Yasmin Morais
Jul 17, 2018 · 8 min read
Imagem retirada do filme “The Help”

1. Entendendo as Diferenças Dentro da Opressão

Como sabemos, mulheres são submetidas ao julgo patriarcal datando dos primórdios da humanidade. Desde eras longínquas, a hierarquia sexual na qual machos ocupam o topo e fêmeas instalam-se na base, moldou nossa percepção, cultura, religião e até mesmo, personalidade. Através da socialização (feminina e masculina), homens e mulheres são incumbidos a ocupar determinados espaços e realizar performances de acordo com o gênero imposto. Tais papéis sociais são estereotipados, sexistas e demasiado extirpadores, em especial aqueles atribuídos a nós, mulheres.

Porém, “mulher”, apesar de uma categoria demarcada através da materialidade do sexo, possuí suas próprias subdivisões. A opressão manifesta-se por intermédio de variadas nuances e sistemas que, além de baseados no sexo, também baseiam-se na etnia (raça) e classe. O jogo da opressão estende-se para além do julgo patriarcal, alcançando o âmbito racial. Ambos, homens e mulheres brancas, ocupam uma posição superior a homens e mulheres racializados, em especial, pretos. Mulheres brancas são oprimidas por homens, entretanto, graças a estrutura racista na qual vidas brancas possuem valor enquanto vidas pretas, independente do sexo, são tidas como sub-humanas, tais mulheres podem ocupar simultaneamente o papel de opressor e vítima.

No ciclo do racismo estrutural, a mulher branca está abaixo do homem branco, porém, ambos são superiores à indivíduos pretos, podendo assim exercer seu julgo sobre eles. Temos aqui, o que costumo intitular: “níveis da opressão”. Nossa sociedade subdivide e secciona ciclos opressivos. Um grande exemplo da opressão seccionada, está presente no longa-metragem indo-emirático-estadunidense The Help (Histórias Cruzadas).

Imagem promocional para o longa metragem “The Help”.

Deparamo-nos com a sociedade extremamente racista e patriarcal do Mississippi (EUA) nos anos 1960. Trazendo como tema central o antagonismo entre a vida de mulheres pretas que em sua maioria trabalhavam como empregadas domésticas, residiam em habitações precárias e estavam expostas à pobreza; e mulheres brancas, ricas e arquétipo da american housewife (dona de casa americana). Neste filme, mulheres brancas descendentes de famílias tradicionalmente escravagistas sofriam o machismo de seus maridos e a opressão patriarcal da sociedade. Entretanto, essas mesmas possuíam poder para submeter suas empregadas domésticas, mulheres pretas descendentes de escravizados que, ademais, submeter-se-iam também aos homens pretos. Simplificando, as mulheres brancas sofriam nas mãos de seus maridos e semelhantes brancos, mulheres pretas sofriam nas mãos de homens brancos, mulheres brancas e homens pretos. As personagens caucasianas tratavam suas serviçais como sub-humanas, até mesmo propondo que utilizassem banheiros diferenciados, para que não lhes transmitissem “doenças que somente pretos têm”. O contexto racial modificou o jogo da opressão no âmbito deste filme, tal qual modifica o âmbito vigente em nossa sociedade. A opressão racial é tão poderosa e estrutural quanto a opressão baseada no sexo, ambas dialogam continuamente e produzem um sistema de relações de poder e submissão complexo.

Segundo Angela Davis, a subordinação de mulheres pretas em relação às brancas é um dos legados da escravidão que permanece influenciando a construção de nossas personalidades.

[…] Facilmente implicando que as mulheres pretas diferem das mulheres brancas na medida que as lides domésticas faziam parte das obrigações escravagistas.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. p. 09.

Até os dias atuais, a socialização de mulheres brancas e pretas é diferenciada. A primeira é socializada para tornar-se uma “princesa delicada”, mãe de família, gentil, compassiva, casta e recatada. Enquanto a segunda é socializada para tornar-se a empregada da “mãe de família”, a prostituta promíscua, agressiva, silenciada e sem traquejo social ou construção positiva em relação a sua própria aparência.

