que teve três ou quatro filhos, seis semanas após o parto, você tinha duas escolhas: ser rápido como o diabo, ou ter o banco de sangue bem abastecido, porque a perda de sangue será surpreendente. Era pré-histórico, absolutamente pré-histórico”.

Foram quatro os pioneiros no estudo do controle hormonal de natalidade: a ativista e educadora sexual Margaret Sanger, que apelou a eugenia para defender o controle da natalidade, o biólogo Gregory Pincus, a sufragista e milionária Katherine McCormick e o médico e ginecologista católico John Rock. Pincus descobriu que os animais injetados com progestina não ovulavam. Mas as injeções não foram vistas como uma solução viável, assim o esforço foi para o desenvolvimento de um contraceptivo oral. McCormick financiou o desenvolvimento da pílula de seu próprio bolso. Na década de 1950, Rock forneceu os sujeitos de teste dando a pílula para suas pacientes em Massachusetts sob o disfarce de um estudo de fertilidade. Ele não informou suas pacientes que a pílula foi projetada para impedi-las de engravidar. Muitas mulheres abandonaram o estudo inicial de Massachusetts porque não podiam tolerar os efeitos colaterais: inchaço, coágulos de sangue potencialmente fatais e mudanças de humor.

A equipe começou a ter dificuldade em fazer ensaios clínicos na América do Norte, em parte porque a contracepção ainda era ilegal na maioria dos estados e parcialmente por causa da alta taxa de abandono de seus estudos menores. Assim Pincus e Rock pensaram em Porto Rico, onde a preocupação com a superpopulação, alimentada em parte pelo movimento eugenista, significava que não haveria restrições de controle de natalidade e, além disso, o aborto era legal na ilha. De fato, muitas mulheres porto-riquenhas foram esterilizadas sem seu consentimento ou conhecimento em um procedimento conhecido como “La Operacion” nos anos 50 e 60. Pincus e Rock presumiram que iriam encontrar uma população grande e obediente de sujeitos de teste. Acreditavam que se as mulheres pobres e sem instrução de Porto Rico pudessem usar a pílula, qualquer uma poderia.

No início, mais uma vez Rock e Pincus tiveram dificuldade em encontrar mulheres que tolerassem os efeitos colaterais da pílula. “As mulheres em Porto Rico deixaram o estudo também, e assim eles começaram a procurar mulheres que pudessem ser forçadas a participar, tanto nos EUA como em Porto Rico”, escreve Ann Friedman em The New Republic. “As mulheres internadas em um asilo mental de Massachusetts foram contratadas e as mulheres matriculadas na faculdade de medicina em San Juan foram informadas de que tinham de participar do exame médico ou enfrentar a expulsão da faculdade”. Novamente, essas mulheres não foram informadas sobre o que era a pílula; em vez disso, eles deveriam se calar, tomar seus medicamentos e se submeter a exames médicos frequentes e invasivos.

O Dr. Edris Rice-Wray, diretor médico da Associação de Planejamento Familiar de Porto Rico, veio com uma nova estratégia: dizer às mulheres o que a pílula realmente fazia. Assistentes sociais começaram a ir de porta em porta, em projetos de moradia popular em San Juan, explicando que uma pílula poderia ser tomada diariamente para prevenir a gravidez. Quando as mulheres tomaram conhecimento do que a pílula fazia, elas se inscreveram as centenas. No entanto, estas mulheres também não foram informadas de que faziam parte de um ensaio clínico ou que o tratamento era experimental.

Depois que o estudo foi concluído, Rice-Wray disse a Rock e Pincus que a pílula foi 100 por cento eficaz na prevenção da gravidez. No entanto, 17 por cento das participantes sofria de efeitos colaterais como “náuseas, tonturas, dores de cabeça, dor de estômago e vômitos.” Três mulheres morreram durante o estudo e nunca foram autopsiadas para determinar se o uso do contraceptivo foi a causa da morte. O Dr. Rice-Wray concluiu que a pílula, pelo menos na forma e dose que foi dada as mulheres porto-riquenhas, tinha “muitas reações secundárias para ser largamente aceitável”.

Isso não impediu a G.D. Searle & Co. de liberar a primeira versão da pílula, Enovid, na mesma formulação que causou doenças em quase um quinto das participantes do ensaio clínico. Enovid continha 10 vezes a quantidade de hormônios necessários para prevenir a gravidez.

