a quantas mulheres você está de se prostituir

fêmea brava
Feb 3, 2018 · 3 min read

1. rolava meu feed dia desses e vi uma menina compartilhando uma postagem de um cara, ironizando, porque merecia ser ironizado mesmo. mas vou reproduzir mais ou menos aqui porque pretendo explicar meu incômodo. o cara dizia: se todo homem é um estuprador em potencial, toda mulher é uma prostituta em potencial. vim aqui dizer que essa frase me dá nojo, mas justamente porque ela é muitíssimo representativa do que o patriarcado entende de nós.

2. eu costumava dizer que só há dois papéis possíveis para a mulher representar na sociedade masculinista: a boa esposa ou a prostituta. a gente escuta isso desde pequenas, né? muitas vezes em situações que decretam que precisamos ser as duas: dama na sociedade, puta na cama. acontece que muitas feministas incríveis do passado vão dizer assim pra gente, ó: não se iludam. não há tanta diferença assim entre essas duas mulheres: ambas estão aqui para servir ao homem. servir sexualmente ao homem. não é à toa que acontece tanto estupro marital, ou seja, sexo sem que a mulher queira, dentro do casamento. acontece também que os homens nos sobrecarregam, em nossas relações afetivas, e nos deixam esgotadas. a maior parte de nós precisa dar conta de trabalho fora de casa, trabalho dentro de casa e filhos. com tanta sobrecarga moral e física, não há libido que se sustente. então, depois de nos esgotar, eles usam a desculpa de que não estávamos dando conta do casamento e vão seguir “seus instintos animalescos”, procurando na rua o que não têm em casa. mas, de novo, não se iludam: maridos estupram suas mulheres em casa e depois pagam por sexo na rua, ou seja, também estupram mulheres na rua.

3. isso significa dizer que “somos todas prostituídas”? em alguma medida, sim. mas tudo isso ainda é diferente de trabalhar dentro de um quarto, ou carro, ou qualquer ambiente, sendo obrigada a servir homens desconhecidos sexualmente por dinheiro por 12, 14, 16, 20h por dia. se já é difícil servir um, que você chama de marido, imagina a realidade dessas mulheres. pois é. não é tão impossível nos colocarmos no lugar dessas mulheres. especialmente se nos sentamos na segurança material. quantas vezes você já pensou que seu casamento e segurança financeira não compensam o inferno que você vive dentro de casa? quantas vezes você acha que isso passou pela cabeça de suas mães e avós? agora imagine a vida de mulheres negras, pobres, que têm suas expectativas de vida reduzidas a 35 anos, por “venderem” seus corpos nas ruas. chama-se escravização e exploração de corpos femininos.

4. dito isso, queria voltar à frase do rapaz lá em cima. sabe? o que vou dizer pode ser duro de ler, mas, apesar de imaginarmos toda a dor que uma mulher prostituída sofre; apesar de conseguirmos imaginar sua falta de segurança; seu medo; seus machucados, ainda assim, em vários momentos das nossas vidas, nós cogitamos vender nossos corpos por falta de estabilidade financeira. “se tudo der errado, faço uns bico de puta”. se isso nunca passou pela sua cabeça, provavelmente conhece mulheres que já pensaram assim. e por que é tão mais fácil pra nós assumirmos esse papel? por que homens em situação de vulnerabilidade não cogitam, assim, em primeiro plano, venderem seus corpos? porque eles são criados como seres humanos. e seres humanos não são vendíveis. não são coisas. não são pra uso de outros seres humanos. mulheres são educadas para serem esposas ou putas; mulheres são criadas para ceder seus corpos para o prazer masculino — — e a pornografia incita e difunde isso com muita destreza; mulheres casadas são estupradas por seus maridos porta a dentro, enquanto as mulheres prostituídas são estupradas porta a fora. enquanto essa realidade nos solapa a cara o tempo inteiro — ainda que não tenhamos realizado isso com todas as letras, no fundo, sabemos quais papéis podemos ou não representar, estamos todas a um triz de nos tornarmos putas. ou casadas. então, se você acha que a preocupação com mulheres em situação de prostituição não é um problema seu, senta um pouco e reflete a quantas mulheres vocês está de se prostituir.


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rebelda. feminista em luta, quebrando correntes, pela libertação de todas as mulheres. todas.

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