Mulheres brancas possuem poder estrutural para oprimir mulheres pretas. Não há equidade sequer entre mulheres. Sim, isso também ocorre no feminismo.

2. As Diferenças da Opressão e o Movimento Feminista

O início demarca a continuidade. O feminismo como o conhecemos atualmente, surgiu da organização de mulheres majoritariamente brancas, de classe média e pertencentes à Europa Ocidental e América do Norte. Visto que a opressão sofrida por mulheres brancas e pretas é diferenciada, havia uma tendência à maximização das pautas que reafirmavam somente a emancipação da mulher branca. Enquanto a mesma era tida como inferior aos olhos do homem branco, as mulheres pretas eram tidas como inferiores aos olhos de ambos e, geralmente, afastadas da militância.

Parada do Sufrágio Feminista em New York, 6 de maio de 1912.

Este arquétipo perpetuou-se e atualmente é reproduzido dentro do feminismo em baixo ou alto grau. Mulheres brancas estavam mais “aptas” a lutar pela emancipação, pois, estavam em posição hierárquica superior e possuíam o poder que não era atribuído à mulheres pretas e racializadas em geral, nas épocas passadas. Tal sintoma perdura na contemporaneidade. Apesar de vivermos tempos diferenciados e mulheres pretas estarem a produzir teoria, militância e pautas, nossas vozes e discursos ainda são deslegitimados em relação às pautas do “feminismo branco”.

A diferença das pautas e níveis de opressão em nossos processos de emancipação, seguem por vertentes completamente diferenciadas. As pautas das mulheres brancas têm avançado consideravelmente, enquanto as pretas têm afundado-se nas maiores estatísticas de assassinato, pobreza e analfabetismo no Brasil. Trago um exemplo: no que tange a maternidade, mulheres brancas têm lutado pelo direito de levar seus filhos em todos os espaços, amamentação pública e maiores períodos de licença maternidade. Enquanto isso, mães pretas lutam diariamente para que seus filhos não sejam vítimas do genocídio nas favelas, coagidos e seduzidos para o tráfico e acabem assassinados por um Estado racista e adoecedor, com seus corpos torturados sendo abandonados em valas, vielas e até mesmo… esgotos.

Mulheres pretas são as maiores vítimas de violência doméstica e abandono marital em nosso país. Temos o maior percentual de famílias desestruturadas e somos o maior número de vítimas fatais de abortos clandestinos. Todavia, tais pautas através de um recorte racial, raramente ganham destaque nas vertentes feministas. Muito se é debatido sobre direitos que em prática, sequer comparam-se àqueles que diariamente são negados a mulheres pretas. Nossas pautas geralmente são relegadas ao esquecimento, quando não são lucrativas ou podem ser utilizadas como token(*). Feministas brancas não estão verdadeiramente interessadas em dar-nos local. Nós, mulheres pretas, estamos tomando o espaço que nos é de direito na militância, há décadas. Sem pedir licença.

Algumas feministas tentam aliar-se à mulheres pretas em determinadas causas, entretanto, não desconstroem o próprio racismo internalizado. Enquanto pessoas brancas, é usual que tentem expurgar a sensação de “dívida histórica” através da crença de que caso unam-se às causas raciais ou feminismo negro, seus privilégios serão magicamente apagados ou “perdoados”. A disparidade étnica e afromisoginia da sociedade, inviabiliza a rapidez nas conquistas de mulheres pretas.

Mulher não trata-se de uma categoria homogênea. Nossa opressão tece-se para além do gênero imposto e o sexo.

3. A síndrome da “brancoexplicação”

Trago aqui um termo derivado do famoso mansplaining (homexplicação) que, infelizmente, é presença certeira no cotidiano de mulheres pretas intelectuais e militantes. Por diversas vezes, quando discursamos ou posicionamo-nos em eventos, rodas de conversa e debates feministas, somos interrompidas por companheiras brancas que exemplificam exatamente o que estávamos a falar e agem como se tal ideia houvesse brotado de si mesmas naquele momento específico. Isso, quando não explicam para nós conceitos básicos do feminismo ou já partem do pressuposto de que não os conhecemos. Através de ações as quais sequer são reparadas pelas mesmas, feministas reproduzem o racismo estrutural e suas nuances impregnadas em movimentos sociais.