Aliás, Pincus e cia, tinham originalmente considerado o controle de natalidade hormonal para homens. “Ele foi rejeitado para os homens devido ao número de efeitos colaterais”, diz Grigg-Spall, “incluindo diminuição dos testículos”. Acreditava-se que as mulheres tolerariam os efeitos colaterais melhor do que os homens, já que eles exigiam uma melhor qualidade de vida. Em 1970, a jornalista Barbara Seaman escreveu The Doctors’ Case Against the Pill. O livro detalhou os muitos efeitos colaterais do Enovid — dados que os médicos sabiam, mas esconderam de suas pacientes. O senador de Wisconsin, Gaylord Nelson, chamou a atenção para o livro.

“O senador Nelson queria uma lei sobre o direito de saber do paciente”, diz Cindy Pearson, diretora executiva da National Women’s Health Network. A pílula foi a porta de entrada para tornar a indústria médica mais transparente com os consumidores. Nelson convocou audiências do Senado em janeiro de 1970 para investigar a ligação entre o uso de pílulas e a diminuição da libido, depressão e coágulos sanguíneos. Nenhuma mulher foi convidada a falar nas audiências. As mulheres do coletivo D.C. Women’s Liberation, lideradas por Alice Wolfson, protestaram contra a falta de participação feminina nas audiências. “Deve-se admitir que as mulheres são cobaias perfeitas”, disse Wolfson nas audiências. “Elas não custam nada, elas se alimentam, limpam suas gaiolas, pagam suas próprias pílulas e remuneram o observador clínico. Nós não toleraremos mais a intimidação dos deuses vestidos de branco dirigindo antisepticamente nossas vidas”. As audiências no senado levaram a diminuição da quantidade de hormônios em contraceptivos orais, bem como a inserção na bula de 100 palavras sobre os potenciais efeitos secundários da pílula.

Se hoje é fácil fazer piada com a longa lista de possíveis efeitos colaterais listados no final da bula de cada produto farmacêutico, foram aquelas que lutaram pela transparência sobre a pílula anticoncepcional que deu às pessoas o direito de saber os riscos trazidos pelas drogas que usamos em nossos corpos. Além disso, os ensaios clínicos porto-riquenhos, eticamente repreensíveis e profundamente racistas, conduziram diretamente aos procedimentos de consentimento informado que todos os estudos médicos devem seguir até hoje. Barbara Seaman e Alice Wolfson fundaram o National Women’s Health Network (Rede Nacional da Saúde da Mulher).

Hoje, Pearson reflete sobre o modo como o controle de natalidade hormonal moldou sua organização e sua missão. “A contracepção é apenas um exemplo de que as mulheres devem saber tanto quanto há pra saber”, diz Pearson. O novo estudo dinamarquês não mudou sua opinião sobre o controle de natalidade hormonal. “O risco de depressão é conhecido desde que as mulheres foram capazes de obter os primeiros contraceptivos orais”, diz ela. O que mudou agora é que há dados para dar suporte a experiência de muitas mulheres. “Faz sentido biologicamente”, diz ela, “e tem sido relatado por mulheres durante 50 anos”.

Mas se as mulheres têm relatado depressão como um efeito colateral do controle de natalidade hormonal por 50 anos, por que apenas agora estamos obtendo dados sólidos? “Em grande parte é a falta de interesse em questões da saúde das mulheres como um todo”, diz Grigg-Spall, que acrescenta que estudar o humor é complicado, “porque, obviamente, há muitos outros fatores envolvidos”.

Grande parte da crítica ao estudo dinamarquês aponta para o excesso de possíveis variáveis no começo da depressão. Levantam a possibilidade de que os picos de depressão em meninas adolescentes tem mais haver com “paixonite”, do que com uma mudança no equilíbrio hormonal provocada pelo uso de anticoncepcionais. Outros indicam que a mídia têm noticiado as correlações relatadas no estudo de um jeito maior do que elas realmente são. Holly Grigg-Spall elogiou os dados recolhidos pelos cientistas dinamarqueses, especialmente porque a prescrição de antidepressivos era a medida da depressão, diz ela. “O estudo observou os dados, não pediu que eles se auto-avaliem.”

Pearson também ficou muito entusiasmada com os dados dinamarqueses. “Deus abençoe os escandinavos por ter serviço de saúde universalisado e manter estatísticas realmente boas!” ela diz. “Ele realmente fornece boas pistas para futura investigação” Uma das que precisa ser mais aprofundada: por que, comparativamente, os metódos com baixa concentração de hormônio, como o DIU e os anéis vaginais, estão mais correlacionados com a depressão, do que a pílula, que tem concentração maior.

De acordo com Pearson, o objetivo de estudos como este é dar às mulheres a informação de que precisam para fazer suas próprias escolhas sobre seus corpos e sua saúde. “Esta informação não deve ser escondida das mulheres por medo delas tomarem a decisão errada,” diz. “Confie que mulheres vão tomar boas decisões quando elas tiverem boa informação.”

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