No Brasil, pessoas brancas possuem maior acesso à educação e condições de permanência em instituições de ensino. A taxa de analfabetismo entre pardos e pretos é alarmante. Como é de conhecimento, tal situação é sintoma das desigualdades raciais sofridas em nosso país desde a colonização. Por conta disso, o estereótipo de que pessoas pretas dificilmente serão cultas ou sábias, existe e também destaca-se subliminarmente no âmbito feminista. Algumas integrantes do movimento sentem que sempre necessitam “ensinar-nos algo” ou corrigir minunciosamente cada uma de nossas falas. Há uma necessidade quase subconsciente em demonstrar superioridade e demarcar territórios. Delimitar até onde uma mulher preta intelectual pode ir sem causar alvoroço, ampliar o foco das pautas e denunciar práticas racistas no movimento. Somos silenciadas dentro do próprio feminismo e por vezes, se realmente desejamos ser escutadas… carecemos modificar nosso discurso.

Imagem retirada da internet

Algo sempre escasso na vida das minorias é o direito à fala. Estamos acostumadas a não contemplar suas manifestações, falas ou reações. Estamos demasiadamente acostumadas a visualizar compassividade e subserviência nas mulheres pretas. Quando uma feminista negra não reproduz este hábito em relação às feministas brancas, logo surgem os estereótipos racistas: “você é demasiado estressada”, “está sendo agressiva”, “por que não tenta explicar quando estiver calma?”, “não consigo entendê-la”. Muitas pessoas brancas desejam apoiar as causas raciais, desde que sejam elas a falar, liderar e alimentar o próprio ego. Querem que falemos, porém, não que tornemo-nos lideranças no âmbito feminista. Perceber que mulheres pretas possuem autonomia, inteligência e capacidade para lutar por si mesmas, é dificultoso para algumas feministas. Tudo o que carecemos é espaço e receptividade a nossos discursos. Como dizia Viola Davis: “A única coisa que separa as mulheres pretas de qualquer outra pessoa é oportunidade”.

4. “Como eu posso melhorar?”

O racismo e afromisoginia estão tão internalizados nos indivíduos que por vezes, ainda que não percebam, estão reproduzindo esses sistemas de opressão e é um dever policiarem-se e desconstruírem-se. Um dos primeiros passos é escutar mulheres pretas. Não carecemos de que deem-nos voz, mas sim, ouvidos. Pois, há décadas mulheres como Angela Davis, Bell Hooks, Nina Simone e entre outras têm falado sobre racismo e formas de opressão que atingem especificadamente mulheres pretas. Assumir privilégios e parar de reproduzir falácias como a crença de que todas somos iguais e sofremos a mesma opressão, é um progresso importante. Estar ao lado de mulheres pretas sem necessitar passar-lhes a frente em suas próprias pautas ou apropriar-se de nosso discurso para validar suas falas, tornará a experiência coletiva infinitamente melhor.

É necessário perceber que nós temos voz, não somos inferiores e ergueremos nossas pautas. Bradaremos como nossas ancestrais. Você pode escolher bradar conosco ou contra nós. Pergunte a si mesma como pode tornar as relações no feminismo menos desiguais, analise suas próprias atitudes e reinvente-se enquanto feminista. Mulheres pretas não carecem de sua voz, carecemos do espaço. Carecemos da oportunidade. Carecemos do poder.

Mulheres integrantes do movimento “Black Panther”, EUA.

(*) Token é quando alguém apropria-se de uma opressão (ou minoria) que não faz parte de sua vivência, no intuito de justificar, defender ou explanar o seu ponto de vista.


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Escritora baiana, atriz e discente em Jornalismo na UFBA. Siga meu blog literário: minhadoceparanoia15.blogspot.com

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